segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Naquela noite alguem me tocou o ombro...seria Deus?

Sobradais já ficara para traz. A brisa suave que corria junto ao rio deixava-se de sentir á medida que subíamos ao povoado. Olhando para baixo do cimo da íngreme subida, rapidamente o cansaço deixava as pernas com o êxtase de ver a paisagem maravilhosa da foz do Tua. A vindima tinha sempre o doce sabor de uma novidade renovada.
A Néia subiu ao lagar pulou nas uvas e alegremente iniciou de calção curtinho e sorriso nos lábios uma nova experiência. Deu nas uvas os primeiros passos para beber meses mais tarde do tonel o precioso néctar que pelo mundo alegra reis e plebeus. O vinho tratado por mãos hábeis, a que o Porto deu o nome. Era enorme a alegria que o seu coração deixava transparecer e os seus lábios sorrir. Que experiência magnífica. Era hora de jantar. O Mário à muito que chamara e as tias estavam impacientes.
Da primeira colher de sopa, ao primeiro esgar de dor, decorreu o tempo de um sopro. Por um instante, um curto instante senti um trovão ribombar dentro do meu peito. Olhei as árvores pela janela e reparei que o vento as dobrava como o trovão teimava em dobrar as minhas pernas. Olhei nos olhos trêmulos da Néia e tentei sorrir. Abraçamo-nos como se explodíssemos um de encontro ao outro e só paramos no hospital. O tempo movia-se dentro de si próprio movido pelo desespero e pela angustia no caminho para Vila Real. Deitado na maca da ambulância que voava por entre o fogo que atravessava cada gesto do meu corpo ali estendido, pensava em tudo e em nada. Senti naquele momento o eco frio... gelado de um caminho para onde não queria ir.
Uma lágrima furtiva a ferver-me no canto do olho correu-me pela face e o encontro com uma cama dos cuidados intensivos pareceu-me difícil e agodizante. Foi vagarosa a noite. Não sei como não morri. Sentia o coração a rebentar no centro do peito e as mãos que carinhosamente tentavam agarrar a vida que teimava em fugir. Já a madrugada ia alta quando calmo e salvo adormeci.
Já o sol entrava pela janela e traçava laivos de luz que atravessavam o ar e se fixavam no saco de soro pendurado acima da minha cabeça, quando acordei a meio da manhã com um sabor amargo e pastoso na boca. Aos poucos fui dando conta dos contornos das coisas, das formas dos objetos e, principalmente do rosto da Néia a olhar-me. Os seus lábios suspensos, a profundidade infinita dos seus olhos. O seu rosto ganhou novas formas quando abri os olhos e sorriu-me. Finalmente eu também tinha vontade de sorrir.