segunda-feira, 23 de maio de 2011

Mercadão 2000?




Ainda as estrelas brilham no céu quando a grande maioria dos vendedores chegam ao mercado. Camionetas e carregadores acotovelam-se nas ruas que ladeiam o mercadão para descarregar todos os produtos para que as bancas estejam fornecidas antes da chegada dos clientes. O cheiro das hortaliças e de mil produtos espalham-se no ar. Nas bancas laterais de comida os madrugadores comem para retemperar forças e trocam papos sobre a cumplicidade dos múltiplos negócios. Olhando o recinto é fácil verificar as várias gerações que têm ao longo dos anos zelado pela alimentação dos santarenos. Muita gente jovem de sorriso nos lábios prepara-se para ver nascer os primeiros raios de sol marcando a transição entre a noite e o dia e, atender o primeiro cliente. Os mais velhos sorriem e conversam quem sabe, recordando os primeiros dias de vendas no mercadão. A um canto, numa banca mais escondida e parodiando o velho fado da Amália...hà um romance de amor entre a Rita que é peixeira e o Xico que é pescador..ela escama vigorosamente um peixe ainda com o odor do rio que o viu nascer, ele, olha embevecido os seus olhos verdes. As frutas e os legumes alinham-se nas bancas como se de um concurso de beleza se trata-se, misturando os odores mais exóticos e as cores mais garridas num chamariz irresistivel. Do outro lado ouve-se o barulho do cutelo do açogueiro separando as carnes transformando em lombos e filés o corpo de uma lustrosa vitela. Neste jogo diário de luz e sombras não faltam as flores e o artesanato nas lojas de espaços bem demarcados. É este o retrato e a essência do Mercadão 2000, principal ponto abastecedor de Santarém. É uma verdade que a mistica deve sobreviver, mas o aspeto não deve ser revisto?. O seu interior não deve ser repensado por forma a facilitar a vida a vendedores e utentes? .A Prefeitura não deve revitalizar o espaço, criando condições de um mercado multifacetado onde a vertente cultural e lúdica se possam misturar com os cheiros das frutas e legumes e a fidelização de vendedores e clientes? .O Mercadão não poderia ser um pólo de atração turística, cultural e gastronómica?. Porque não construir uma galeria interior na área das frutas e legumes e para o piso zero mudar todos os camelós que mal instalados fazem pela vida em volta do edificio?. Porque não no segundo piso dessa galeria criar um espaço que vise aproximar a actividade turística da cidade e o potencial cultural e artistico de toda a região misturando ambientes e possibilitando á cidade mostar o que de melhor fazem os seus habitantes?. Não poderia o espaço fronteiro ao edificío levar um tratamento urbanistico que possibilita-se uma área de lazer e de espera para quem visite o mercadão?. A localização estratégica do Mercadão 2000 com a aproximação ao porto e ao principal eixo viário da cidade pode e deve ser aproveitada. Vamos colocar lá os artesãos a trabalhar, as dezenas de doceiros de Santarém a produzir e vender os seus produtos, realizar esposições, colóquios e vender livros. Deve ser estudado um conceito inovador e moderno que priviligie o contato com o turismo mas que sobretudo se torne um novo lugar de integração da cidade, do rio e do sua população. O projeto seria mais um fator de regeneração de toda a frente ribeirinha de Santarém. Sem mudanças o declinío será inevitável. Mãos á obra.

sábado, 21 de maio de 2011

Os passos diários da minha caminhada


Ao canto de uma casa de um rua sem saida uma bela morena de shorts, ténis de tacão e uma t-shirt que lhe marca o peito e a cintura, o cabelo mais claro e a pele luminosa olha-me fixamente. Mais á frente duas amigas mais bonitas que a morena tagarelam, deduzo sobre a universidade. Os livros fixam a sua atenção. A minha vizinha enfermeira cruza-se comigo no meio da rua. Neste fim de tarde de inverno a chuva parou. Ela vem de guarda chuva debaixo do braço, rimel esborratado e cabelo desgrenhado. São quase sete da tarde. Começa a escurecer. A rua que me leva ao estádio fervilha de movimento.Cruzo-me com jovens que se dirigem para o Instituto Federal e os menos jovens que começam a sair dos empregos. Os urubús são um praga, saltam-nos na frente, cruzam-se no caminho , enchem o céu. Depois de passar a segunda quadra um homem e uma mulher lutam desajeitadamente, por palavras entenda-se, não da melhor maneira. Acho que estavam em jogo alguns trocados da jorna da semana. Apressei o passo. O médico recomendara-me cerca de quarenta a cinquenta minutos de caminhada diária e não que me fixá-se nas lutas intestinas por meia duzi a de reais. A meio da terceira quadra um grupo se rapazes eterniza as velhas e clássicas amizades jogando baralho e bebendo umas fresquinhas. Olho as garrafas e dá-me sede. Não posso parar , o médico , sempre ele , avisou que os quarenta minutos são seguidos sem parar. Por isso nem tempo tenho para cumprimentar a ajudante da vizinha cabeleireira que sai de um salão da concorrência bem a li ao meio da quarta quadra do percurso. A água da chuva torrencial destes dias levou parte da rua obrigando transeuntes e automóveis a circular com precaução. A mim obriga-me a mudar de passeio e dar de caras ou antes a dar com as costas de uma neguinha curvilinea que com alguma pressa e muito bombalear se dirige-se á casa dos churrascos mesmo ali juntoao salão da Comissão de Moradores. Como diz um amigo meu que trabalha lá para os lados do estádio os olhos não comem. E ele tem razão mas que ajudam ai isso ajudam. Já levo vinte minutos de caminhada e ainda não cheguei ao estádio, local que em outras ocasiões marca o meu regresso. Quer dizer que estou a caminhar mais devagar, ou as ocorrências do percurso não me têm deixado fluir a passada. Uma amiga acena-me ao entrar para um estabelecimento de uma qualquer marca de perfumaria tão habituais no Brasil, tal era a pressa de entrar ou de me cumprimentar, que se estatelou ao bater nas irregularidades do passeio , que em Santarém são uma imagem de marca e um obstaculo para cegos, novos e menos novos como eu. Corri solicito a pegar na mãozinha da pequena. De sorriso meio envergonhado la entrou a comprar um Cardin qualquer para estar cheirosa nos encontros da orla. Para mim foi mais um contratempo na caminhada. Quando me preparo para atravessar a rua que liga a quinta quatra á rua da escola quase desmaio. Uma pirigueta de saia curta, cabelo desgrenhado, montada num bólide de quarta geração com aparelhagem xpto , com colunas sensoround de alta amperagem, desbanca um sonzinho tão alto que até a minha avó Anica se levantaria do maosuléu se a rua fosse a avenida lá do cemitério da terrinha. Caraca com o susto e as pragas rogadas por mim e pelo sapateiro que conserta sapatos na esquina da quinta quadra atrasei a caminhada e não tirei rendimento da passada. Dou volta ao sinal e retorno a casa. Fiz vinte cinco minutos. Não está mal. Mas devo passar dos cinquenta bem contados..pelo meu relógio que pelo da sogra são sempre mais. Apresso o passo. Ontem não caminhei, hoje doem-me os pés. Deu-me vontade de sentar no bar ao fim da rua bem ali no lado direito. Em que pensaria a jovem de longos cabelos, calças justas ao corpo e de olhar perdido no céu. Deve estar a pensar na forma de convencer o namorado a convida-la a um jantar romantico depois de uma longa semana de trabalho. Bom resolvo não parar o meu médico não ia gostar da paragem e, alem do mais na casa verde iam de certeza dar pela demora. Dou meia volta aos calcanhares para voltar. Descobri que já passaram trinta minutos.Vou exceder o tempo previsto alem de gastar mais solas ás sapatilhas,ainda por cima já caiu a noite e qualquer dia meto o pé onde não devia. O melhor é ir preparando o cabedal para o banho de água fria.

domingo, 8 de maio de 2011

Para que em Santarém seja sempre primavera


O rio e o céu vivem de mãos dadas no horizonte. São como dois gatos siameses que o universo juntou para que a cidade pudesse existir. Sempre quis viajar, conhecer o mundo.Viver em muitas cidades , até descobrir o lugar certo. Um Lugar certo entre um rio e o horizonte. Um lugar onde o rio e o céu se encontrem com o meu olhar. Uma terra tranquila sem nenhum segredo escondido e onde não tropece em nenhum turista de chinelos caros e de chapéu de palhaço rico. Um lugar com orla, onde aos fins de tarde me pudesse encontrar com o horizonte em que os siameses se juntam e onde a terra abrace o arvoredo, e possa deslizar nas águas com a perfeição dos pequenos gestos. Hà qualquer coisa de perfeitamente irresistivel numa cidade assim. Todos os dias dá vontade de percorrer os seus caminhos com uma vontade enorme de abraçar o rio. De lhe dizer que a cidade também é minha, de lhe contar em segredo que a vejo todos os dias vestida de primavera embora a reveje por detrás do espelho e proteste o seu presente com o desejo de ver o seu futuro. Quando a noite cai, é tempo de guardar no silêncio dos dias a vontade de voltar ver de novo o amanhecer. E é em cada amanhecer que a vida sempre nos surpreende fazendo-nos arrumar no sotão da consciência os sonhos de um passado recente fazendo-nos acreditar que a cidade viverá para lá desses sonhos. É assim esta cidade que nos obriga a andar sistemáticmente com as flores de papel presas ao coração, como se o jardim de cada peito fosse o reflexo da imagem do seu rio. A cidade faz-nos de fato amar o rio, com um amor leve e branco, feito de idéias, de sonhos, de esperança e de muitas cores. Um amor com planos e prejectos, quase adoslecente, intenso, puro e perfeito. È por isso que todos os dias visito o rio com o seu festival de cores e aromas, feito de sol e de primavera. Tu cidade que cuidas do meu coração e que nem sequer sabes, tu cidade que escreves na minha pele e fazes brilhar os meus olhos como pirilampos na noite, não deixes que os homens te matem. Protesta. Protesta sempre, para que sejas eternamente jovem. Para que seja sempre primavera.