terça-feira, 29 de novembro de 2011

Os fins de semana na orla


A orla estava cheia, normal para um fim de semana. Casais de todos os sexos, fauna mista entre os estudantes, agricultores, empregados de balcão e os habituais pescadores na procura de peixe miudo. De peixe miúdo tambem procura um certo grupinho de brilhantinas que se fazem a tudo o que meche. A um canto um cantor já a entrar na terceira idade debita umas notas uns décibeis acima do normal. Sentados nos muretes do passeio os mais jovens esperam ouvir de cada boca a doçura das palavras, sonhando e amando. A morena que se cruza comigo sorri como se o paraiso tivesse descido à terra ao escutar de celular pregado ao ouvido palavras que de certo lhe criam sonhos e ilusões. Do peito escorre-lhe o amor e a cabeça fervilha consumindo-a de paixões As noites na orla de Santarém ao fim de semana são assim, cheias de luz e de vida. Sente-se o coração pulsar debaixo da pele de cada um. A música e as gargalhadas andam de mão dada com a euforia, deixando todo o mundo numa letargia que deixa transparecer a vontade de o tempo passar devagarinho. Aproveita-se o tempo para limpar a memória, deixar o coração de molho ou simplesmente recarrega-se baterias para mais uma semana. Aqui sob um luar brilhante e uma brisa que sopra levemente, perde-se a noção do tempo. As noites são sempre azuis e apetece sob o manto das estrelas ficar até ao amanhecer. Mas é preciso partir depois de limpa a alma e reposto o prazer de viver. No ar deixaremos, como sempre, aquele desejo que algum barco vagabundo nos leve para lá do horizonte, para de novo ouvir o grito das gaivotas.

sábado, 26 de novembro de 2011

Procurar-te de novo...


Escrevo-te hoje, e aqui, porque sinto que ando de novo á tua procura. Numa noite, faz tempo, numa noite prefeita, liguei o meu coração ao teu e troquei uma parte da tua alma com a minha, enquanto dormias. Plantei nessa noite uma semente no teu coração consciente de que ela germinaria.Amarrei-me a ti. Como as palavras são os meus passos é com elas que espero te encontrar de novo. Continuo a gostar de ouvir a tua voz a embalar-me de noite antes de, tantas e tantas vezes, te encontrar nos meus sonhos.Sonhos alterados pela solidão, onde tu me apareces, na cama ,linda e sensual. Procuro todos os dias abraçar-te antes de adormeceres, e em cada manhã antes de acordares. É a paixão que nunca sabemos quando acaba ou se transforma. Contigo aprendi que o amor é uma força misteriosa e divina indiferente ao frio dos dias, ao vazio da cama ou até mesmo ao silêncio da distância. Acredito que tambem tenhas aprendido muito comigo. O tempo que temos vivido juntos tem demonstrado isso. Temos sido nós, com os nossos passos, que temos feito o nosso próprio caminho. Tudo o que vivemos até aqui é um tesouro que nunca se apagará da nossa memória. É por isso que te pergunto se não tens saudades de outras manhãs, onde os dias não pareciam frios e secos, sem oásis e miragens?.Quero voltar a sentir o teu cheiro. Quero continuar a amar-te sob este sol, este céu e o cheiro deste rio imenso que continua a ser a nossa fonte de inspiração. Não quero ser apenas espectador da nossa existência, quero participar activamente nela. Vamos viver cada minuto intensamente. Estou certo, que doravante, o amor vai trazer de volta os sons das nossas conversas, o calor das nossas mãos entrelaçadas, o sabor da minha boca na tua. Por ti percorro o céu e trago-te de volta mil estrelas cintilantes.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chove nesta manhã


Chove. No ar uma brisa ténue, nos ouvidos o som dos passaros e, no meu peito, os acordes de um novo amanhecer. Recolho-me debaixo do guarda-chuva e corro para o ónibús. O céu de Santarém aos pouco vai ficando rosa, desbotando num sorriso dessimulado. Sinto na luz da manhã o bom dia de quem passa como um calendário que se repete, deixando inundar de imagens os meus olhos. Num impulso acaricio o cabelo limpando uma gota de água que redesenhava as curvas do pescoço e , vejo uma jovem sorrir-me com os olhos, afagando-me a solidão. Olho através da janela do ónibus e revejo-me na silhueta da árvore despida, neste dia de chuva cinza claro, com grandes raizes cheias de promesas de verde que secretamente aguardam pela Primavera. O dia de chuva adormece-me a alma como se a minha letargia fosse um refugio para me esconder da solidão. Hà uma beleza especial no movimento dos transeuntes, como se fosse um baile de borboletas, desenhado pela luz do dia que nasce. As gotas de água da chuva que salpicam o pavimento largam acordes de sifonias indefinidas. Embora chovendo esta manhã está cheia de vida. Santarém acordou á muito. Mil afagos, mil botões em flor, mil raios de luz acabam por iluminar a luz de quem acredita no renovar de cada manhã. Saboreio na pele a frescura e toco com as mãos os traços de luz que me percorrem o rosto. Saio do ónibus e misturo-me na multidão. Arrepio-me quando a água me envolve fazendo-me cócegas nas ondas da vida. A chuva continua a cair. O seu ruido não é só um gotejar, é uma melodia triste mas ao mesmo tempo bonita, como o raiar timído de um sol branco que vai aparecendo para lá do rio num dia de tempestade. A natureza vai acordando preguiçosa.