
A orla estava cheia, normal para um fim de semana. Casais de todos os sexos, fauna mista entre os estudantes, agricultores, empregados de balcão e os habituais pescadores na procura de peixe miudo. De peixe miúdo tambem procura um certo grupinho de brilhantinas que se fazem a tudo o que meche. A um canto um cantor já a entrar na terceira idade debita umas notas uns décibeis acima do normal. Sentados nos muretes do passeio os mais jovens esperam ouvir de cada boca a doçura das palavras, sonhando e amando. A morena que se cruza comigo sorri como se o paraiso tivesse descido à terra ao escutar de celular pregado ao ouvido palavras que de certo lhe criam sonhos e ilusões. Do peito escorre-lhe o amor e a cabeça fervilha consumindo-a de paixões As noites na orla de Santarém ao fim de semana são assim, cheias de luz e de vida. Sente-se o coração pulsar debaixo da pele de cada um. A música e as gargalhadas andam de mão dada com a euforia, deixando todo o mundo numa letargia que deixa transparecer a vontade de o tempo passar devagarinho. Aproveita-se o tempo para limpar a memória, deixar o coração de molho ou simplesmente recarrega-se baterias para mais uma semana. Aqui sob um luar brilhante e uma brisa que sopra levemente, perde-se a noção do tempo. As noites são sempre azuis e apetece sob o manto das estrelas ficar até ao amanhecer. Mas é preciso partir depois de limpa a alma e reposto o prazer de viver. No ar deixaremos, como sempre, aquele desejo que algum barco vagabundo nos leve para lá do horizonte, para de novo ouvir o grito das gaivotas.

