quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Há Dias Assim

Há dias assim. Dias em que percebemos que somos importantes para uma pessoa e até aqui não demos valor a isso. O que enxergamos com os olhos acaba por não ser igual ao interiorizamos com a alma. É a diferença entre os olhos e o coração. Efetivamente muitas vezes não damos valor a quem segura a nossa mão sem intenção de solta-la, a quem evita as nossas lágrimas em vez de enxuga-las, ou quem cuida de nós e nos protege. Ainda é tempo, por estas razões, de regressar aos dias em que os pássaros á nossa volta cantavam hinos á alegria ou, de mãos dadas, respirávamos o ar puro do nosso rio, quando o sol nos acariciava logo pela manhã dando-nos os bons dias. Não queria neste dia diferente voltar á solidão das palavras e apenas reunir pedaços da minha vida resgata-los ás noites brancas da minha vivência, para com eles num passe de magia despertar de um sonho. Cada gesto, cada atitude, cada pequenino carinho, muitas vezes é uma celebração á renovação do amor. Hoje o dia é e vai ser diferente. Hoje o meu mundo vai para de girar por um instante. Hoje não quero o hoje. Vou querer só o amanhã para que o meu coração encontre a melodia que afaste a cada segundo o desespero da minha saudade. Hoje o rio não vai trazer o grito das gaivotas, não vai trazer o cheiro da maresia que desperta paixões e muito menos vai fazer as ondas bailar ao luar com os botos prateados á luz das estrelas. Hoje o rio não é meu amigo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Por Uma Vida

Sorris-te! Sentados na mesa do restaurante onde almoçávamos, reparei que os teus olhos brilhavam. Buscavam para lá do horizonte qualquer coisa, apenas os trejeitos dos teus lábios davam a entender um pouco do mistério. Demos as mãos e voltas-te a sorrir…E eu, olhava-te, de boca aberta surpreendido, nem acreditava que estava ali contigo. Da janela do restaurante vimos o navio subir o rio e sentimos as ondas nos beijar ao pés, sonhava. Por onde andaste tu, nos outros dias nos outros anos, antes deste momento maravilhoso, nas semanas, nos meses e nos anos em que nem existias para mim?... pousei os meus olhos sobre os teus, sobre o teu corpo, os olhos doces, a blusa colorida. Dos socalcos chegava-nos o odor de um Douro florido carregado de frutos, e eu, não esperava mais do que esta ternura que ia crescendo entre nós, distanciada que bastasse para manter mão na mão, braço no braço. Eu sei que vou te amar por toda a minha vida eu vou te amar em cada despedida...dizia o cantor e eu repito... eu vou te amar. Depois subimos a íngreme subida até á aldeia, a noite começava a cair. O teu corpo encostou no meu, cingindo-se no meu braço. Apertei-te com carinho. Eu sei que por toda a minha vida vou recordar aquele fim de semana no Douro. Dos beijos que trocámos, das promessas que fizemos, do calor dos nossos corpos a tocarem-se, da imensidão de uma madrugada que nunca mais acabava, contigo tão perto. Não foram necessárias palavras para cada um de nós entender que precisávamos um do outro. Por uma vida.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Ao Luar no Calçadão da Orla

Percorrer o calçadão da orla numa noite de luar é suficiente para contar numa roda de amigos a evolução da cidade. Ir á orla numa noite de luar, é sentir de imediato o desejo de procurar nos segredos do rio os segredos de cada um de nós. A alma da orla só é inteiramente sensível a horas tardias, quando os nossos passos, impelidos pela brisa que vem do rio, parecem suspiros da princesa da noite. A orla é o esplendor da cidade. Como um suspiro, o barulho das ondas confunde-se com o bater de muitos corações que em delírio, guardam no seu interior, mágoas de outras primaveras. " O meu coração está de luto " dizia-me hoje uma amiga. O amor não morre, digo eu. Basta conhecer a orla e o movimento da sua fauna mais atrevida para verificar que o amor vive-se intensamente em cada minuto da vida de cada um de nós. Aqui não há contatos passageiros. As conversas variam, o amor varia, mas não morre. Nos beijos que se trocam, nas juras que se fazem, nas simpatias que se fundem em desejos ardentes, o amor é a alma das noites de luar na orla. Principalmente quem como eu está atento aos movimentos dos transeuntes, apercebe-se da vitalidade e do encantamento que a orla provoca aquém a quer como sua. Não se pode estar de luto por amor. Quando muito de quarentena. Aí como é bom ir á orla em noites de luar. Quando podemos usar esse prazer, a orla de Santarém é a nossa própria existência. Nela se fazem negócios, se fala mal do vizinho, nela se mudam ideias e convicções, nela surgem as dores e os desgostos, nela se sente o amor e a emoção. Quantas vezes se encontra o amor na orla sem nós próprios sabermos. A orla de Santarém em noites de luar, chega a ser obsessão em cada um de nós, condensa as nossas ambições. Vá á orla em noites de luar e, viva o amor.