quarta-feira, 30 de junho de 2010

O caminho da floresta

Caminho por entre as folhas num trilho coberto de musgos. Na memória nada de palavras. Apenas a tua ausência. Os pingos das árvores que choram nesta manhã caiem no chão e nos meus cabelos. E quando passo a mão pelos cabelos relembro nos teus aqui no manto vazio da floresta, quanto é diferente a minha vida longe...muito longe da tua imagem. É a tua ausência, a ausência dos teus beijos que faz o meu coração acelerar desejando encontrar o teu. Aqui não há palavras. Só silêncio. Fecho os olhos para não chorar. Continuo a caminhar e a pensar em tudo e em nada. A pensar quanto de bom seria ver o teu rosto neste caminho que me parece sem fim. Sinto um frio percorrer o meu corpo e revejo os teus olhos a tua boca sensual...os teus beijos. Oiço o som das araras por debaixo do manto verde que me cobre e paro. Apetece-me sentar.A humidade da erva macia faz-me bem. Era capaz de ficar aqui uma eternidade de olhos colocados no teu corpo. De mãos colocadas no teu regaço, sentindo o teu cheiro misturado com o cheiro das hortências do teu jardim. Aqui o amor transforma-se em tempo e o tempo mata o amor. Sinto que estou sózinho e eu nubca aprendi a estar sózinho. Não tive tempo de aprender a sobreviver sem os teus olhos...sem o teu cabelo...sem os teus beijos. E é imaginando a cor dos teus olhos que sinto falta do eu que há em mim. Aqui na floresta, no silêncio que nos acompanha,o amor é apenas solidão. O tempo passa sem se sentir o tempo passar vago e imcompreensivel. Volto a reparar nas árvores no seu perfil de encantamento e medo. As araras continuam a falar comigo, as gotas continuam a parcer-me cristais espalhando deslumbramento e, a solidão continua a marcar o meu caminho. Pousei a mão no ramo de uma árvore e senti o teu corpo ofegante querer-se agarrar ao meu. O teu desespero é o meu desespero a tua angustia a minha angustia. Derrepente senti que a selva estava triste. Era tempo de voltar.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

As lágrimas da saudade

Chove lá fora.Oiço no meu quarto a chuva bater nas vidraças. O tempo convida-me a reescrever no tempo o tempo que já foi escrito ao longo dos anos. Lembro a minha juventude...o meu companheiro de escola e de aventuras...o primeiro cigarro fumado ás escondidas. Relembro o primeiro amor e o primeiro beijo roubado. O tempo de uma adolescência agitada por mil encantos e alguns desencontros. O tempo em que eu acreditava que a lampada de Aladino resolveria os mil e um problemas das agitadas mil e uma noites da minha existência. Nunca me deti a olhar para trás. Hoje era diferente. Lembrei da Cuca e do ramo de rosas que lhe ofertei no aniversário. A Cuca adorava rosas, Relembrei os seua mil encantos e os seus beijos de paixão. As imagens antigas, aquelas que ficámos muito tempo sem recordar, possuem o estranho poder de transformar o tempo. Conheci a Cuca nos bancos da escola.Emergimos atordoados num amor impossivel. Ela era na altura o grande amor da minha vida.Revejo agora na escuridão do meu quarto a sua imagem e suponho que Deus nesta altura sentirá a mesma angustia que eu. Eu e a Cuca trocámos beijos apaixonados e fizemos tantas e tantas juras de amor eterno. Ela formou-se em medicina e um dia desapareceu. Abalou sem uma palavra, sem uma justificação. Por razões que o coração desconhece abalou da minha vida. Nunca mais a vi. Recordei-a um dias destes por ironia nas páginas do meu diário. A Cuca era uma mulher de encher o olho mas ao mesmo tempo meiga e doce. O seu olhar angelical bastas vezes me deixava a vaguear nas pupilas dos seua olhos. A Cuca morreu á alguns dias. Lembrei-a hoje na melancolia de uma noite de chuva e já sinto saudades. Fui á sua despedida. Nesse momento derradeiro deixei cair na terra que cobriu o seu caixão as lágrimas que não derramei na sua despedida. A Cuca estava ali a olhar-me com o mesmo sorriso com que um dia me disse que eu era o homem dos seus sonhos, Que loucura pareceu-me ver correr na sua face de cera uma lágrima cristalina e lembrei-me da mesma lágrima que caira nas rosas que eu lhe ofertara no dia do seu aniversário, só que esta era mais copiosa e acho que enterrava de vez o nosso amor. A chuva cupiosa a bater na vidraça da janela chamou-me de novo á realidade. É verdade chove lá fora, chovem lágrimas de saudade.