quinta-feira, 10 de junho de 2010

As lágrimas da saudade

Chove lá fora.Oiço no meu quarto a chuva bater nas vidraças. O tempo convida-me a reescrever no tempo o tempo que já foi escrito ao longo dos anos. Lembro a minha juventude...o meu companheiro de escola e de aventuras...o primeiro cigarro fumado ás escondidas. Relembro o primeiro amor e o primeiro beijo roubado. O tempo de uma adolescência agitada por mil encantos e alguns desencontros. O tempo em que eu acreditava que a lampada de Aladino resolveria os mil e um problemas das agitadas mil e uma noites da minha existência. Nunca me deti a olhar para trás. Hoje era diferente. Lembrei da Cuca e do ramo de rosas que lhe ofertei no aniversário. A Cuca adorava rosas, Relembrei os seua mil encantos e os seus beijos de paixão. As imagens antigas, aquelas que ficámos muito tempo sem recordar, possuem o estranho poder de transformar o tempo. Conheci a Cuca nos bancos da escola.Emergimos atordoados num amor impossivel. Ela era na altura o grande amor da minha vida.Revejo agora na escuridão do meu quarto a sua imagem e suponho que Deus nesta altura sentirá a mesma angustia que eu. Eu e a Cuca trocámos beijos apaixonados e fizemos tantas e tantas juras de amor eterno. Ela formou-se em medicina e um dia desapareceu. Abalou sem uma palavra, sem uma justificação. Por razões que o coração desconhece abalou da minha vida. Nunca mais a vi. Recordei-a um dias destes por ironia nas páginas do meu diário. A Cuca era uma mulher de encher o olho mas ao mesmo tempo meiga e doce. O seu olhar angelical bastas vezes me deixava a vaguear nas pupilas dos seua olhos. A Cuca morreu á alguns dias. Lembrei-a hoje na melancolia de uma noite de chuva e já sinto saudades. Fui á sua despedida. Nesse momento derradeiro deixei cair na terra que cobriu o seu caixão as lágrimas que não derramei na sua despedida. A Cuca estava ali a olhar-me com o mesmo sorriso com que um dia me disse que eu era o homem dos seus sonhos, Que loucura pareceu-me ver correr na sua face de cera uma lágrima cristalina e lembrei-me da mesma lágrima que caira nas rosas que eu lhe ofertara no dia do seu aniversário, só que esta era mais copiosa e acho que enterrava de vez o nosso amor. A chuva cupiosa a bater na vidraça da janela chamou-me de novo á realidade. É verdade chove lá fora, chovem lágrimas de saudade.

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