domingo, 31 de julho de 2011

Mudámos de rua


Mudámos de rua. Nesta manhã de casa nova, o sol ás primeiras horas da manhã cobre inteiramente todo o espaço, espalhando-se com a violência de um flagelo . Por toda a rua as nesgas de sombra vislumbram-se de baixo das mangueiras. Os ónibús sobem e descem como se flutuassem ao sabor das ondas do Tapajós, e os transeuntes caminham corajosamente ao sol causticante das nove horas da manhã , deduzo que para trabalhar. O Toy dorme resignadamente á sombra do portal de entrada. Dentro de casa o abrir de malas e caixas absorve todos. Discute-se a questão do espaço e a localização dos móveis. No quintal, os descorados arbustos iluminados pelo sol vitorioso de Junho, recebem um beijo escaldante de vida, enquanto os lagartos percorrem o espaço em corridas loucas. Rápidamente tachos e panelas vão tomando o lugar devido enquanto a Ayla de dedo apontado aos tacos vai dando cera no chão. A D.Claudete com o seu temperamento singular discorre desembaraçadamente sobre o local do frizzer e a Néia segue as nuances desta ou daquela idéia. Era quase hora de almoço quando bebi café e rabisquei umas linhas no facebook dando noticia da nova morada. Para trás ficaram os buracos, o pó e a Mirdes. Agora da minha rua não vejo o rio, mas em compensação estou a dois passos dele e das minhas caminhadas na orla. Sinto-me aqui mais santareno. Não sei porquê na morada antiga parecia-me morar em Marrocos ou no Texas, se bem não visse nem turbantes nem índios, devia ser do pó. O Ferdinando como sempre foi solicito e acabei dormindo a primeira noite com o ar condicionado ligado. Embora tivessemos a ajuda de dois braços mais fortes que os meus, todos aqui em casa nem se lembram de ouvir os passarinhos quando cairam nos braços de morfeu. O sol desperta-nos sorridente e o galo canta no quintal. A D.Claudete fez uma cafézada e o cheiro inunda toda a casa. Estranho, eu hoje senti falta do barulho dos tabuleiros do Valde. Nesta nova rua todos temos esperança que o asfalto permita o refazer de mil idéias e a concretização de muitos projetos. Até o Valério e a Cathiucia estão mais perto. Estou a habituar-me aos seus mistérios, aos seus ruidos, aos seus cheiros e aos sabores inconfundiveis desta amazónia que continua a fazer sonhar. A minha rua agora tem tudo, tem flores, tem luz e brilhantes. A minha rua agora até tem poesia. Tem o grito das crianças e o sossego dos amantes.Depois de mais um dia de arrumos, quando a noite se aproximou sorrateira e eu olhei a lua nova , me lembrei de outra rua e de outros tempos. De outra rua que foi minha amiga de brincadeiras e onde tantas vezes escondi os tesouros da minha infância, e onde brincava e sorria. Mudam-se os tempos mudam-se as ruas mas a vida continua. Entrei na nova casa com a minha mala numa mão e um punhado de sonhos na outra.

sábado, 30 de julho de 2011

Noites Vazias


Quem vc é não é quem vc foi...mudou?. Acredito que não!. A noite vira chama por entre as brasas da incompreensão?. Mudou a mente com o tempo? Quero em cada volta do luar voltar a sentir saudades do teu abraço e do teu sorriso. Quero-te sentir sem temer, sem pensar em desistir. Quero-te ver sorrir e te ver sempre por perto. Quantas vezes últimamente a noite me enche de vazio levando-me para meio do nada. Tem sido no silêncio da noite que tenho percorrido de novo os caminhos que me levaram a ti. Como tambem tem sido na noite que oiço o som de muitas águas, das muitas águas que correm nesse rio que amo, falando-me dos muitos momentos de amor e de prazer que passámos juntos. E quantas vezes na noite te oiço com o coração e te vejo viva, forte, doce. Quantas vezes na noite te pedi as palavras de volta sentindo apenas o vazio?. É como se tivesses indeferido o meu sono querendo fazer-me compreender que não são palavras para pronunciar na madrugada. Penso que o que se deve passar na noite não está apenas no brilho da lua ou na brisa que vem do rio, mas sim na plenitude do amor vivido em cada momento. E são esses momentos que têm que ser aproveitados com a intensidade de um beijo ou a serenidade de um carinho. É nesses momentos que tenho a consciência clara e sublime de que o que existe entre nós não é algo perecível. mas algo que durará eternamente. Você continua a ser para mim um tesouro sem preço, bom demais para ser perdido, e importante demais para ser esquecido. Você é tudo.Você é o meu refexo, num quarto á noite onde não existem miragens, você é uma folha em branco onde eu tenho escrito tantos textos que já te dediquei. Você tem o cheiro que me seduz a cor que me apaixona e o sentimento que me refresca. Será que entendes isso tudo?. Não quero mais percorrer caminhos em noites vazias de silêncios e medos. Quero só , e simplesmente...te amar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Gaivota



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

terça-feira, 5 de julho de 2011

O segundo andar de uma rua em flor


Era naquele segundo andar de uma rua em flor, onde os ramos das mangueiras frondosas se debruçavam-se sobre a varanda, deixando nela o cheiro da verdura, a frescura da sombra e o perfume das mangas maduras, que todos os dias os dois acordavamos com o sorrir da manhã e o trinar dos pássaros nas copas das árvores. Uma brisa suave vinda do rio refrescava a atmosfera do quarto e imprimia em nós o desejo de um beijo matinal. O céu todas as manhãs trajava de azul. Felizes entrelaçava-mos os braços, olhavamos-nos nos olhos, e os nossos lábios encontravam-se num longo concerto mágico de beijos e suspiros. O sol naquela manhã, a cumprir o seu percurso, espreitava acima do horizonte. Abriamos a janela e lá estava na nossa frente o Amazonas em suaves ondulações e a seu lado, a floresta a perder de vista. Havia dias que procuravamos estar atentos ás coisas da vida, queriamos entender o significado delas e, perante a magnitude da natureza que os nossos olhos distinguiam, meditava-mos sobre a fragilidade do homem face á natureza. A manhã estava fresca. O cheiro do café fumegando exalava por toda a casa. Normalmente entravamos no banheiro e deixáva-mos a água correr pelos nossos corpos com demorado prazer. Ensaboava-mo-nos mútuamente e debaixo da água beijávamos-nos com amor. Depois experimentava-mos o silêncio olhando-nos nos olhos. Eram instantes mágicos. O dia corria veloz e quando a lua brilhava de novo por entre os galhos das mangueiras, olhavamos o céu e voltava-mos áquele segundo andar daquela rua em flor, para amar.