
Mudámos de rua. Nesta manhã de casa nova, o sol ás primeiras horas da manhã cobre inteiramente todo o espaço, espalhando-se com a violência de um flagelo . Por toda a rua as nesgas de sombra vislumbram-se de baixo das mangueiras. Os ónibús sobem e descem como se flutuassem ao sabor das ondas do Tapajós, e os transeuntes caminham corajosamente ao sol causticante das nove horas da manhã , deduzo que para trabalhar. O Toy dorme resignadamente á sombra do portal de entrada. Dentro de casa o abrir de malas e caixas absorve todos. Discute-se a questão do espaço e a localização dos móveis. No quintal, os descorados arbustos iluminados pelo sol vitorioso de Junho, recebem um beijo escaldante de vida, enquanto os lagartos percorrem o espaço em corridas loucas. Rápidamente tachos e panelas vão tomando o lugar devido enquanto a Ayla de dedo apontado aos tacos vai dando cera no chão. A D.Claudete com o seu temperamento singular discorre desembaraçadamente sobre o local do frizzer e a Néia segue as nuances desta ou daquela idéia. Era quase hora de almoço quando bebi café e rabisquei umas linhas no facebook dando noticia da nova morada. Para trás ficaram os buracos, o pó e a Mirdes. Agora da minha rua não vejo o rio, mas em compensação estou a dois passos dele e das minhas caminhadas na orla. Sinto-me aqui mais santareno. Não sei porquê na morada antiga parecia-me morar em Marrocos ou no Texas, se bem não visse nem turbantes nem índios, devia ser do pó. O Ferdinando como sempre foi solicito e acabei dormindo a primeira noite com o ar condicionado ligado. Embora tivessemos a ajuda de dois braços mais fortes que os meus, todos aqui em casa nem se lembram de ouvir os passarinhos quando cairam nos braços de morfeu. O sol desperta-nos sorridente e o galo canta no quintal. A D.Claudete fez uma cafézada e o cheiro inunda toda a casa. Estranho, eu hoje senti falta do barulho dos tabuleiros do Valde. Nesta nova rua todos temos esperança que o asfalto permita o refazer de mil idéias e a concretização de muitos projetos. Até o Valério e a Cathiucia estão mais perto. Estou a habituar-me aos seus mistérios, aos seus ruidos, aos seus cheiros e aos sabores inconfundiveis desta amazónia que continua a fazer sonhar. A minha rua agora tem tudo, tem flores, tem luz e brilhantes. A minha rua agora até tem poesia. Tem o grito das crianças e o sossego dos amantes.Depois de mais um dia de arrumos, quando a noite se aproximou sorrateira e eu olhei a lua nova , me lembrei de outra rua e de outros tempos. De outra rua que foi minha amiga de brincadeiras e onde tantas vezes escondi os tesouros da minha infância, e onde brincava e sorria. Mudam-se os tempos mudam-se as ruas mas a vida continua. Entrei na nova casa com a minha mala numa mão e um punhado de sonhos na outra.


