
Era domingo na floresta. Para Pitu era mais um domingo sonolento. A mãe como sempre fazia, chegou-se a ele e beijou-lhe o pescoço. Pitu recebeu aquele beijo doce e lento e acordou com um arrepio suspeito. Sua mãe como todas as mães sorria, e ternamente, estendeu-lhe a mão para o levantar. Havia trabalho a fazer naquele domingo. Pitu pensou como era bom que este domingo nunca tivesse nascido e o pudesse sumir do calendário. Levantou-se de um pulo. Estendeu a mão e, de uma vez , vestiu a tanguinha que a avó lhe fizera com tanta ternura.
Pitu era um menino ternurento mas eléctrico. Na aldeia todos admiravam a sua inteligência e auguravam-lhe um futuro de chefia. “...Vem Pitu...”, gritou a mãe, e ele visivelmente sorridente gritou que já ia. Saiu da cabana e olhou o rio, um sol abrasador logo pela manhã fazia o suor encontrar no seu corpo todos os caminhos.
As águas de muitos riachos, tal como há séculos, abraçavam o Amazonas e as nuvens naquele domingo armavam e desarmavam infindáveis afectos no azul celeste do céu. Pitu rejubilou. Chegou-se ao rio e suavemente passou água pelo rosto. Olhando atentamente as águas reparou, que elas não se privavam de dar vida ás imagens que nelas se reflectiam. E do seu rosto saiu aquele sorriso que cativava jovens e adultos da aldeia. Olhou de novo fixamente o rio e exclamou: “... O meu coração fala contigo vento do rio, pega na minha mão e leva-me a navegar..”.
O vento soprou baixinho como a dizer a Pitu que o rio hoje era dele. Pitu voltou a sorrir. A brisa paulatinamente foi tomando conta do espaço e do tempo. E a floresta naquele domingo, como em tantos outros, emanou sinfonias como a anunciar a Pitu que ali era a sua casa para sempre . Ficou pensativo. Pitu voltou a dar a mão ao vento e numa correria desenfreada procurou encontrar na selva o universo de novas madrugadas e de muitas mais aventuras.
Subitamente o pequeno índio resolveu ir floresta dentro á procura da arara Deuzinha sua inseparável amiga. De estilingue numa mão e com o medo na outra, subiu a uma castanheira. Num insondável mistério da natureza, Deuzinha num voo rasante poisou no ombro de Pitu como que adivinhando que o seu amigo precisava dela. A reluzente ave encostou a cabecita ao peito do seu amigo e sentiu o bater do seu coração.
Pitu embora habituado a trepar por tudo quanto era árvore, aquela castanheira lhe metia medo pelo seu porte imponente. Embora com medo, era ali que gostava de abraçar a floresta e mirar o rio. De olhos fixos no horizonte Pitu reparou, que para lá do rio um arco-iris dava os bons dias a todos. Sentiu subitamente uns pingos cairem no seu rosto. Começava a chover. As bátegas caiam numa sucessão serena e sincopada cada vez mais fortes cada vez mais intensas. Deuzinha meteu a cabeça entre as asas e Pitu aconchegou-se entre as folhas.
Era tempo de a mata se revigorar, os animais matarem a sede e a vida se fazer vida. Era tempo dos habitantes da pequena aldeia de Pitu, na sua intuição e sabedoria, se recolherem e acertarem com esta terra de seus ancestrais a próxima jornada. Pitu pensou como a mata funcionava para todo o mundo da aldeia como fonte inspiradora e catalizadora, e como o rio na sua infindável bondade dava de comer a todos. Parou de chover. Pitu tocou levemente as folhas da castanheira e sentiu o doce e fresco nectar da natureza como que beijando-o com encanto e magia.
Era hora de regressar á aldeia e ao rio. Caminhando entre as folhas num trilho coberto de musgo, Pitu sentia os pingos das árvores cairem no chão e nos seus cabelos. Deuzinha sacudia a cabeça vigorosamente para soltar a água do seu corpo. Enquanto passava a mão pela cabeça molhada Pitu no silêncio que subitamente se fizera na floresta pensava em como seria a vida para lá do rio, para lá do horizonte. Uma bicada de Deuzinha acordou-o para a realidade.
Voltou de novo a reparar em tudo o que o rodeava e, sentiu essa luz que na floresta enebria e seduz. A mata abanava ao sabor do vento acenando aos dois como anjos guardiãs da floresta indicando o caminho de regresso á aldeia. O sol projectava através dos velhos embuzeiros, sombras fantasmagóricas nos caminhos de musgo florido, servindo de tapete multicolor aos pés de Pitu.
Pitu e Deuzinha voltaram de novo ao sitio onde o rio dá a mão à floresta. Era hora de comer o tacaca que as mãos eximias da mãe já havia aprontado e de Deuzinha debicar a sua espiga de milho. A vida na aldeia áquela hora era uma mistura de mil cheiros que mobilizavam toda a gente. Pitu como sempre divagava. A região provoca alucinações funcionando como fonte de inspiração e catalizadora de muitos sonhos e, ele sonhava todos os dias e a todas as horas. O seu imaginário sobrevoava para lá do horizonte transportado em finas asas brancas numa obsessão de querer conhecer. Que haveria para lá das árvores?...onde o levaria o rio?. Mil perguntas e nenhuma resposta.
O sol voltara à floresta. Pitu na margem do rio acenava ao boto rosa, chamava-o com gestos vigorosos pois precisava dos habituais conselhos do amigo. Gabiru o boto rosa, nadou vigorosamente até à margem e com o bico afagou o rosto de Pitu. O pequeno índio subiu o dorso do amigo e os dois foram rio fora. Mergulho a mergulho as brincadeiras foram para lá das horas. Pitu só deu por isso quando o princípio da noite, depois de uma tarde bem quente, começou a deixar no rio reflexos que mais pareciam o cintilar prata das estrelas do céu.
Era hora de regressar a casa e ao regaço da mãe. Voltaram rápido à aldeia com a promessa de se verem de novo no outro dia. Gabiru rodopiou no ar e de um só salto mergulhou nas águas do rio. Pitu deliciou-se ao jantar com o pirarucu assado que o pai pescara poucas horas antes. Chegou junto à janela da oca olhou a lua e suspirou. O dia tinha sido longo e sentia-se cansado. Deitou-se na esteira. Recebeu um beijo da mãe e adormeceu.
Era para lá do horizonte, lá onde a água do rio se junta ao azul do céu que o pensamento do pequeno índio vagueava no sonho que começava a florescer no seu pensamento. Pitu agarrou a beleza do rio e da floresta, e sonhava. Embrenhou-se na selva de idéias que corriam ao sabor da brisa que entrava pela pequena janela da oca, deixando correr uma pequena gota de suor pela palma da mão. Vislumbrou os vultos que corriam no rio. Viu Gabiru, e desenhou nitidamente a canoa com que o pai diáriamente ganhava o sustento da familia. Imaginou-se dentro dela com o amigo empurrando com a ponta do bico. Uff que aventura seria ir rio abaixo descobrir o que escondia o horizonte. Agitou-se na esteira e mudou de posição. Ouvia nitidamente os gemidos que o rio deixava fugir e de imediato os associou ás princesas que nele habitavam e que o pai lhe sussurava ao ouvido nos contos das noites de insónia. Os sons do rio tiveram o condão de lhe acalmar a alma e sossegar o espirito. Pitu deixou de sonhar e adormeceu profundamente.
Pitu acordou cedo. Não esperou pela madrugada. Saltou da cama e fez-se ao caminho que tantas vezes o levava até ás estrelas. Parou junto ao rio. Olhou para traz e pulou na canoa. Olhou de novo o céu e reparou na nuvem passageira que tantas vezes tinha levado os seus sonhos para lá do horizonte, pediu-lhe protecção, e fez-se ao rio. Remou vigorosamente até ao meio e a corrente rapidamente o levou para longe. Começava ali a concretização de um sonho de anos.
Deixara uma carta em local visivel. Ela explicaria o porquê da viagem e da aventura, e evitaria que os pais o procurassem desesperadamente. Sabia no entanto que ela não evitaria as lágrimas da mãe. Aquele seria o momento que o seu coração se libertaria das suas mãos qual pássaro vivo, na afã procura de uma nova vida. Olhou com coragem o rio e procurou chamar Gabiru. Ele tinha de o ajudar a procurar o caminho para lá do horizonte. Pitu deixava a aldeia naquela madrugada na procura de outras madrugadas, lá longe, onde os mais velhos dizem morar as princesas.