Lá estava ele, saltando no rio e para o rio, Gabiru o boto rosa tinha respondido ao apelo do amigo, rodeou a canoa, encostou o bico ao casco e empurrou...fez-se com o amigo ao rio e á aventura. “ ...quero acreditar Gabiru que no fim do rio o destino vai marcar o meu tempo...” suspirou o pequeno indio. Ainda não tinha acabado a frase e um estridente piar fez Pitu voltar a cabeça. Um enorme sorriso voltou a aparecer no seu rosto. Era Deuzinha a sua amiga arara que queria tambem participar na aventura. Deixou-a pousar no seu ombro e ternamente beijou-lhe a cabeça.
Enquanto a canoa deslizava rapidamente no rio, Pitu olhava o arvoredo das margens e procurava ficar atento ao chilrear dos pássaros e ao movimento dos animais. Olhou de novo o rio, encheu os pulmões com o mesmo ar que o acordava todas as manhãs e deixou pela última vez cair as lágrimas da saudade junto ás folhas que caiam das árvores da floresta e acompanhavam o rasto da canoa. O rio à medida que avançavam, tornava-se mais abrangente...parecendo os querer abraçar à medida que a canoa sulcava as suas águas esventrando as suas entranhas. O seu caminho estava traçado, aliás o caminho deles, o dele de Deuzinha e Gabiru.
Quantos momentos assim de ansiedade ainda iria viver? muitos talvez. Até ali a sua vida tinha sido do tamanho de um coco. Metade dele tinha sido a partida, a outra metade a saudade. A partida dolorosa. Depois foi o voltar a acreditar que quando se concretiza o que se sonha nunca se perde. E ele ali estava rio abaixo á procura do seu arco-íris.
Deuzinha piou e Gabiru deixou de empurrar. Tão absorvido até esqueceu a fome. Encostaram na margem e mais uma vez a floresta como em tantas outras vezes iria servir o banquete do almoço. Gabiru pescou no rio enquanto Deuzinha pescava nas ávores. Foi lauto o almoço e curta a sesta. Era necessário navegar. De novo o rio como estrada que empolga e extasia no reencontro com a própria vida...no reencontro com o momento. Quanto faltará para abraçar o horizonte?...uma mão cheia de dias?...uma mão cheia de desejos?...uma mão cheia de olhares?...questionava Pitu.
Indiferente a estas preocupações Gabiru continuava a empurrar a canoa e Deuzinha vigiava o arvoredo na descoberta de movimentos. Subitamente o rio alargou. Um mar de água surgiu á frente dos três amigos. “...e agora?...” pensou Pitu. Gabirou saltou e com um gemido acalmou o amigo. Ele iria de novo descobrir o caminho certo.
O Amazonas em toda a sua magnitude metia medo. Pitu olhou o rio e sentiu um apelo seu para se refugiar nas suas ondas e se acalmar no verde da sua selva. Acreditava que o rio o levaria ao porto seguro dos seus sonhos, e sorriu. Que o tempo nunca mais pare para mim, sentenciou Pitu. A hora era de acreditar. A hora era de avançar sem receios.”... Procuro por todo o lado o futuro, e sei que o vou encontrar de braços abertos à minha espera...”, reafirmou Pitu.
Os três amigos repararam que nas margens do rio começavam a haver vida. Casas de madeira e fumaça saindo do seu interior. Como eram diferentes das ocas da sua aldeia pensou o pequeno índio. Quem viveria lá, índios como ele? Não quis resolver logo ali a sua curiosidade. Teve receio da animosidade dos ocupantes das pequenas casas. Era melhor seguir viagem.
Descer o rio era uma obsessão, abraçar o horizonte a meta da jornada. Pitu sentiu-se nesse momento espiritualmente reconfortado, tinha orado a Deus como a mãe lhe ensinara e sentira que tinha sido ouvido. Algo ou alguem lhe dizia que o destino estaria logo ali ao virar de mais umas margens.
Viraram a ponta das pedras e Pitu ficou estupefacto, dos céus um pássaro enorme de asas abertas rugindo, rugindo muito, preparava-se para pousar no chão. Que monstro seria aquele...porque faria tanto barulho? Pitu olhou os amigos e mais calmo disse-lhes que com mais tempo iriam averiguar e, quem sabe, montar uma armadilha para pegar o monstro. Pitu tinha um pressentimento que o fim da viagem estava perto. Há muito que vinha reparando que as casas nas margens tinham aumentado em quantidade e em tamanho.
Quando a noite começou a perder o rosto, e a madrugada despertou para um novo dia, a pequena canoa balançou subitamente. Pitu gritou e mergulhou no rio . Gabiru nadou até às profundezas, e Deuzinha de tanto dar ás asas perdeu algumas penas ao apressadamente tentar fugir do embate com a enorme lancha que vinha em sua direcção. Pitu nadou até à margem. Exausto na chegada, sentou-se na areia da margem limpou a água dos olhos e...quase caiu para o lado de espanto. “...que coisa era aquela enorme que estava à sua frente...”. A cidade estendia-lhe os braços. A orla com um movimento desusado deixava Pitu sem sangue no cérebro para pensar rápidamente como sempre fazia.
Nunca imaginaria que o seu sonho de tantas noites fosse um deslumbramento para os seus olhos e uma tão grande adrenalina para o seu pequeno coração. Enquanto Gabiru dava show com as suas piruetas estansiando os transeuntes, Pitu e Deuzinha subiram os degraus que os levavam ao abraço com o arco-íris. O neon do shoping center ainda brilhava ali mesmo à sua frente, obrigando a que Pitu deixasse rolar pelo seu rosto uma lágrima fugidia.
Era aquele o arco-íris dos seus sonhos. A mãe um dia deixaria de lhe chamar doidinho e acreditaria de vez que sonhar é fácil. Acreditar e concretizar os sonhos é que é dificíl.
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