Olho através das frechas da janela o céu. Tá negro. Está a
chover. Quase consigo cheirar daqui do meu quarto a terra molhada e ouvir os
pingos da chuva baterem violentamente no telhado. São nove e meia da manhã já
tomei o café da manhã e, como habitualmente, vou ler as capas dos jornais portugueses.
Recosto-me confortavelmente e começo a acionar
as teclas do meu notebook.
Apetece-me hoje escrever. Há dias assim. É para mim de há muito uma
sensação prazerosa. Clicar nas teclas e ver as palavras correrem ao longo do
monitor enche-me de frisson e preenche-me a alma. Alivia-me ficar no quarto
vazio, apenas eu e o meu computador a quem eu muitas vezes irritado por as
palavras não saírem corretas recrimino. Respiro fundo e os meus dedos fazem
tocar as teclas e encher de letras o branco de uma página. Hoje o meu estado de
espirito não é dos melhores tanto mais que o enjoo de ontem ainda não me
passou. Algo que comi me fez mal, provocando-me um nó no estomago que hoje
ainda persiste. Quero escrever mas o pensamento leva-me para outras paragens,
para outros tempos. Respiro profundamente, tiro as mãos do teclado, e fixo o
olhar num ponto negro algures no teto do quarto. E por ter feito ontem
aniversário recordo outro de há muito anos atrás. Também chovia. Nesse dia o
meu coração batia excessivamente depressa quando ela me estendeu a mão. Nem
queria acreditar que estava ali. Ela a minha professora de francês sorria-me
com aqueles cabelos de um loiro profundo. Pegou na minha mão e, estremeci. O
meu mundo ia caindo aos bocados nesse momento. Porque me lembraria hoje dos meus sonhos
aquecidos por loucuras que acalentavam na época o meu coração?. Nessa tarde
deixei de ser menino. Foi o meu presente de aniversário. A partir daí podia
seduzir o mundo.
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