quarta-feira, 4 de março de 2015

As palavras do meu teclado




Olho através das frechas da janela o céu. Tá negro. Está a chover. Quase consigo cheirar daqui do meu quarto a terra molhada e ouvir os pingos da chuva baterem violentamente no telhado. São nove e meia da manhã já tomei o café da manhã e, como habitualmente,  vou ler as capas dos jornais portugueses. Recosto-me confortavelmente e começo a acionar  as teclas do meu notebook.  Apetece-me hoje escrever. Há dias assim. É para mim de há muito uma sensação prazerosa. Clicar nas teclas e ver as palavras correrem ao longo do monitor enche-me de frisson e preenche-me a alma. Alivia-me ficar no quarto vazio, apenas eu e o meu computador a quem eu muitas vezes irritado por as palavras não saírem corretas recrimino. Respiro fundo e os meus dedos fazem tocar as teclas e encher de letras o branco de uma página. Hoje o meu estado de espirito não é dos melhores tanto mais que o enjoo de ontem ainda não me passou. Algo que comi me fez mal, provocando-me um nó no estomago que hoje ainda persiste. Quero escrever mas o pensamento leva-me para outras paragens, para outros tempos. Respiro profundamente, tiro as mãos do teclado, e fixo o olhar num ponto negro algures no teto do quarto. E por ter feito ontem aniversário recordo outro de há muito anos atrás. Também chovia. Nesse dia o meu coração batia excessivamente depressa quando ela me estendeu a mão. Nem queria acreditar que estava ali. Ela a minha professora de francês sorria-me com aqueles cabelos de um loiro profundo. Pegou na minha mão e, estremeci. O meu mundo ia caindo aos bocados nesse momento.  Porque me lembraria hoje dos meus sonhos aquecidos por loucuras que acalentavam na época o meu coração?. Nessa tarde deixei de ser menino. Foi o meu presente de aniversário. A partir daí podia seduzir o mundo.


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