sábado, 29 de janeiro de 2011

É Inverno


É inverno . Chuva, muita chuva. Alguma frescura na terra do calor. É tempo de pegar o guarda- chuva que na força do vento provoca o jogo do vira e do revira. O deslumbramento dos relâmpagos e o ribombar dos trovões provocam aqui no Pará um espectáculo muito especial da natureza. Chove. Gotas grossas, gotas que caiem numa sincopada leveza redentora. Da área do prédio é possivel avistar o rio e as nuvens carregadas a sobreporem-se a este céu azul que timidamente apenas observa. Gosto de estar aqui olhando o rio e o céu. Passam na rua jovens a caminho da escola, e as gotas de chuva vão caindo nos seus ombros encontrando caminho pelas palpebras semi-cerradas dos seus olhos. Continuo a conversar com a Mirdes enquanto a a água da chuva percorre os caminhos desbravados na terra da rua. O vento sopra com força sobre as mangueiras á minha frente. Uma borboleta colorida fugindo da chuva refugia-se no meu braço e as folhas das arvores cantan ao sabor do vento. Lá ao fundo o sol timidamente aparece e o rio pincela de cores coloridas o arco-iris. Aos poucos a tempestade desaparece deixando finalmente o sol beijar a vida. A Mirdes foi ao trabalho e o movimento na rua tende a normalizar. Em casa deixei de sentir e ouvir o teclado das pingas no telhado e os urubus fazem de novo voos razantes. Fez-se silêncio, a Néia voltou a sorrir.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Santarém.....a paixão da orla


Tarde, quase noite. Ao longe, o sol some-se timidamente no horizonte parecendo ser engolido pelo rio tranquilo e imenso. O Amazonas segue o seu caminho indiferente aos olhos dos que nas suas margens o admiram. No passeio junto á orla á olhares que se cruzam, corpos que se movem, sorrisos que se trocam. O movimento e o bulicío das palavras que passam de boca em boca animam como sempre o inicío de mais uma noite. Formam-se grupos de jovens ao longo da marginal e destingue-se a cada passo sons de forró e bregue saidos das caixas de ressonância dos automoveis estacionados. A alegria contagiante dos primeiros passos de dança fazem antever uma noite longa para muitos descobrirem encantos, e realçarem emoções, vivendo novos momentos. Aqui e ali casais de namorados perdem-se em beijos silenciosos fazendo quem sabe juras de amor eterno. A orla de Santarém invade-nos o nosso íntimo inundado-nos com a sua frescura uma permanente letargia como a querer-nos mergulhar na límpida clareza destas águas que nos querem beijar os pés enquanto a lua nos beija os cabelos. Este caminhar pela orla é uma pausa na sombra , uma pausa no tempo, na rotina de cada dia. E enquanto as gaivotas esvoaçam por sobre os barcos que balançam á espera de cais, o tempo avança no meu rosto marcando encontro com um novo dia. Santarém começa a adormecer e a lua brincalhona beija o rio. Depois...vai chegar a madrugada

sábado, 22 de janeiro de 2011

Uma noite de chuva...no quarto...sem sono

Hoje senti-me só nesta noite chuvosa . Santarém adormeceu hà muito e toda a gente dorme aqui em casa. Escrever é a solução encontrada para evitar contar carneiros para adormecer. Mas escrever o quê?. Decidi escrever sobre as minhas noites. Normalmente é nas noites chuvosas que apetece fazer amor, ler cartas românticas de outras primaveras, relembrar as noites invernosas do Alentejo com as castanhas assadas e o café da avó Maria, ou relembrar mentalmente a agenda das actividades do dia. Gosto dos fins de semana , habituei-me a não fazer nada pelo que é dia de levantar tarde, falar á sogra , reparar no sorriso enigmático do tio Valdo e dizer á Neia para se acalmar pois o filho Giovanni dormiu em casa. O almoço levou-me até muitos anos atrás quando a tia Anica (minha avó materna) fazia aquela dobradinha com feijão branco,a cozinheira de serviço hoje foi a Néia, hummmm estava deliciosa. Não é muito hábito mas repeti a dose. Relembrei as conversas com o Raimundo sobre as minhas pescarias á carpa e ao achegã. Como era bom passar as tardes na barragem do Pego do Altar. Continua a chover lá fora e esse facto lembrou-me da necessidade de avisar a Néia de que o nosso guarda-chuva parece um passe-vite e que é necessário comprar um. O fim da tarde foi partilhado com o Valério e a Catiucia e toda a familia em volta de umas pizas que lembraram Monte Alegre. Hà que saudades sinto da cidade, das noites romanticas e da alta voz dos rádios dos carros por baixo da janela do meu quarto. Tempos. O que a noite nos faz lembrar. O nosso quarto á noite é um daqueles locais a que nos habituamos e que se torna local de encantamento em que os sentidos proibidos não existem. Passou já uma hora e sono nada. Lembrei agora da visita ( para compras) que fiz ao mercadão aqui perto de casa e imaginem que me lembrei da ASAE e da razia que fazia se por ventura o mercadão fosse perto da minha antiga rua no Alentejo. Para finalizar, até porque o Zé-Pestana parece que vai atacar devo dizer que admiro o desconcerto humano dos fins de semana que possibilitam que sonhemos. Hahahahahaha lembrei agora a reportagem de um canal de tv sobre uma falsa loira e do grande trabalho de cirurgia efectudo na área do bumbum e por causa da bunda da loira lembrei o tal vestido que eu e a Néia apreciámos na montra da modista no centro de Santarém...ia assentar-lhe que nem uma luva

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Os Papagaios da minha rua


Na minha rua os ventos sopram favoraveis diz o Artur. O moleque sorri quando lhe pergunto se estuda. Claro que sim , responde-me rápidamente. O Artur tem escola pela manhã edelicia –se, tal como eu na minha juventude, a lançar o seu papagaio de cores berrantes pela tardinha.Recordo-me subir a encosta do castelo da cidade carregando o papagaio de papel debaixo do braço, deixando deslizar suavemente pela inclinada calçada a cauda enorme de laços coloridos. São muitos os que como eu e o Artur soltam os papagaios na minha rua. Aliás o céu de Santarém ao fim da tarde tem efeitos multicoloridos que deslizam suavemente ao sabor da brisa que neste Janeiro tem sido pródiga em ajudar o Artur a lançar o papagaio e a mim a alijeirar o calor eveitando que o suor descubra os caminhos do meu corpo. A molecada grita e corre ao longo da rua para evitar no lançamento, que o papagaio se enleie nos fios electricos que profusamente preenchem o céu da minha rua, e, evitando mais uma vez as reprimendas dos funcionários da CELPA que ao longo dos anos foram obrigados a tirar licenciatura na técnica de limpar os fios eléctricos dos restos mortais de tanto papagaio de papel. Aliás o Artur tem toda a técnica de ter um olho no papagaio e o outro no carro dos zelosos funcionários da concessionária electrica. Não sei se o Artur passa cerol na linha ou se os coloridos papeis de seda são colados aos pedaços de cana, cuidadosamente raspados,com cola de sapateiro. Nomeu tempo a técnica era ensinada á molecada da rua pelo avô Armando sempre solicito e de sorriso permanente. Dizem os entendidos que os papagaios de papel foram trazidos da China pelos portugueses que anos depois os haviam de estender pela Europra e difundir pelo Brasil. As pipas ( como são conhecidos os papagaios de papel no Brasil) da minha rua são de muitas cores, de variados formatos e feitas de diverso material. A pipa do Artur é azul, como azuis são os seus olhos fixos no papagaio que lá bem no alto desafia o voo dos urubús, e, os hábeis movimentos das suas mãos manejando o cordel fazem inveja aos movimentos do Valdo na criação de mais uma fornada de pão. Não sei se já alguem se lembrou disso, nas era tempo do Departamento Cultural da Prefeitura de Santarém deitar mãos ao lançamento do Festival Santareno de lançamento de Papagaios de Papel e, premiar a capacidade de voo e a beleza dos papagaios que, como o do Artur, aos fins de tarde enchameiam os céus da cidade.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Do Céu...ao Inferno...em minuto e meio


Quem tem acompanhado a tragédia da área serrana do Rio de Janeiro, não pode ficar indiferente nem pode deixar de se impressionar pelas imagens esmagadoras que as televisões fazem chagar até nós diáriamente. O paraíso virou inferno enquanto o diabo esfregava um olho. Porquê tudo isto?. Íncuria dos politicos dizem uns. O não respeito pelas leis da natureza replicam outros. Certo certo é que duma certeza já todos nós infelizmente sabemos, a tragédia levou da companhia dos vivos mais de 500 habitantes que viviam, riam e choravam naquele paraiso plantado por Deus mesmo ali junto á cidade maravilhosa. Friburgo,Teresópolis e Petropolis nunca mais serão as mesmas. Como seguramente nunca mais serão os mesmos os rostos daqueles que viram a vida dos entes queridos sumirem num mar de lama. Os corpos das vitimas , muitos deles, foram enterrados ás pressas sem flores, sem preces e sem lágrimas daqueles que já esgotaram as lágrimas com a dimensão da tragédia. A todo o momento assistimos a actos de heroismo. Ou porque se salva um bebe soterrado nos escombros, ou porque uma corda e mãos prestimosas arrancam da voragem das águas uma senhora que desesperadamente pedia socorro para a única testemunha do seu drama, o seu cachorro. O Rio de Janeiro ainda hà bem pouco tempo assistia na sua bela baía a fogos comemorando mais um reveillon. Milhares de pessoas fizeram brindes para um novo ano cheio de felicidade e, renovaram-se promessas de plena harmonia com a natureza, com a serra e o mar designío comum de milhares de almas. Quem diria, quem pensaria na serra, naquele segundo de um novo ano que se queria de paz renovada que muitos dos seus filhos veriam pela última vez as lágrimas de fogo caidas do céu como pétalas das flores que floriam nos seus jardins. A natureza é cruel?. Acho que não. Crueldade é o homem assistir cíclicamente a estas devastações de bens e vidas e continuar impávido e sereno á espera de um novo inferno, sempre convencido que o paraiso se vai renovando. Volta a chover forte em Nova Friburgo. Voltam a bater fortemente os corações daqueles que resistem e lutam. Até quando?. Toda a gente continua a viver momentos de tensão. Quem se atreve a medir a dimensão exata da dor de quem vive esta tragédia?..