quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Nayma a guerreira


O dia tinha nascido , e já muito cedo, o sol a aquecia corpos e corações. As guerreiras icamiabas da aldeia, haviam saido para caçar. Hoje era o primeiro de muitos dias especiais. A festa dedicada a Iaci divindade mãe do Muariquitã, tinha como ponto alto um jantar de caça em honra dos visitantes. Nessa noite os Guacaris, guerreiros de aldeia vizinha eram hospedes especiais . A selva e o rio mantinham à muitos anos o encantamento que fazia das belas mulheres da aldeia o sortilégio da disputa entre os Guacaris. A aldeia ficava situada num inespugnável vale da nascente do rio Nhamundá. As enormes cachoeiras de água, caiam em turbilhão num lago de águas verdes e transparentes, que as indias dedicavam á Lua. As quedas de água bem como a selva luxuriante, escondiam dos inimigos, as belas e famosas guerreiras. Nayma a mais jovem e bela guerreira chegou-se ás águas do lago e passou suavemente as mãos pelo rosto, saindo-lhe um enorme sorriso ao reparar na sua imagem reflectida nas águas limpidas. Olhou de novo o espelho de água e pediu a Iaci que lhe guia-se o arco e a flecha na caçada de hoje. O vento soprou baixinho dizendo a Nayma que a destreza das suas mãos fariam com que a floresta hoje fosse dela. Ela voltou a sorrir, deu a mão ao vento, e rapidamente voltou á companhia das outras amazonas. Fora a última a atravessar a passagem secreta que separava o mundo exterior da aldeia fazendo rolar o enorme bloco de pedra que fechava a entrada. Nayma olhou o céu e sentiu a brisa que pela manhã a beijava . Era tempo de se fazerem á floresta e procurar alimento. A jovem olhou o imenso arvoredo e sentiu o doce nectar que a beijava como que por magia. Caminharam longas horas por entre as árvores por trilhos cobertos de musgos frescos e macios. A caçada tinha sido produtiva e Nayma destacou-se caçando várias peças merecendo elogios da chefe guerreira. Era hora de regressar à taba e começar a preparar os festejos. Enquanto todas se dirigiram ás suas ocas. Nayma quedou-se à beira do lago. Sentou-se numa pedra olhou o lago e os reflexos prateados da lua da sua superficíe e quedou-se a sonhar. Quem seria o guerreiro guacari que amanhã lhe estava destinado?. Quem iria possuir o seu corpo belo e jovem? O chilrear de uma arara despertou-a. Nayma levantou-se , estendeu as mãos e mergulhou nas águas do lago. Voltou à oca construida exatamente onde o lago dá a mão á floresta, deitou-se, e adormeceu. Um beija-flor cantava junto á janela fazendo-a sonhar. Sonhava que o beija-flor lhe vinha trazer mensagens de amor perfumadas com as flores que cresciam por toda a floresta.O seu imaginário sobrevoava para lá do lago, ela sonhava que um jovem guerreiro de longos cabelos negros, esvoaçava, impelido pelo vendo, de braços abertos para ela. Tinha uns olhos verdes da cor das pedras que as guerreiras retiravam do fundo do lago. Era aquele querreiro guacari que ela queria para as festas em honra de Iaci. O sol voltara de novo á floresta . Nayma e várias das suas amigas correram para o lago e mergulharam. Refrescavam os corpos e revigoravam os musculos para o trabalho do dia. A taba tinha de estar linda para daí a pouco receber os guerreiros guacaris. Pouco depois soaram os tambores num ritmo alucinante. Chegavam os guacaris. Rapidamente as jovem alinharam de costas para a entrada como era tradição e cada um dos jovens guerreiros alinhava na frente de cada jovem. Era a forma ancestral que sempre orientou a escolha dos casais. O coração de Nayma batia aceleradamente, como seria o guerreiro que lhe havia caido em sorte?. As jovens se viraram e cada um dos guerreiros estendeu a mão aquela que durante as festas ia ser a sua amada. Nayma não queria acreditar. À sua frente estava o guerreiro de olhos verdes que o vento no sonho trouxera até ela. Sorrio. Baixou os olhos e com timidez estendeu a mão. No jantar os dois jovens se tocaram e beijaram inumeras vezes olhando-se olhos nos olhos com a ternura de um casal apaixonado. Pouco depois e em procissão os casais dirigiam-se ao lago cantando á luz de archotes. Nayma não parava de olhar o seu amado, no seu ombro ia um pote cheio de perfume que derramaria no lago para o purificar. A lua deixava na superficie das águas raios de luz prata provocando encantamento em todos. Chegava a hora das jovens guerreiras mergulharem nas águas limpidas e encantadas e das profundezas retirarem as pedrarias verdes onde pouco depois esculpiriam a figura de Muariquitã. Já na oca Nayma ajoelhou em frente do guerreiro arrancou uma trança do seu cabelo negro e num gesto de amor colocou o Muariquitã no seu pescoço pedindo a Iaci os desejos de sorte e de proteção para o seu amado. Ele abraçou-a num beijo de paixão incontida, de volupia e desejo. Nayma olha agora o lago, no lago dos seus olhos, que apenas guarda agora, o vazio de um sentimento que já se foi. Alguns anos mais tarde, na aldeia dos guacaris, Pitu o pequeno índio brincava alegremente,e o jovem guerreiro que te tinha amado Nayma, via nos olhos do filho a nostalgia de um amor impossivel.

(Ao meu amigo Junior Chaves, desafio lançado....desafio cumprido)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ponta de Pedras...a misteriosa


Solitária, linda e guardando no seu regaço o brilho das pratas, só Ponta de Pedras iguala o brilho das estrelas que lá longe, beijam o rio,exatamente no mesmo sitio onde o céu acaricía as águas. Sentado na areia fina da praia de olhos fixos no teu sorriso, dou por aquela estrela cadente, que enamorada, vem beijar o teu regaço . Neste cair de tarde de Julho, olhando o infinito azul das águas que vêm amar a areia branca e fina da praia, escuto o murmurio das aves num silêncio feito de solidão. O céu coberto de nuvens de algodão, transmite uma calmaria imensa a este lugar, onde sempre se desejará nascer, viver e morrer . Nesta tarde mansa, sentado nas margens, procuro entender de que veludo é feito este rio que corre altivo levando todos os meus sonhos até à foz. Ponta de Pedras é o sopro de um murmúrio, um barco escondido entre a folhagem, os olhos verdes semi-cerrados de uma qualquer princesa das águas. Uma perfeição da natureza. A lua cheia, redonda, imensa ajuda-me a perceber o que de belo e misterioso tem este tesouro escondido entre o arvoredo. Um som mavioso leva-me de novo o olhar para aquelas águas prateadas que me beijam os pés e tenho a percepção de que a princesa das águas canta para mim, ao mesmo tempo que uma núvem de algodão poisa nas árvores da floresta. A consciência ecológica torna-se neste lugar , um formigueiro doloroso, que nos desperta para a conservação da natureza, tal a beleza misteriosa destas paragens. É aqui neste lugar de areais imensos, onde as manhãs são de sol claro, o cheiro do maracujá e o gosto do açaí se misturam, onde a brisa leve e morna das madrugadas beija o rosto da princesa do rio, que se pode sonhar. Logo mais, quando o azul do céu escurecer e, o brilho do cristal das tuas águas se apagar, vou adormecer e, sonhar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Papel vazio


O Tapajós está esta noite vaidoso, calmo e vagabundo. Por cima do vôo pintado das gaivotas, que chegam para anunciar os ecos do calor, ouço os murmúrios das gentes que povoam a cidade. Quero escrever. Olho o imenso rio, até ao limite onde consigo imaginar o seu fim e reparo no ondular suave das águas. Perco-me a inventar as letras. Para lá das margens existe um oceano verde que se confunde com o céu azul. O rio faz uma corrida desenfreada acabando muitas vezes num rendilhado de espuma de encontro á quilha dos barcos que subindo procuram o porto de abrigo. Faltam-me as palavras para descrever este sortilégio. È a terceira folha de papel que rasgo, a caneta teima em não encontrar as palavras, é como quando a fonte seca e se cala. Escrever uma história, um sonho, um mergulho na alma. Volto a levantar a cabeça do papel e olho o horizonte. Sinto a caricia molhada que o vento, sussurrando trás do rio. As palavras que me fogem são vôos rasos sobre a superfície da minha pele. O que sinto de momento são apenas simples abraços de um pensamento fugitivo. As palavras travam, fogem, não aparecem. Será da magnitude do rio?. Preciso de um aconchego por forma a livrar-me do brilho baço e momentâneo do meu pensamento. Sinto um repentino desejo de tocar a água e guardar o prazer que sinto na minha pele, mas apenas pressinto a quietude do rio nesta noite encalorada. Rasgo nova folha deste bloco. Reparo agora que o céu está estrelado. Como era bom voar por sobre o rio a caminho das estrelas. Sonhar é o que estou a fazer neste momento com uma folha vazia à minha frente. Volto a pegar nas letras e encontro de novo apenas a sombra das palavras. Acho que vou desistir. Vou embarcar apenas no som melodioso que o silêncio me oferece e, deixar-me espreguiçar até que a última gota de orvalho chorada pela noite seja sugada pelo rio.

domingo, 14 de agosto de 2011

O banco da minha adolescência


Devagar, um a um, subi os degraus da ingreme subida que me levava ao castelo da minha cidade nos momentos de maior solidão. O banco de pedra ainda continua a ser o mesmo, virado para a magnifica paisagem onde ficava os Paços do Alcaide. Sentei-me à pouco tempo nele. Foi num fim de tarde debaixo de um imenso céu azul matizado de laranja. Nesse banco de pedra que me trouxe o despertar da saudade de tempos passados da minha adolescência. Mantem a mesma posição, apenas o granito está mais enegrecido pelo passar dos anos e dos temporais. Muitas vezes adormeci em cima dele e, outras vezes bem desperto fiz juras de amor. Era o banco do prazer e do desprazer. Rápidas e certeiras as memórias olfactivas do alecrim e do rosmaninho que encosta abaixo atapetavam o chão onde cantam rouxinois e, onde os corpos estilhaçados de batalhas passadas rolavam para ficarem inertes junto ao rio. Fiquei ali tempos sem fim. Olhei o horizonte e tentei descortinar vestigios das páginas escritas na tinta verde do arvoredo, que na minha adolescência eram pontos de referência na paisagem. De súbito poisou no meu joelho um simples gafanhoto de um verde pálido impelido pela brisa que no alto do morro sopra sempre quase sem se sentir. Sacudiu-o delicadamente com a ponta do indicador e reparei nos ruidos da cidade que chegavam aos meus ouvidos. Uma borboleta com as asas da cor do arco-irís voava ao meu redor e vi nela a promessa da renovação da vida. Quantas promessas ao inesgotável caminho do amor e da fraternidade fiz naquele lugar de pedra fria. Tantas, que se perderam na imensidão do tempo. Fui para longe. Cruzei mares, subi e desci montanhas. Desbarvei novos horizontes, desejando perpetuar a ausência,e manter-me afastado do banco de granito, mas, como a ausência só é sentida quando não hà vida, voltei. E depois de um Setembro feito de silêncios e de penumbras, hà uma chama que brilha de novo na esperança de renovação, redescobrindo em mim o sentido mais profundo da vida. Depois de Setembro as minhas madrugadas são coloridas. Como foi bom voltar ao meu banco de granito. Ao banco que foi para mim o elo de ligação entre o sonho e a poesia, avivando-me memórias que sempre recusei partilhar. Colhi um malmequer, dei-lhe um beijo e atirei-o ao vento.

sábado, 13 de agosto de 2011

Parou de chover


Sozinho, entre o cortinado e os vidros da janela, olho o Amazonas e vislumbro entre o negrume do fim de dia, umas réstias de sol de inverno. Gosto de ver chover. Ao longe os clarões aproximam-se. É preciso semi-cerrar os olhos ofuscados pelo clarão de um relâmpago que enche o horizonte de fagulhas amarelas e prata. Para lá longe, onde rio encontra a floresta, nota-se a chegada de uma chuva quente que descarrega de supetão neste pedaço de mundo encantado. O ritmo da chuva a bater na vidraça, apressa a euforia, o êxtase. As pessoas na rua, temerosas ou talvez não, refugiam-se por sob as frondosas mangueiras cujas folhas aterram furiosas batidas pelo vento no asfalto da rua. Uma ave minúscula empoleirada no candeeiro de iluminação da rua pia incessantemente. O vento, tremendo forte, empurra gemendo, as cordas da água de um rio revoltado. Na cidade o trânsito engarrafa as ruas, cujo pavimento regurgita com a avalanche de água que se esta a abater fazendo com que os bueiros, fiquem de bocas entupidas incapazes de dar vazão ao dilúvio, como se de um momento para o outro os estrangulassem com uma mordaça asfixiante. À minha frente Santarém enfrenta galhardamente, um inimigo tremendo, feito de um liquido que lhe está a cair em cima em catadupas, em quilolitros de fúria, como se o S.Pedro tivesse aberto todas as torneiras celestiais. Esta noite o rio vai-me inundar os olhos correndo, livre e solto, esperando voltar a vê-lo de novo na próxima tempestade em forma de nuvem, enquanto lá fora a noite avança em momentos de silêncio lento. Parou de chover.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

É urgente parar para pensar


Hoje quero deixar um apelo ao teu coração... Quero falar da importância de parar para que nos olhemos olhos nos olhos deixando de lado este mundo apressado, de velocidades loucas, que tudo devora. Acho que temos ido no caminho certo, mas também entendo que temos perdido pormenores importantes. Deixámos de descobrir, de saborear e de ver com o coração muito do que a vida nos colocou na frente. Falta de tempo e de espaço dirás tu. Pressa demais no fazer das coisa direi eu. Os corações apressados dificilmente se apercebem de tudo o que gira à sua volta. A vida é uma dádiva preciosa que precisa ser entendida. E dentro deste mundo de fantasia e magia, tu, e eu, devemos guiar o nosso amor de acordo com a voz do coração. A felicidade e o sucesso andam de mãos dadas. Por isso quero acreditar de que a vida não se faz de promessas, mas sim de determinações. Determinação no fazer, determinação no compreender e, claro, determinação no amar. Se não fizermos por ouvir o coração, não cresceremos , e muito dificilmente teremos tempo para fazermos as nossas escolhas certas ou reconhecermos os nossos erros. A nossa vida é uma dádiva preciosa para que deixemos que ela deixe de ter sentido. Por isso entendo que não poderemos esperar pelos acontecimentos mas ir ao encontro deles. E isso só se consegue parando para refletir. A sabedoria que reconhecemos um no outro ajudará a encontrar o caminho certo com a ajuda e a incrível grandeza dos espíritos. Se pararmos para meditar de certeza que até ouviremos melhor o canto do cuco, o vibrar das árvores da floresta e até mesmo o bater das asas das borboletas. Vamos refletir?...vamos parar para ouvir os nossos corações?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Os teus olhos da cor do chocolate


Quem haveria de dizer que a nossa vida iria depender do chocolate. Agora, tu tens um cidadão português cujo efeito do chocolate dá uma sensação boa pelo corpo inteiro. A energia das caminhadas vem do gosto, do olfato e da visão do teu bolo de chocolate. Dá gosto olhar para ele, tocar-lhe, senti-lo, e come-lo. Como é gostoso olhar a tua mão a dirigir a varinha na batedeira dos ovos, com os movimentos do teu corpo como se de uma orquestra se trata-se, e da qual poderias ser a diretora . Escreves coisas lindas na superfície dos bolos, que mais tarde encanta nas casas o olhar de um e outro. Falam que o adoram. Enquanto não chega a próxima encomenda, aproveito cada segundo para estar do teu lado. Passando para os teus lábios a doçura do chocolate. Tu na última encomenda não querias que ele fosse embora, mirava-lo embevecida como se olhasse uma obra de arte. Ambos acabamos por rir da cena. Rimos porque entendemos como pode ser tão gostoso fazer aquilo que se gosta. Rimos é verdade porque também somos felizes por muito pouco. Basta estar perto do chocolate. Está feliz de estar ali. E tu querias estar ali pra sempre. Tu ris porque não era nada daquilo que tinhas imaginado para a tua vida. Tu imaginas-te viajar pelas montanhas e vales da Suiça, conhecendo e comendo chocolate a meu lado. Mas ele te convence, sem palavras, só com o odor, de que o teu futuro é ali no fogão, mexendo e fazendo dele o manjar dos Deuses. Ele, o chocolate, admira o teu sorriso, e dilui-se quando o mexes. E tu, sem palavras, acarinhas, transformas e moldas fazendo do resultado final o sorriso de muita gente. Ele, o bolo de chocolate, é o cara para quem muita gente olha, nas festas de aniversário, nas tardes tranqüilas de bons papos a ver o rio ou simplesmente naquelas manhãs ainda de sono, depois de um show sertanejo e, deseja ardentemente come-lo para depois tocar as estrelas, e sentir a necessidade de amar. Depois são tempos marcados pela ternura, a doçura do chocolate quente e muitas histórias para contar. E quando a noite chega, se encerra a porta e, se ouve o vento soprar por entre as árvores do quintal , só os sonhos sobreviverão. Sentimos então o suave perfume do chocolate percorrer a noite e a casa, criando nos espíritos a doce sensação da embriaguês. Deixo nos teus lábios um beijo doce e, abrigo-me nos teus braços.