O dia tinha nascido , e já muito cedo, o sol a aquecia corpos e corações. As guerreiras icamiabas da aldeia, haviam saido para caçar. Hoje era o primeiro de muitos dias especiais. A festa dedicada a Iaci divindade mãe do Muariquitã, tinha como ponto alto um jantar de caça em honra dos visitantes. Nessa noite os Guacaris, guerreiros de aldeia vizinha eram hospedes especiais . A selva e o rio mantinham à muitos anos o encantamento que fazia das belas mulheres da aldeia o sortilégio da disputa entre os Guacaris. A aldeia ficava situada num inespugnável vale da nascente do rio Nhamundá. As enormes cachoeiras de água, caiam em turbilhão num lago de águas verdes e transparentes, que as indias dedicavam á Lua. As quedas de água bem como a selva luxuriante, escondiam dos inimigos, as belas e famosas guerreiras. Nayma a mais jovem e bela guerreira chegou-se ás águas do lago e passou suavemente as mãos pelo rosto, saindo-lhe um enorme sorriso ao reparar na sua imagem reflectida nas águas limpidas. Olhou de novo o espelho de água e pediu a Iaci que lhe guia-se o arco e a flecha na caçada de hoje. O vento soprou baixinho dizendo a Nayma que a destreza das suas mãos fariam com que a floresta hoje fosse dela. Ela voltou a sorrir, deu a mão ao vento, e rapidamente voltou á companhia das outras amazonas. Fora a última a atravessar a passagem secreta que separava o mundo exterior da aldeia fazendo rolar o enorme bloco de pedra que fechava a entrada. Nayma olhou o céu e sentiu a brisa que pela manhã a beijava . Era tempo de se fazerem á floresta e procurar alimento. A jovem olhou o imenso arvoredo e sentiu o doce nectar que a beijava como que por magia. Caminharam longas horas por entre as árvores por trilhos cobertos de musgos frescos e macios. A caçada tinha sido produtiva e Nayma destacou-se caçando várias peças merecendo elogios da chefe guerreira. Era hora de regressar à taba e começar a preparar os festejos. Enquanto todas se dirigiram ás suas ocas. Nayma quedou-se à beira do lago. Sentou-se numa pedra olhou o lago e os reflexos prateados da lua da sua superficíe e quedou-se a sonhar. Quem seria o guerreiro guacari que amanhã lhe estava destinado?. Quem iria possuir o seu corpo belo e jovem? O chilrear de uma arara despertou-a. Nayma levantou-se , estendeu as mãos e mergulhou nas águas do lago. Voltou à oca construida exatamente onde o lago dá a mão á floresta, deitou-se, e adormeceu. Um beija-flor cantava junto á janela fazendo-a sonhar. Sonhava que o beija-flor lhe vinha trazer mensagens de amor perfumadas com as flores que cresciam por toda a floresta.O seu imaginário sobrevoava para lá do lago, ela sonhava que um jovem guerreiro de longos cabelos negros, esvoaçava, impelido pelo vendo, de braços abertos para ela. Tinha uns olhos verdes da cor das pedras que as guerreiras retiravam do fundo do lago. Era aquele querreiro guacari que ela queria para as festas em honra de Iaci. O sol voltara de novo á floresta . Nayma e várias das suas amigas correram para o lago e mergulharam. Refrescavam os corpos e revigoravam os musculos para o trabalho do dia. A taba tinha de estar linda para daí a pouco receber os guerreiros guacaris. Pouco depois soaram os tambores num ritmo alucinante. Chegavam os guacaris. Rapidamente as jovem alinharam de costas para a entrada como era tradição e cada um dos jovens guerreiros alinhava na frente de cada jovem. Era a forma ancestral que sempre orientou a escolha dos casais. O coração de Nayma batia aceleradamente, como seria o guerreiro que lhe havia caido em sorte?. As jovens se viraram e cada um dos guerreiros estendeu a mão aquela que durante as festas ia ser a sua amada. Nayma não queria acreditar. À sua frente estava o guerreiro de olhos verdes que o vento no sonho trouxera até ela. Sorrio. Baixou os olhos e com timidez estendeu a mão. No jantar os dois jovens se tocaram e beijaram inumeras vezes olhando-se olhos nos olhos com a ternura de um casal apaixonado. Pouco depois e em procissão os casais dirigiam-se ao lago cantando á luz de archotes. Nayma não parava de olhar o seu amado, no seu ombro ia um pote cheio de perfume que derramaria no lago para o purificar. A lua deixava na superficie das águas raios de luz prata provocando encantamento em todos. Chegava a hora das jovens guerreiras mergulharem nas águas limpidas e encantadas e das profundezas retirarem as pedrarias verdes onde pouco depois esculpiriam a figura de Muariquitã. Já na oca Nayma ajoelhou em frente do guerreiro arrancou uma trança do seu cabelo negro e num gesto de amor colocou o Muariquitã no seu pescoço pedindo a Iaci os desejos de sorte e de proteção para o seu amado. Ele abraçou-a num beijo de paixão incontida, de volupia e desejo. Nayma olha agora o lago, no lago dos seus olhos, que apenas guarda agora, o vazio de um sentimento que já se foi. Alguns anos mais tarde, na aldeia dos guacaris, Pitu o pequeno índio brincava alegremente,e o jovem guerreiro que te tinha amado Nayma, via nos olhos do filho a nostalgia de um amor impossivel.
(Ao meu amigo Junior Chaves, desafio lançado....desafio cumprido)




