O Tapajós está esta noite vaidoso, calmo e vagabundo. Por cima do vôo pintado das gaivotas, que chegam para anunciar os ecos do calor, ouço os murmúrios das gentes que povoam a cidade. Quero escrever. Olho o imenso rio, até ao limite onde consigo imaginar o seu fim e reparo no ondular suave das águas. Perco-me a inventar as letras. Para lá das margens existe um oceano verde que se confunde com o céu azul. O rio faz uma corrida desenfreada acabando muitas vezes num rendilhado de espuma de encontro á quilha dos barcos que subindo procuram o porto de abrigo. Faltam-me as palavras para descrever este sortilégio. È a terceira folha de papel que rasgo, a caneta teima em não encontrar as palavras, é como quando a fonte seca e se cala. Escrever uma história, um sonho, um mergulho na alma. Volto a levantar a cabeça do papel e olho o horizonte. Sinto a caricia molhada que o vento, sussurrando trás do rio. As palavras que me fogem são vôos rasos sobre a superfície da minha pele. O que sinto de momento são apenas simples abraços de um pensamento fugitivo. As palavras travam, fogem, não aparecem. Será da magnitude do rio?. Preciso de um aconchego por forma a livrar-me do brilho baço e momentâneo do meu pensamento. Sinto um repentino desejo de tocar a água e guardar o prazer que sinto na minha pele, mas apenas pressinto a quietude do rio nesta noite encalorada. Rasgo nova folha deste bloco. Reparo agora que o céu está estrelado. Como era bom voar por sobre o rio a caminho das estrelas. Sonhar é o que estou a fazer neste momento com uma folha vazia à minha frente. Volto a pegar nas letras e encontro de novo apenas a sombra das palavras. Acho que vou desistir. Vou embarcar apenas no som melodioso que o silêncio me oferece e, deixar-me espreguiçar até que a última gota de orvalho chorada pela noite seja sugada pelo rio.
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