domingo, 14 de agosto de 2011

O banco da minha adolescência


Devagar, um a um, subi os degraus da ingreme subida que me levava ao castelo da minha cidade nos momentos de maior solidão. O banco de pedra ainda continua a ser o mesmo, virado para a magnifica paisagem onde ficava os Paços do Alcaide. Sentei-me à pouco tempo nele. Foi num fim de tarde debaixo de um imenso céu azul matizado de laranja. Nesse banco de pedra que me trouxe o despertar da saudade de tempos passados da minha adolescência. Mantem a mesma posição, apenas o granito está mais enegrecido pelo passar dos anos e dos temporais. Muitas vezes adormeci em cima dele e, outras vezes bem desperto fiz juras de amor. Era o banco do prazer e do desprazer. Rápidas e certeiras as memórias olfactivas do alecrim e do rosmaninho que encosta abaixo atapetavam o chão onde cantam rouxinois e, onde os corpos estilhaçados de batalhas passadas rolavam para ficarem inertes junto ao rio. Fiquei ali tempos sem fim. Olhei o horizonte e tentei descortinar vestigios das páginas escritas na tinta verde do arvoredo, que na minha adolescência eram pontos de referência na paisagem. De súbito poisou no meu joelho um simples gafanhoto de um verde pálido impelido pela brisa que no alto do morro sopra sempre quase sem se sentir. Sacudiu-o delicadamente com a ponta do indicador e reparei nos ruidos da cidade que chegavam aos meus ouvidos. Uma borboleta com as asas da cor do arco-irís voava ao meu redor e vi nela a promessa da renovação da vida. Quantas promessas ao inesgotável caminho do amor e da fraternidade fiz naquele lugar de pedra fria. Tantas, que se perderam na imensidão do tempo. Fui para longe. Cruzei mares, subi e desci montanhas. Desbarvei novos horizontes, desejando perpetuar a ausência,e manter-me afastado do banco de granito, mas, como a ausência só é sentida quando não hà vida, voltei. E depois de um Setembro feito de silêncios e de penumbras, hà uma chama que brilha de novo na esperança de renovação, redescobrindo em mim o sentido mais profundo da vida. Depois de Setembro as minhas madrugadas são coloridas. Como foi bom voltar ao meu banco de granito. Ao banco que foi para mim o elo de ligação entre o sonho e a poesia, avivando-me memórias que sempre recusei partilhar. Colhi um malmequer, dei-lhe um beijo e atirei-o ao vento.

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