quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

À procura da felicicdade


O sol, o vento, o céu e o cheiro do rio são os meus guias neste caminho escolhido à muito, desde aquele dia de Setembro em que sai pela porta da frente sem a fechar, sem olhar para trás. Pensei em desistir, em deixar de ser dono da minha própria vida, em fechar o passado procurando um caminho sem retorno. Acho ter feito aquilo que deveria ser feito. Procurar ser dono do meu próprio destino, tornando tudo mais fácil, mais simples, mais leve. Abri uma nova janela, aprendi o som de novas vozes, e novos cheiros de uma forma firme mas serena. Demorei algum tempo a quebrar um silêncio feito de sofrimento. A vida ensinou-me a encontrar o caminho do sonho. O vento, a paisagem e o rio ajudaram-me a encontrar a felicidade aqui mesmo ao alcance de um olhar. Ao alcance de um sopro. Os meus dias deixaram de ser frios áridos e secos como um deserto feito de espinhos sem oásis e miragens, para serem acompanhados por este rio que me olha todos os dias por entre memórias, flores e presentes. Nunca deixei de sonhar e de acreditar que a vida me proporcionaria o aparecimento de alguém que me ajuda-se a guardar o bolo das saudades e me ensina-se a ser feliz. Não quis correr demasiado depressa para que não perde-se a alma no trajeto. Aos poucos fui deixando que as palavras fossem os meus passos neste caminho de retorno á felicidade e fixassem no papel branco da minha vida o testemunho do meu regresso à vida.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O gemido da cotovia


Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade percorreram este céu contando as estrelas. Sonho que voava por sobre o rio, por essa imensidão de água que se estende, iluminada e calma. Por cada estrela de prata que se reflete no rio, um anjo se debruça espreitando a princesa cujas águas lhe beijam os pés, á luz do luar. A flor-da-noite abre as suas pétalas e a brisa sopra sorrateiramente por cima da copa das árvores da floresta, tocando o areal branco num abraço feito de muitas primaveras. Sentado numa faixa do areal que abraça o rio, vejo a lua sonolenta se esconder num leito de nuvens, e o nascer de uma nov a aurora, me encanto com o canto das aves e ouço o soluço de uma flor que vai sussurrar ao céu levada pelo vento. Vento que geme por entre os ramos numa sinfonia de sons. Fico ansioso no meu sono, deslumbrado com a beleza dos pirilampos que se afastam do nascer do sol. Subitamente, sinto o suave rumor da tua presença, o perfume subtil do teu cabelo, o cálido sabor dos teus beijos e, as minhas mãos parecem percorrer a pele morena e perfumada do teu corpo. Na solidão do meu sonho, o gemido da cotovia anuncia o apagar de todas as lâmpadas do céu e sobre as asas da luz do sol um novo dia se renova. Quero voltar a sonhar assim.

Era uma manhã cinzenta


Era uma manhã cinzenta. O céu vertia lágrimas por sobre os mangueirais. Meti a mão nos cabelos num gesto de angustia. Os médicos olharam-me nos olhos e sentenciaram. Tinha de ser internado. Suspirei mentalmente. O silêncio não era completo quando em cadeira de rodas me levaram ao terceiro piso. O chiar da cadeira e o meu lamento com as dores, quebravam a rotina daquele penoso caminho. A Néia dotada de extrema sensibilidade e afetuosa, apanágio da sua alma forte, acarinhava-me e dava-me o alento necessário para ultrapassar o cativeiro que se prolongou quase a trinta dias. As primeiras noites foram passadas sentado na cama com os cotovelos fincados nas pernas e as dores atormentando-me o espírito. As palavras de conforto de pouco serviam, só a morfina dada já madrugada dentro me derrotava e estancava as lágrimas que bebia em silêncio. Adormecia já no céu se apagavam as estrelas. Havia luar naquela noite de segunda-feira. O céu estava límpido e uma infinidade de estrelas quebrou o nervosismo de quem lá pela manhã entraria no centro cirúrgico. A manhã de terça-feira estava fresca e serena. O silêncio foi quebrado pela Néia, era hora de banhar e de me preparar para descer. No centro cirúrgico deitado na marquesa com os braços abertos qual Cristo crucificado, apenas reparei no perfil, nos cabelos e na tez branca do Dr.Tozzi. Com a boca entreaberta e os olhos parados, senti a vida fugir-me e o sangue correr vagarosamente a caminho do coração. Depois de repente fez-se noite .Um céu claro e límpido, um ar puro, o sol a ser coado pelas vidraças das janelas e Deus mais uma vez a meu lado ao abrir os olhos. A Néia observou-me por uns segundos pegou-me na mão e sorriu. Estava de novo vivo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O fechar de uma época


Janelas outrora bonitas de casa senhorial, pintadas e reluzentes sempre a olhar o rio imenso, que à sua frente caminha indiferente até ao mar. Das suas varandas foram ouvidas serestas e juras de amor ou angustiados lamentos da lancha que não chegava. Quantas vezes escutaram segredos e ouviram lamentos. Todos os dias o sol espreguiçava-se pelas suas fachadas e viam as nuvens caminharem sobre as águas do rio, impelidas pela brisa de cada manhã. Hoje, sob a árvore de sombra benfazeja, de copa volumosa com folhas e pássaros, esquecidas e sozinhas, deixaram de sorrir. Lamentam a indiferença dos homens e ,envergonhadas, fecharam-se para ninguém poder ver a tristeza da degradação. Orações invisíveis ecoam para lá das paredes anunciando um prenúncio de morte. O tempo não pára, só as águas do rio se movem levando os sonhos de uma reabilitação. Uma andorinha pousa no parapeito dando-lhe uma dimensão de vida...até quando?.