
Era uma manhã cinzenta. O céu vertia lágrimas por sobre os mangueirais. Meti a mão nos cabelos num gesto de angustia. Os médicos olharam-me nos olhos e sentenciaram. Tinha de ser internado. Suspirei mentalmente. O silêncio não era completo quando em cadeira de rodas me levaram ao terceiro piso. O chiar da cadeira e o meu lamento com as dores, quebravam a rotina daquele penoso caminho. A Néia dotada de extrema sensibilidade e afetuosa, apanágio da sua alma forte, acarinhava-me e dava-me o alento necessário para ultrapassar o cativeiro que se prolongou quase a trinta dias. As primeiras noites foram passadas sentado na cama com os cotovelos fincados nas pernas e as dores atormentando-me o espírito. As palavras de conforto de pouco serviam, só a morfina dada já madrugada dentro me derrotava e estancava as lágrimas que bebia em silêncio. Adormecia já no céu se apagavam as estrelas. Havia luar naquela noite de segunda-feira. O céu estava límpido e uma infinidade de estrelas quebrou o nervosismo de quem lá pela manhã entraria no centro cirúrgico. A manhã de terça-feira estava fresca e serena. O silêncio foi quebrado pela Néia, era hora de banhar e de me preparar para descer. No centro cirúrgico deitado na marquesa com os braços abertos qual Cristo crucificado, apenas reparei no perfil, nos cabelos e na tez branca do Dr.Tozzi. Com a boca entreaberta e os olhos parados, senti a vida fugir-me e o sangue correr vagarosamente a caminho do coração. Depois de repente fez-se noite .Um céu claro e límpido, um ar puro, o sol a ser coado pelas vidraças das janelas e Deus mais uma vez a meu lado ao abrir os olhos. A Néia observou-me por uns segundos pegou-me na mão e sorriu. Estava de novo vivo.
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