quarta-feira, 15 de maio de 2013

Memórias

O intemporal dissipa-se nesta chuva de inverno. Os pingos esbatem-se no meu rosto como lágrimas de saudade. Lágrimas que parecem ressuscitar um impulso adormecido, desconhecendo a sua cor em expressões de saudade. A cada momento, protejo e escondo a minha escrita dentro da memória de cada letra, para que possa entre cada passo, ouvir o ruído da saudade do meu tempo. Sem pressas, percorro a orla debaixo de um sol que timidamente insiste em romper as brumas. Olho em volta. Sinto falta da minha ausência e de sentir a falta de não sentir, desfrutando o presente ás escondidas do tempo nesta imensidão de sentimentos. A minha alma vagueia sedenta, cavalgando na noite, por sobre as águas do rio, na busca de uma réstia de memória adormecida. Quiçá os meus anseios, os meus medos, as minhas risadas ou quem sabe um pouco daquele amor de um outro dia. Sinto uma derrota interior pela minha inabilidade e pelo fracasso da minha memória. Chego á conclusão de que muitas vezes as minhas palavras desaparecem nas linhas do infinito, para depois voltarem a ser reencontras numa qualquer madrugada. Como é difícil responder a todas as inquietações do meu cotidiano. Fito as águas do rio como se o seu leito ajudasse a direcionar perguntas e respostas, como se eu pudesse reivindicar ao rio a paternidade dos meus sonhos.

terça-feira, 7 de maio de 2013

O Comando ...da televisão

No escuro do quarto a minha mão, deslizando no lençol, procura o comando da televisão. Sou presa fácil e espontânea de um comando de televisão. É assim a minha noite. Eu e a televisão. Momentos de êxtase, pedacinhos soltos de sedução de um aparelho que me fala em silêncio. Como acontece nas várias noites em que a insônia me vence e as idéias para escrever se esfumam, são os filmes ou a leitura que povoam os meus sonhos, aumentando a labareda alta de um prazer notívago. Nenhum músculo do meu rosto se meche quando vejo o Hause ou estou de olhar fixo na CSI. Cruzo as mãos atrás da cabeça uma vez. Duas vezes. Várias vezes. Eu, a noite e a televisão, dimensões do espaço e do tempo que se ultrapassam com um simples olhar, sem palavras e sem gestos, nos momentos de solidão. Uma vez por outra fico a leste das emoções apenas sentindo a chuva bater no telhado e aprendo a decorar todos os silêncios. Como a vida é estranha. A vida sem sonhos não vale nada, vale-me carregar no comando para que nos variados canais eu vá ganhando força para a indignação, para um sorriso, para uma lágrima e até para um sonho. Envelhecer é tramado. Não há comando que resista. Existem noites em que por mais que mudemos de canal a doçura das memórias não nos aquecem, as noites arrastam-se e nada é o que deveria ser. É como andar á deriva no Tapajós e sentir subitamente a floresta engolir o rio e eu acordar sentado numa bananeira. Não resisto mais. Vou embrulhar as minhas memórias, os meus risos e lágrimas, clico no comando e vou dormir

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Cheiro a terra e água

Silencioso vou vagueando na areia da praia cheio de vazios sujos marcados no corpo, consolado no meu mundo de sonhos. Olho este rio cheio de mistérios e encantos. De um lado a floresta verde e tentadora , do outro, as margens nuas de solidão. Vejo o despertar do encontro noturno feito de fantasias e a espuma das ondas dissolvendo-se no espaço descampado do areal cor de ouro. Olho esta imensidão de água azul lambida por um nascer do sol de filmes de amor e de desejo absoluto de liberdade. Fico de pé, hirto, fixo e irremovível ,encarando o horizonte á minha frente, recebendo a força do sol que rasga os detalhes da floresta . Floresta que se cala ao admirar como eu, esta força da natureza que é o Tapajós. O cheiro a terra e água, circula com raiva pelo ar a declarar vitoria sobre os meus sentidos. Quero conhecer todos os segredos do teu percurso. Acrescentar segredos à minha solidão. Meus ouvidos se tornaram no aconchego dos sons sublimes que a brisa provoca na água, esperando a próxima música, com a intensidade de um começo de dia. Vou voar para casa. Apagar todas as minhas luzes e, ensinar à minha tristeza que sorrir é o melhor sentimento para quem, depois de um nascer do dia assim, precisa de dormir.