sexta-feira, 7 de junho de 2013

A cidade adormecida

Lá ao fundo, visto da orla, onde o céu beija o rio, o sol transforma o horizonte num manto colorido de vermelho, castanho e laranja. É a noite que se aproxima. Gaivotas esvoaçam por cima do trapiche e lançam-se no espelho azul do rio. Vagueio um pouco no chão áspero do calçadão ouvindo o chilrear dos pássaros de mil cores e, fixando-me no leito do rio, reparo nas cores desmaiadas já do principio da noite. Um uivo triste de um cão faz-se ouvir para os lados do mirante. Sob a luz trêmula de um candeeiro a última borboleta saltando de flor em flor refugia debaixo de uma folha. Enquanto as sombras se levantam para cá do casario namorados beijam-se e amigos reencontram-se. Escuto o sussurro do rio e encanto-me com o traço luminoso da lua que deixa mil pirilampos na sua superfície. No frio prateado da noite ouve-se o som de uma viola e ao passar por uma morena, ela deixa no ar um perfume fresco, evasivo e doce e, as suas formas arredondadas estão pintadas com as cores da Primavera. Uma lágrima de orvalho que desliza de um fio de luz desenhado na sombra de uma mangueira frondosa cai-me no rosto. Sem pressa, tranqüilo, devagar vou percorrendo a noite e sorrindo ao luar. O ruído urbano dos motores deixa-se de ouvir mergulhando a noite num doce silêncio. A noite vai-se aninhando junto ás minhas raízes enquanto sinto o perfume da terra húmida. Santarém já adormeceu, e eu, mergulho enfim nesse oceano mágico da noite e dos sonhos.

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