De ti só quero o cheiro dos lilases
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
e a tua voz de sombras e matizes
De ti só quero o riso que não ouço
quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
vampiro que já sou da tua luz
De ti só quero as rosas amarelas
que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
da casa abandonada dos meus dias
De ti só quero o eco do teu nome
e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
mendigo que já sou da tua pele.
ROSA LOBATO FARIA,
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Carta ao Papai Noel
Querido Papai Noel.
Batem as horas na noite. Santarém adormeceu. Hora ideal para te escrever mais uma vez. O coração guarda Papai Noel, o que nos escapa das mãos, e o natal é sempre tempo de falarmos um com o outro acerca daquilo que o coração guarda. Como queria nesta hora encontrar aquele conjunto mágico de palavras para te falar do muito que me aflige nestes dias que correm. Falar-te sem reservas. Tu sabes que um coração como o meu, tímido e rebelde, carinhoso e aventureiro, mas ao mesmo tempo rebelde e selvagem, viveu de paixões, teve desenganos e encantamentos, e tantas vezes planou como uma borboleta por cima de um campo de girassóis. Foi muitas vezes um coração simples, carente de afetos que fez dos poemas a seiva com que se alimentava. Foi tantas vezes resistente e outras frágil como o papel. O ano está quase a terminar Papai Noel. É altura para te confessar que fiz algumas borradas em decisões que tomei, que tive das enfrentar e seguir em frente. Não havia alternativa meu amigo. Contudo sinto-me em paz, mais calmo, mas ainda a necessitar da tranquilidade necessária para percorrer o meu caminho. É altura de colocar o sapatinho á chaminé e fazer os pedidos de presentes. Papai Noel me dá de presente a tranquilidade e a força necessárias para o que ainda falta percorrer. Depois um pedido mais simples. Pedir-te para todos os meus amigos, para todos os que amo, para todos aqueles que eu involuntariamente fiz sofrer e, ainda para todos os que ao longo do ano fizeram parte da minha vida, que de alguma forma a preencheram, que o ano de 2015 seja um ano de saúde plena e de alegria constante. Queria fazer mais um pedido. Espalha milhões de rosas, mistura-as com a maresia do meu rio para que o aroma delicioso se espalhe pelas ruas de Santarém, ganhando em cada um de nós a forma de um sorriso. Há ia esquecendo deixa no meu sapatinho uma caixa de Mon Chery tá.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
É Natal
Tive saudades de escrever. E hoje na solidão das palavras e, na estranha claridade que advém da luminosidade da época, resolvi conversar tentando com estas palavras reunir pedaços de uma vida e com elas alimentar o ato de amor em que se transformou a nossa vivência em comum ao longo destes oito anos. Tal como hoje, lembro-me que o natal estava perto. Recordo-me da noite da chegada. Do teu rosto ruborizado e do treme treme das minhas mãos. Relembro o enlaçar dos nossos olhos na fita colorida do sorriso e das nossas mãos unidas. Éramos como dois adolescentes que no vendaval das nossas paixões, num rubor de ternura e com a alma em chamas procuravam no comprimir dos seus corpos não apenas o desejo do nosso enlace mas sobretudo a urgência do despertar de um sonho. Foram momentos de magia E nesse instante mágico, soubemos que no pousar dos teus lábios nos meus a clara madrugada dos nossos sonhos nascera logo ali. Tive saudades de escrever...de conversar...no fundo tive saudades de sussurrar ao coração outros momentos. O Natal é sublime para isso e, a luz do sol, o calor da noite, o chilrear dos pássaros ou a brisa que vem do rio despertaram na minha alma o desejo enorme de te abraçar. Nada mudará. Ontem como hoje as minhas mãos continuam a tremer, porque na imensidão linda deste local de magia jamais esquecerei as juras de amor, a troca de beijos o sentir dos teus carinhos, numa Belém em flor. É Natal, tempo de amor e reafirmação.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Recordando nas areias do Maguari
Um dia encontrámo-nos por aí, Por aí não. Em sítio certo. No seguimento do acumular de horas incontáveis no pc, Apertados daquela angústia grossa de nos conhecermos. Interrogando-nos, cada um de nós, no infinito do pensamento e, na vaga sensação de acordarmos na paisagem vertiginosa e luminosa de uma praia. Desarmando os olhos, e temendo desvendar o rebentar das ondas do rio. A internet juntou-nos, lembras-te?, Como se tivéssemos sentados na pedra do banco de um jardim qualquer, adormecidos no silêncio que havia por entre os sons de um teclado. Tu na altura perguntaste: ...o rio vai nos unir?... eu respondi que só o futuro iria responder a essa pergunta. Tinhas na altura o rio nos teus olhos...e nos cabelos os trigais de um Alentejo em flor. Depois, mais tarde, quando o olhar se perdia, inquieto, sobre o oceano, tornaste tua a minha voz e juramos amor eterno. Na altura o rio tornou-se transparente e as ondas flores de água. A tua mão na minha, feita pássaro bravio pela surpresa, alvoroçava-me o sangue e o coração batia mais forte. Pedi-te então para abrires para mim os caminhos do teu regaço para eu poder ao som das músicas e dos aromas sentir-te por dentro. Dei então conta, que a vida é feita de pequenos nadas registados um a um. Cada gesto, cada sorriso, cada beijo me pareceu então os vagidos de uma criança a nascer, uma onda a rebentar na areia ou montes de pássaros rasgando os caminhos como o sangue nas veias. Foi um delírio. E ris-te, os dois rimo-nos, debaixo do cheiro do alecrim de um campo coberto de flores. Demos as mãos e acreditas-te, e eu acreditei, que me conduzirias por caminhos algures por aí. Um caminho e um violão. Este amor feito canção. E eu de boca aberta nem acreditava. Olhando o sol sobre este rio que nos separa, no cimo do trapiche, perguntava-me por onde tinhas andado tanto tempo sem te encontrar. Como foi possível tanto tempo perdido. Por onde andas-te tu flor de jasmim de um jardim que eu teimo em preservar?. Deixa pousar novamente os olhos sobre os teus, deixa provar o doce sabor dos teus beijos, deixa encontrar o calor do teu corpo. Deixa voltar a ser feliz de novo.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Há Dias Assim
Há dias assim. Dias em que percebemos que somos importantes para uma pessoa e até aqui não demos valor a isso. O que enxergamos com os olhos acaba por não ser igual ao interiorizamos com a alma. É a diferença entre os olhos e o coração. Efetivamente muitas vezes não damos valor a quem segura a nossa mão sem intenção de solta-la, a quem evita as nossas lágrimas em vez de enxuga-las, ou quem cuida de nós e nos protege. Ainda é tempo, por estas razões, de regressar aos dias em que os pássaros á nossa volta cantavam hinos á alegria ou, de mãos dadas, respirávamos o ar puro do nosso rio, quando o sol nos acariciava logo pela manhã dando-nos os bons dias. Não queria neste dia diferente voltar á solidão das palavras e apenas reunir pedaços da minha vida resgata-los ás noites brancas da minha vivência, para com eles num passe de magia despertar de um sonho. Cada gesto, cada atitude, cada pequenino carinho, muitas vezes é uma celebração á renovação do amor. Hoje o dia é e vai ser diferente. Hoje o meu mundo vai para de girar por um instante. Hoje não quero o hoje. Vou querer só o amanhã para que o meu coração encontre a melodia que afaste a cada segundo o desespero da minha saudade. Hoje o rio não vai trazer o grito das gaivotas, não vai trazer o cheiro da maresia que desperta paixões e muito menos vai fazer as ondas bailar ao luar com os botos prateados á luz das estrelas. Hoje o rio não é meu amigo.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Por Uma Vida
Sorris-te! Sentados na mesa do restaurante onde almoçávamos, reparei que os teus olhos brilhavam. Buscavam para lá do horizonte qualquer coisa, apenas os trejeitos dos teus lábios davam a entender um pouco do mistério. Demos as mãos e voltas-te a sorrir…E eu, olhava-te, de boca aberta surpreendido, nem acreditava que estava ali contigo. Da janela do restaurante vimos o navio subir o rio e sentimos as ondas nos beijar ao pés, sonhava. Por onde andaste tu, nos outros dias nos outros anos, antes deste momento maravilhoso, nas semanas, nos meses e nos anos em que nem existias para mim?... pousei os meus olhos sobre os teus, sobre o teu corpo, os olhos doces, a blusa colorida. Dos socalcos chegava-nos o odor de um Douro florido carregado de frutos, e eu, não esperava mais do que esta ternura que ia crescendo entre nós, distanciada que bastasse para manter mão na mão, braço no braço. Eu sei que vou te amar por toda a minha vida eu vou te amar em cada despedida...dizia o cantor e eu repito... eu vou te amar. Depois subimos a íngreme subida até á aldeia, a noite começava a cair. O teu corpo encostou no meu, cingindo-se no meu braço. Apertei-te com carinho. Eu sei que por toda a minha vida vou recordar aquele fim de semana no Douro. Dos beijos que trocámos, das promessas que fizemos, do calor dos nossos corpos a tocarem-se, da imensidão de uma madrugada que nunca mais acabava, contigo tão perto. Não foram necessárias palavras para cada um de nós entender que precisávamos um do outro. Por uma vida.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Ao Luar no Calçadão da Orla
Percorrer o calçadão da orla numa noite de luar é suficiente para contar numa roda de amigos a evolução da cidade. Ir á orla numa noite de luar, é sentir de imediato o desejo de procurar nos segredos do rio os segredos de cada um de nós. A alma da orla só é inteiramente sensível a horas tardias, quando os nossos passos, impelidos pela brisa que vem do rio, parecem suspiros da princesa da noite. A orla é o esplendor da cidade. Como um suspiro, o barulho das ondas confunde-se com o bater de muitos corações que em delírio, guardam no seu interior, mágoas de outras primaveras. " O meu coração está de luto " dizia-me hoje uma amiga. O amor não morre, digo eu. Basta conhecer a orla e o movimento da sua fauna mais atrevida para verificar que o amor vive-se intensamente em cada minuto da vida de cada um de nós. Aqui não há contatos passageiros. As conversas variam, o amor varia, mas não morre. Nos beijos que se trocam, nas juras que se fazem, nas simpatias que se fundem em desejos ardentes, o amor é a alma das noites de luar na orla. Principalmente quem como eu está atento aos movimentos dos transeuntes, apercebe-se da vitalidade e do encantamento que a orla provoca aquém a quer como sua. Não se pode estar de luto por amor. Quando muito de quarentena. Aí como é bom ir á orla em noites de luar. Quando podemos usar esse prazer, a orla de Santarém é a nossa própria existência. Nela se fazem negócios, se fala mal do vizinho, nela se mudam ideias e convicções, nela surgem as dores e os desgostos, nela se sente o amor e a emoção. Quantas vezes se encontra o amor na orla sem nós próprios sabermos. A orla de Santarém em noites de luar, chega a ser obsessão em cada um de nós, condensa as nossas ambições. Vá á orla em noites de luar e, viva o amor.
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