segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Beijo



Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
Donde teria vindo!(não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?
É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...

Alexandre O'Neil

sábado, 11 de junho de 2011

Por esse Tapajós a dentro


A lancha segue adiante, majestosa e lenta, descrevendo uma bela curva no espelho de água e faz-se ao rio apressando a marcha. Rio que se estende manso e translúcido num manto de areia fina por entre o arvoredo da mata amazónica. E enquanto o “Meneguetti” desaparecia na primeira curva do rio , Santarém ficava para trás. Subir o Tapajos é como subir o paraíso transplantado para o Brasil, tal a opulência da natureza que os nossos olhos difÍcilmente esquecerão. O céu estendia-se azul com alternadas estrias esbranquiçadas. Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um odor delicioso da comida que a Néia cozinhava, misturado com a brisa serena que vinha do rio, a mesma brisa que fazia ondular o pavilhão brasileiro na mastro do “ Meneguetti”. Imensas aves ribeirinhas ostentanto a sua plumagem garrida e multicolor, voam entre a lancha e a margem numa contradança animada, oferecendo aspectos lindíssimos. Estava calor. O sol tinha uma cor baça com um aro azulado á sua volta. O arvoredo nas margens ondulava levemente. No convés da lancha soaram boas gargalhadas filhas do inalterável bom humor de todo o pessoal, entre oa quais os irmãos do Jaime que do Paraná vinham em visita a Santarém. Percorrer o rio Tapajós é conhecer um dos mais belos panoramas que se pode imaginar, por isso todos os olhos se fixavam no verde do arvoredo e no espelho mágico do rio tranquilo como se fosse um imenso lago de cristal. Um pedaço de céu azul, o mesmo céu azul que nos tem acompanhado desde Santarém entrou lancha a dentro quando a Néia nos chamou para o almoço. Uma galinhada acompanhada por um tinto português estratégicamente escolhido para o efeito. A floresta prolonga-se a perder de vista, deslumbrante, como um quadro encantado de um qualquer pintor. Percorrer o rio Tapajós é conhecer um dos mais belos panoramas que se pode imaginar. A alma como se dilata em estranhas combinações de cor e luz. Chegámos ao destino. Atracamos numa praia deserta ao largo de Alter do Chão. Depois das manobras de atracação todo o mundo pulou na areia fina e mergulhou nas águas tépidas e transparentes do Tapajós. Durante algum tempo caminhei nos trilhos marcados na areia e embrenhei-me por debaixo das ramagens dos mangueirais recebendo na face a caricía das folhas tenras. Ao longe ouvia-se o badalar do sino da igreja, e numerosas embarcações transportavam veraneantes para as praias da ilha fronteira á cidade.Parei súbitamente e reparei em tudo o que me cercava, a água, a areia e a floresta, fazendo-nos sentir um misterioso fluído, cujos efeitos se traduz em voluptuosas sensações e secretos desejos de posse da natureza. Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente á lancha para o nosso regresso. O “Meneguetti”, diluido na escuridão da noite, aproado á correnteza que descia rio abaixo acenava a Santarém com a sua luzinha palpitando á brisa suave que se fazia sentir no convés. Um passeio demolidor. Uma viagem pra sempre recordar.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Renascer para além do mar


A cidade ainda dormia quando me fiz á rua. Sem pensar em nada, escutando únicamente o ruido do vento que soprava naquela manhã trazendo o cheiro do rio, decidi caminhar. Peguei num boné e num livro e sai de casa. As ruas já tinham um razoável movimento para aquela hora da manhã. A chuva tinha parado fazia dias e o calor ameaçava fazer daquela manhã um mar de suor caminhando camisa abaixo. A cada passo , o pó levantava-se debaixo da sola dos sapatos fazendo prever que o verão deste ano será sofrido. Caminhei direito ao rio ao habitual ponto de encontro com os meus pensamentos. Sabia que ia ter alguém para conversar sobre a criação do novo Estado, da melhor forma de tapar os buracos das ruas sem que ninguém desse por isso ou simplesmente ouvir histórias do rio. Enganei-me. Naquela manhã em que o sol aquecia os corações, eu estava sózinho. Apenas eu e o rio. Apenas eu, os meus pensamentos, o rio e o livro. Sentei-me. Acendi um cigarro, olhei as águas do rio que como sempre faziam o seu pecurso indiferentes ao movimento dos barcos e, abri o livro. Fazia algum tempo que não lia. Motivos vários impediam que me concentra-se na leitura e na absorção prazeirosa que sempre fazia das histórias. Hoje era diferente. Sentia uma paz interior a que apenas o calor emprestava alguma moleza ao corpo e ás palpebras dos meus olhos. Voltei a olhar o rio antes de me concentrar na leitura. Fixei o horizonte daquela paisagem deslumbrante onde era capaz de ficar horas em silêncio mergulhado apenas na imensidão da natureza e, pensei nas forças misteriosas que me fizeram deslocar para um lugar tão longe e tão perto da minha cidade natal. Tudo era diferente agora do dia em que decidira partir. Ali, naquele momento, entre eu e o céu, apenas o rio e os pensamentos que me levavam para lá do oceano das palavras. Tentei abstrair-me e fixar os olhos no livro. Só então surprendentemente reparei no seu titulo “ Renascer para além do mar “...quem diria. Entendi agora que os meus presentimentos são rápidos mergulhos da minha alma nesta corrente universal de vida, onde a história de cada um de nós se liga ao desejo incontido de viver no seio da natureza.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O beijo da princesa do rio


Percorria a orla da praia naquele fim de dia quando a luz do dia a morrer, empalidecia a areia da praia junto á água do rio e as ondas beijavam de mancinho a areia branca e fina. A brisa suave fazia cair aos meus pés as folhas mortas do arvoredo. Ao longe era nitido o som do rio no bater das ondas, fazendo chegar aos meus ouvidos uma sinfonia que os dedos de uma sereia dedilhavam nas cordas de uma harpa ferida pelo vento. Era tempo ideal para que a poesia corre-se pela areia e chega-se aos lábios da princesa do rio para que num beijo lânguido ela se despedi-se do dia e mergulha-se nas águas profundas. Uma borboleta voava á minha frente desaparecendo súbitamente através dos mangueirais. Sentia-se no ar o perfume das flores e o som frenético de um rádio de pilhas de um último veraneante a desaparecer no alto da escadaria que liga a areia ao asfalto. Neste princípio de noite mágico, as mãos pagam os prazeres dos ouvidos e dos olhos numa prolongada salva de palmas á natureza. Nesta praia maravilhosa todos os dias o perfume das exalações tépidas das águas faz adormecer quem a visita e os namorados na penumbra de um luar romântico vêm contar as estrelas do céu amando-se até a madrugada despertar e o voo razante das garças anunciar o novo dia. Depois nesta bela noite fresca ,de lua cheia e céu estrelado, é bem agradavel um passeio pelo areal imaginando os prazeres do dia e os mil toques dos lábios apaixonados, fazendo-nos zaguezaguear por entre as sombrinhas fechadas como os colibris entre as flores á procura de sugar o seu mel. È assim Alter do Chão com o brilho fascinante de mil cores, uma criação poética criada por Deus para exprimir o canto d’alma de quem a percorre nas noites de luar.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Aquela noite na orla


Caminhava na orla deserta a meio da noite. O vento e a chuva faziam tremer os candeeiros da iluminação. Os edificios enfileirados do outro lado, tinham as janelas fechadas e o escuro das suas fachadas faziam crer que a hora era avançada. O rio estava revolto e a madeira do trapiche rangia com o movimento das ondas. Um barulho medonho ecuou na noite. Um relampago iluminou a rua e o trovão quase simultâneo fez cair no charco alguem que corria com os sapatos na mão. Pareceu-me que a figura tentava fugir de alguma coisa ou de alguém. Um trovão ribombou de novo. Depois fez-se silêncio. Respirei fundo e aconcheguei o corpo ao portão do armazém de plásticos. Continuava a chover copiosamente e, a iluminação provocada pelo clarão de novo relâmpago fez projetar na parede fronteira a sombra do fugitivo que de olhos esbugalhados , e respiração ofegante de medo,pingava copiosamente. Julguei ver um vulto enorme erquer-se do rio com uns olhos enormes e flamejantes. Senti as pernas tremerem de medo. E reparei que a figura largara os sapatos para melhor correr e vinha na minha direcção pedindo socorro. Parou exausto a meu lado e quase lhe ouvia o bater do coração ao mesmo tempo que senti algo roçar as pernas. Era o Toy. Que fazia ele ali e áquela hora da noite. Latiu e de olhos fixos em mim esperando a recompensa de lhe passar a mão pela cabeça como gostava. A hora não era de festas mas de medo. Estava todo molhado e além de medo começava a sentir frio. Novo relâmpago e o ribombar de novo trovão clareou a orla deixando antever que a noite ia ser dura. Fixei o olhar em tudo quanto era sitío na vã esperança de que a medonha criatura tivesse desaparecido. Estarrecido, com o coração ao pé da boca,e uma tremideira enorme que juntava os joelhos um ao outro vi uma enorme mão que se deslocava na nossa direcção e entreguei-me ao Criador. O Toy ladrou de medo. A criatura caiu aos meus pés sem um gemido e, quando vi a mão descomunal perto dos meus olhos a orla desapareceu da minha visão. Ouvi um grito e senti um abanão no braço. Era a Néia que me gritava que já eram horas de sair da cama. Tinha que ser rápido ou perdiamos o ónibus para ir ao centro ás compras. Caraca que noite.