quarta-feira, 8 de junho de 2011

Renascer para além do mar


A cidade ainda dormia quando me fiz á rua. Sem pensar em nada, escutando únicamente o ruido do vento que soprava naquela manhã trazendo o cheiro do rio, decidi caminhar. Peguei num boné e num livro e sai de casa. As ruas já tinham um razoável movimento para aquela hora da manhã. A chuva tinha parado fazia dias e o calor ameaçava fazer daquela manhã um mar de suor caminhando camisa abaixo. A cada passo , o pó levantava-se debaixo da sola dos sapatos fazendo prever que o verão deste ano será sofrido. Caminhei direito ao rio ao habitual ponto de encontro com os meus pensamentos. Sabia que ia ter alguém para conversar sobre a criação do novo Estado, da melhor forma de tapar os buracos das ruas sem que ninguém desse por isso ou simplesmente ouvir histórias do rio. Enganei-me. Naquela manhã em que o sol aquecia os corações, eu estava sózinho. Apenas eu e o rio. Apenas eu, os meus pensamentos, o rio e o livro. Sentei-me. Acendi um cigarro, olhei as águas do rio que como sempre faziam o seu pecurso indiferentes ao movimento dos barcos e, abri o livro. Fazia algum tempo que não lia. Motivos vários impediam que me concentra-se na leitura e na absorção prazeirosa que sempre fazia das histórias. Hoje era diferente. Sentia uma paz interior a que apenas o calor emprestava alguma moleza ao corpo e ás palpebras dos meus olhos. Voltei a olhar o rio antes de me concentrar na leitura. Fixei o horizonte daquela paisagem deslumbrante onde era capaz de ficar horas em silêncio mergulhado apenas na imensidão da natureza e, pensei nas forças misteriosas que me fizeram deslocar para um lugar tão longe e tão perto da minha cidade natal. Tudo era diferente agora do dia em que decidira partir. Ali, naquele momento, entre eu e o céu, apenas o rio e os pensamentos que me levavam para lá do oceano das palavras. Tentei abstrair-me e fixar os olhos no livro. Só então surprendentemente reparei no seu titulo “ Renascer para além do mar “...quem diria. Entendi agora que os meus presentimentos são rápidos mergulhos da minha alma nesta corrente universal de vida, onde a história de cada um de nós se liga ao desejo incontido de viver no seio da natureza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário