domingo, 19 de dezembro de 2010

Pitu - O pequeno Indío



Era domingo na floresta. Para Pitu era mais um domingo sonolento. A mãe como sempre fazia, chegou-se a ele e beijou-lhe o pescoço. Pitu recebeu aquele beijo doce e lento e acordou com um arrepio suspeito. Sua mãe como todas as mães sorria, e ternamente, estendeu-lhe a mão para o levantar. Havia trabalho a fazer naquele domingo. Pitu pensou como era bom que este domingo nunca tivesse nascido e o pudesse sumir do calendário. Levantou-se de um pulo. Estendeu a mão e, de uma vez , vestiu a tanguinha que a avó lhe fizera com tanta ternura.
Pitu era um menino ternurento mas eléctrico. Na aldeia todos admiravam a sua inteligência e auguravam-lhe um futuro de chefia. “...Vem Pitu...”, gritou a mãe, e ele visivelmente sorridente gritou que já ia. Saiu da cabana e olhou o rio, um sol abrasador logo pela manhã fazia o suor encontrar no seu corpo todos os caminhos.
As águas de muitos riachos, tal como há séculos, abraçavam o Amazonas e as nuvens naquele domingo armavam e desarmavam infindáveis afectos no azul celeste do céu. Pitu rejubilou. Chegou-se ao rio e suavemente passou água pelo rosto. Olhando atentamente as águas reparou, que elas não se privavam de dar vida ás imagens que nelas se reflectiam. E do seu rosto saiu aquele sorriso que cativava jovens e adultos da aldeia. Olhou de novo fixamente o rio e exclamou: “... O meu coração fala contigo vento do rio, pega na minha mão e leva-me a navegar..”.
O vento soprou baixinho como a dizer a Pitu que o rio hoje era dele. Pitu voltou a sorrir. A brisa paulatinamente foi tomando conta do espaço e do tempo. E a floresta naquele domingo, como em tantos outros, emanou sinfonias como a anunciar a Pitu que ali era a sua casa para sempre . Ficou pensativo. Pitu voltou a dar a mão ao vento e numa correria desenfreada procurou encontrar na selva o universo de novas madrugadas e de muitas mais aventuras.
Subitamente o pequeno índio resolveu ir floresta dentro á procura da arara Deuzinha sua inseparável amiga. De estilingue numa mão e com o medo na outra, subiu a uma castanheira. Num insondável mistério da natureza, Deuzinha num voo rasante poisou no ombro de Pitu como que adivinhando que o seu amigo precisava dela. A reluzente ave encostou a cabecita ao peito do seu amigo e sentiu o bater do seu coração.
Pitu embora habituado a trepar por tudo quanto era árvore, aquela castanheira lhe metia medo pelo seu porte imponente. Embora com medo, era ali que gostava de abraçar a floresta e mirar o rio. De olhos fixos no horizonte Pitu reparou, que para lá do rio um arco-iris dava os bons dias a todos. Sentiu subitamente uns pingos cairem no seu rosto. Começava a chover. As bátegas caiam numa sucessão serena e sincopada cada vez mais fortes cada vez mais intensas. Deuzinha meteu a cabeça entre as asas e Pitu aconchegou-se entre as folhas.
Era tempo de a mata se revigorar, os animais matarem a sede e a vida se fazer vida. Era tempo dos habitantes da pequena aldeia de Pitu, na sua intuição e sabedoria, se recolherem e acertarem com esta terra de seus ancestrais a próxima jornada. Pitu pensou como a mata funcionava para todo o mundo da aldeia como fonte inspiradora e catalizadora, e como o rio na sua infindável bondade dava de comer a todos. Parou de chover. Pitu tocou levemente as folhas da castanheira e sentiu o doce e fresco nectar da natureza como que beijando-o com encanto e magia.
Era hora de regressar á aldeia e ao rio. Caminhando entre as folhas num trilho coberto de musgo, Pitu sentia os pingos das árvores cairem no chão e nos seus cabelos. Deuzinha sacudia a cabeça vigorosamente para soltar a água do seu corpo. Enquanto passava a mão pela cabeça molhada Pitu no silêncio que subitamente se fizera na floresta pensava em como seria a vida para lá do rio, para lá do horizonte. Uma bicada de Deuzinha acordou-o para a realidade.
Voltou de novo a reparar em tudo o que o rodeava e, sentiu essa luz que na floresta enebria e seduz. A mata abanava ao sabor do vento acenando aos dois como anjos guardiãs da floresta indicando o caminho de regresso á aldeia. O sol projectava através dos velhos embuzeiros, sombras fantasmagóricas nos caminhos de musgo florido, servindo de tapete multicolor aos pés de Pitu.
Pitu e Deuzinha voltaram de novo ao sitio onde o rio dá a mão à floresta. Era hora de comer o tacaca que as mãos eximias da mãe já havia aprontado e de Deuzinha debicar a sua espiga de milho. A vida na aldeia áquela hora era uma mistura de mil cheiros que mobilizavam toda a gente. Pitu como sempre divagava. A região provoca alucinações funcionando como fonte de inspiração e catalizadora de muitos sonhos e, ele sonhava todos os dias e a todas as horas. O seu imaginário sobrevoava para lá do horizonte transportado em finas asas brancas numa obsessão de querer conhecer. Que haveria para lá das árvores?...onde o levaria o rio?. Mil perguntas e nenhuma resposta.
O sol voltara à floresta. Pitu na margem do rio acenava ao boto rosa, chamava-o com gestos vigorosos pois precisava dos habituais conselhos do amigo. Gabiru o boto rosa, nadou vigorosamente até à margem e com o bico afagou o rosto de Pitu. O pequeno índio subiu o dorso do amigo e os dois foram rio fora. Mergulho a mergulho as brincadeiras foram para lá das horas. Pitu só deu por isso quando o princípio da noite, depois de uma tarde bem quente, começou a deixar no rio reflexos que mais pareciam o cintilar prata das estrelas do céu.
Era hora de regressar a casa e ao regaço da mãe. Voltaram rápido à aldeia com a promessa de se verem de novo no outro dia. Gabiru rodopiou no ar e de um só salto mergulhou nas águas do rio. Pitu deliciou-se ao jantar com o pirarucu assado que o pai pescara poucas horas antes. Chegou junto à janela da oca olhou a lua e suspirou. O dia tinha sido longo e sentia-se cansado. Deitou-se na esteira. Recebeu um beijo da mãe e adormeceu.
Era para lá do horizonte, lá onde a água do rio se junta ao azul do céu que o pensamento do pequeno índio vagueava no sonho que começava a florescer no seu pensamento. Pitu agarrou a beleza do rio e da floresta, e sonhava. Embrenhou-se na selva de idéias que corriam ao sabor da brisa que entrava pela pequena janela da oca, deixando correr uma pequena gota de suor pela palma da mão. Vislumbrou os vultos que corriam no rio. Viu Gabiru, e desenhou nitidamente a canoa com que o pai diáriamente ganhava o sustento da familia. Imaginou-se dentro dela com o amigo empurrando com a ponta do bico. Uff que aventura seria ir rio abaixo descobrir o que escondia o horizonte. Agitou-se na esteira e mudou de posição. Ouvia nitidamente os gemidos que o rio deixava fugir e de imediato os associou ás princesas que nele habitavam e que o pai lhe sussurava ao ouvido nos contos das noites de insónia. Os sons do rio tiveram o condão de lhe acalmar a alma e sossegar o espirito. Pitu deixou de sonhar e adormeceu profundamente.
Pitu acordou cedo. Não esperou pela madrugada. Saltou da cama e fez-se ao caminho que tantas vezes o levava até ás estrelas. Parou junto ao rio. Olhou para traz e pulou na canoa. Olhou de novo o céu e reparou na nuvem passageira que tantas vezes tinha levado os seus sonhos para lá do horizonte, pediu-lhe protecção, e fez-se ao rio. Remou vigorosamente até ao meio e a corrente rapidamente o levou para longe. Começava ali a concretização de um sonho de anos.
Deixara uma carta em local visivel. Ela explicaria o porquê da viagem e da aventura, e evitaria que os pais o procurassem desesperadamente. Sabia no entanto que ela não evitaria as lágrimas da mãe. Aquele seria o momento que o seu coração se libertaria das suas mãos qual pássaro vivo, na afã procura de uma nova vida. Olhou com coragem o rio e procurou chamar Gabiru. Ele tinha de o ajudar a procurar o caminho para lá do horizonte. Pitu deixava a aldeia naquela madrugada na procura de outras madrugadas, lá longe, onde os mais velhos dizem morar as princesas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Naquela noite alguem me tocou o ombro...seria Deus?

Sobradais já ficara para traz. A brisa suave que corria junto ao rio deixava-se de sentir á medida que subíamos ao povoado. Olhando para baixo do cimo da íngreme subida, rapidamente o cansaço deixava as pernas com o êxtase de ver a paisagem maravilhosa da foz do Tua. A vindima tinha sempre o doce sabor de uma novidade renovada.
A Néia subiu ao lagar pulou nas uvas e alegremente iniciou de calção curtinho e sorriso nos lábios uma nova experiência. Deu nas uvas os primeiros passos para beber meses mais tarde do tonel o precioso néctar que pelo mundo alegra reis e plebeus. O vinho tratado por mãos hábeis, a que o Porto deu o nome. Era enorme a alegria que o seu coração deixava transparecer e os seus lábios sorrir. Que experiência magnífica. Era hora de jantar. O Mário à muito que chamara e as tias estavam impacientes.
Da primeira colher de sopa, ao primeiro esgar de dor, decorreu o tempo de um sopro. Por um instante, um curto instante senti um trovão ribombar dentro do meu peito. Olhei as árvores pela janela e reparei que o vento as dobrava como o trovão teimava em dobrar as minhas pernas. Olhei nos olhos trêmulos da Néia e tentei sorrir. Abraçamo-nos como se explodíssemos um de encontro ao outro e só paramos no hospital. O tempo movia-se dentro de si próprio movido pelo desespero e pela angustia no caminho para Vila Real. Deitado na maca da ambulância que voava por entre o fogo que atravessava cada gesto do meu corpo ali estendido, pensava em tudo e em nada. Senti naquele momento o eco frio... gelado de um caminho para onde não queria ir.
Uma lágrima furtiva a ferver-me no canto do olho correu-me pela face e o encontro com uma cama dos cuidados intensivos pareceu-me difícil e agodizante. Foi vagarosa a noite. Não sei como não morri. Sentia o coração a rebentar no centro do peito e as mãos que carinhosamente tentavam agarrar a vida que teimava em fugir. Já a madrugada ia alta quando calmo e salvo adormeci.
Já o sol entrava pela janela e traçava laivos de luz que atravessavam o ar e se fixavam no saco de soro pendurado acima da minha cabeça, quando acordei a meio da manhã com um sabor amargo e pastoso na boca. Aos poucos fui dando conta dos contornos das coisas, das formas dos objetos e, principalmente do rosto da Néia a olhar-me. Os seus lábios suspensos, a profundidade infinita dos seus olhos. O seu rosto ganhou novas formas quando abri os olhos e sorriu-me. Finalmente eu também tinha vontade de sorrir.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Laços

Vinicius disse um dia..." preso eu estou por teus laços de amor". É verdade. Um dia, um certo dia entre Portugal e o Brasil, entre o mar e a floresta, entre as dores que muitas vezes nos atormentavam e as canções que muitas vezes nos embalavam, jurámos que este acto seria o sublíme momento de um percurso traçado no amor...no companheirismo...na lealdade. Foi portanto um passo dado para o futuro mas, bem amadurecido no passado. Mais uma vez, a exemplo de muitas mais atitudes, imperou na nossa decisão o bom senso alicerçado no amor conquistado em muitas noites de atracção comum. Nos muitos dias em que vivemos no universo mágico em que vimos nascer emoções desordenadas e sentimos a intensa fome de vida e de ternura, trocando caricías e risos d'amor. Estamos presos pelos tais laços de amor. Soubemos na nossa vida comum atar e desatar vários laços...unir várias pontas da corda que sempre puxou nossas vidas, sabendo que o caminho que escolhemos iria ao longo do seu percurso ter sobressaltos para os quais era necessário estarmos atentos e vigilantes, não permitindo que algo ou alguém se intromete-se. Soubemos distinguir sempre aquilo que nos unia daquilo que por meios menos ortodoxos nos queriam impor. Estou certo que o caminho que escolhemos terá ainda muitos laços para apertar. Mas tambem estou certo que o laço que com as mãos unidas apertámos no dia 3 jamais alguem conseguirá desapertar. Lágrimas e sorrisos irão combinar-se e diluirem-se na forma amorosa de estarmos na vida e no mundo. Num mundo e numa vida só nossa.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Palavras

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor,de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Nell

domingo, 8 de agosto de 2010

Voltar a escrever é complicado

Voltar a escrever e aqui é complicado. Mas sempre se arranja tempo para ler e escrever. Longe da Pátria são os jornais on-line que nos preenchem o tempo e a saudade. Escrever é da mesma forma a informática que nos leva aos nossos que de longe matam saudades de nós. Portanto hoje depois de voltar a casa com os meus cunhados que gentilmente me deram a oportunidade de conhecer Porto Velho capital da Rondónia no Brasil, sentei-me abri o pc e fui dar uma volta pelos jornais. Neste fim de semana de temperatura amena dei comigo a divagar e por, condescendência do calendário abro o postigo de atenção sobre o meu Portugal-português e as noticias que catapultam as alegrias e as tristezas dos meus conterrâneos. O ar parece tenso. Continua a novela do Freeport, a policia militar procura pistola desaparecida dna GNR de Chaves e, os Procuradores da Républica pare estarem de costas voltadas para o chefe. Aqui no Brasil as eleições dominam os midia. Tal como em Portugal vêm ai as promessas , os comicios e as falinhas mansas que sempre caiem em lugares comuns. As recentes investigações aos crimes terminaram com a indiciação do goleiro do Flamento e de um tal advogado. O mundial de futebol acabou e com ele as cantilenas repetidas sem alma e os prognósticos mais ou menos fantasiosos cairam por terra. Tambem os santos populares deixaram um cheiro a vazio nas noites lisboetas. Em Aveiro o Porto ganhou a super taça de futebol para tristeza dos benfiquistas, mas mesmo ali ao lado ninguem deu conta da violencia doméstica de um casal de imigrantes romenos. Tento encontrar o não dito, a raiz deste mal, deste desconforto que anda á solta e, a sensação que tenho é que nós estamos afogando o medo e as mágoas. Passam pelos nossos olhos as imagens do dia a dia mas sobra uma sensação de agua podre de um não dito que incomoda. Portugal perdeu...o Brasil perdeu...limparam-se as maquilhagens e o eterno palhaço do circo da vida retirou-se para o camarim chorando a glória perdida. Que interessa o resto. Há como é bom sentir a intensidade das pequenas coisas do dia a dia..provar um chopinho na Cervejaria da Gastronomia em Porto Velho, abrir a janela e olhar a chuva e, sentir o cheiro da terra húmida, ou abrir e olhar céu azul e o sol deste Brasil imenso e, apreciar os primeiros raios de um novo dia. Futebol???. Caraca como é bom começar realmente a apreciar a vida.

sábado, 7 de agosto de 2010

Numa manhã de Domingo...


Era domingo...parou de chover. Era como sempre um sonolento domingo. Colocas-te a mão sob o meu pescoço e deste-me um beijo na nuca. Um beijo lento...doce..suspeito, acordei com um arrepio porque achei um beijo suspeito demais. Antes de poder mover-me e descartar a idéia de estar a sonhar de te ver com esses olhos de amendoa reparei que a cama estava vazia. Ainda com o pescoço a doer no sítio onde caiu o beijo, senti que estava de facto a sonhar. Há como era bom que este domingo nunca tivesse nascido e eu o pudesse expulsar do calendário. Tu não estás comingo. Estás longe ...muito longe. A cama, a nossa cama, adormeceu íntima e amanheceu fria. Virei o corpo para o outro lado tentando adivinhar que tu estavas na mesma do meu lado. Chamei-te mais uma vez e esperei ouvir aquela voz que me faz suar-rir-dormir-sonhar, mas nada. Começa a chegar ao meu coração o fogo denso da paixão e eu vejo-te longe...passeando descalça por sobre o sal, o açucar e o sono. è como se tivesses fugido para a rua e deixado um silêncio misterioso no quarto. Eu sei que é uma coisa absurda. A Viagem é minha....o passeio é meu...as ruas sou eu que as piso....mas o silêncio é dos dois. É por isso que acredito que nos vamos amar ainda mais...noutra manhã de Domingo...sem chuva.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

De Santarém a Monte Alegre ...de barco

Quando me debrucei no gradeamento da orla na Praça Tiradentes o meu coração acelerou e a Néia sorriu. Hummmm é ali que vamos viajar?...perguntei. Sim...respondeu ela visivelmente sorridente. O seu sorriso em vez de me acalmar deixou-me intrigado. Era Outono em Portugal...e aqui um sol abrasador a par do medo, fazia o suor encontrar no meu corpo todos os caminhos. Tal como as árvores precisam agarrar-se ás raizes eu preciso de ter os pés bem seguros em terra. Água não é o meu forte. Olhei o rio e olhei o céu. As nuvens armam e desarmam infindáveis afectos no azul celeste . As águas do Tapajoz tal como á seculos abrançam o Amazonas mesmo ali á nossa frente. A azáfama na Praça Tiradentes é enorme e uma multidão procura caminho entre malas, camions e fardos de mercadorias. As águas do rio, essas não se privam de dar vida ás imagens que nelas se reflectem. Fez-se um silêncio duvidoso antes que a Néia me empurra-se por uma estreita tábua que me levaria ao convés do "Principe do Amazonas". Acho que nesse momento o sangue borbulhava nas minhas veias. De mala numa mão e segurando o medo com outra lá subi. - O meu coração fala contigo vento do rio...suspirei . De uma forma abruta o vento calou-se e sentou-se a meu lado. Tuga a viagem vai ser tranquila, eu não vou soprar. Acalmei. Era hora de perguntar á Neia como seria a nossa viagem pois não via bancos para sentar. Pude divisar no seu rosto um leve sorriso e da surpresa se fez luz...as redes...claro só podia. A brisa paulatinamente foi tomando conta do espaço e do tempo...o barco moveu-se, era hora de partir. Lentamente o " Princípe do Amazonas " fez-se ao rio. A um rio repleto de histórias, de lendas , mas um rio em que todos acreditam ser a origem de todas as coisas, o Amazonas. Muitos foram os que se aventuraram rio acima á procura da terra prometida...eu...procurava neste momento apenas o caminho para Monte Alegre. Aos poucos o medo foi desaparecendo, mas acreditem, que este acto de viajar sem colete salva-vidas não é para português que não sabe nadar não. A noite foi caindo, o luar foi abraçando o rio e eu fui abraçando o sono e a Néia que a meu lado velava pelo baloiço da rede. Já o sol rompia a madrugada quando o estridente apito do " Princípe" anunciava um novo dia e dizia ao viajante que Monte Alegre estava mesmo ali á nossa frente. Perdi o medo de andar de barco e ganhei um novo amigo.... o Amazonas