Sobradais já ficara para traz. A brisa suave que corria junto ao rio deixava-se de sentir á medida que subíamos ao povoado. Olhando para baixo do cimo da íngreme subida, rapidamente o cansaço deixava as pernas com o êxtase de ver a paisagem maravilhosa da foz do Tua. A vindima tinha sempre o doce sabor de uma novidade renovada.
A Néia subiu ao lagar pulou nas uvas e alegremente iniciou de calção curtinho e sorriso nos lábios uma nova experiência. Deu nas uvas os primeiros passos para beber meses mais tarde do tonel o precioso néctar que pelo mundo alegra reis e plebeus. O vinho tratado por mãos hábeis, a que o Porto deu o nome. Era enorme a alegria que o seu coração deixava transparecer e os seus lábios sorrir. Que experiência magnífica. Era hora de jantar. O Mário à muito que chamara e as tias estavam impacientes.
Da primeira colher de sopa, ao primeiro esgar de dor, decorreu o tempo de um sopro. Por um instante, um curto instante senti um trovão ribombar dentro do meu peito. Olhei as árvores pela janela e reparei que o vento as dobrava como o trovão teimava em dobrar as minhas pernas. Olhei nos olhos trêmulos da Néia e tentei sorrir. Abraçamo-nos como se explodíssemos um de encontro ao outro e só paramos no hospital. O tempo movia-se dentro de si próprio movido pelo desespero e pela angustia no caminho para Vila Real. Deitado na maca da ambulância que voava por entre o fogo que atravessava cada gesto do meu corpo ali estendido, pensava em tudo e em nada. Senti naquele momento o eco frio... gelado de um caminho para onde não queria ir.
Uma lágrima furtiva a ferver-me no canto do olho correu-me pela face e o encontro com uma cama dos cuidados intensivos pareceu-me difícil e agodizante. Foi vagarosa a noite. Não sei como não morri. Sentia o coração a rebentar no centro do peito e as mãos que carinhosamente tentavam agarrar a vida que teimava em fugir. Já a madrugada ia alta quando calmo e salvo adormeci.
Já o sol entrava pela janela e traçava laivos de luz que atravessavam o ar e se fixavam no saco de soro pendurado acima da minha cabeça, quando acordei a meio da manhã com um sabor amargo e pastoso na boca. Aos poucos fui dando conta dos contornos das coisas, das formas dos objetos e, principalmente do rosto da Néia a olhar-me. Os seus lábios suspensos, a profundidade infinita dos seus olhos. O seu rosto ganhou novas formas quando abri os olhos e sorriu-me. Finalmente eu também tinha vontade de sorrir.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Laços
Vinicius disse um dia..." preso eu estou por teus laços de amor". É verdade. Um dia, um certo dia entre Portugal e o Brasil, entre o mar e a floresta, entre as dores que muitas vezes nos atormentavam e as canções que muitas vezes nos embalavam, jurámos que este acto seria o sublíme momento de um percurso traçado no amor...no companheirismo...na lealdade. Foi portanto um passo dado para o futuro mas, bem amadurecido no passado. Mais uma vez, a exemplo de muitas mais atitudes, imperou na nossa decisão o bom senso alicerçado no amor conquistado em muitas noites de atracção comum. Nos muitos dias em que vivemos no universo mágico em que vimos nascer emoções desordenadas e sentimos a intensa fome de vida e de ternura, trocando caricías e risos d'amor. Estamos presos pelos tais laços de amor. Soubemos na nossa vida comum atar e desatar vários laços...unir várias pontas da corda que sempre puxou nossas vidas, sabendo que o caminho que escolhemos iria ao longo do seu percurso ter sobressaltos para os quais era necessário estarmos atentos e vigilantes, não permitindo que algo ou alguém se intromete-se. Soubemos distinguir sempre aquilo que nos unia daquilo que por meios menos ortodoxos nos queriam impor. Estou certo que o caminho que escolhemos terá ainda muitos laços para apertar. Mas tambem estou certo que o laço que com as mãos unidas apertámos no dia 3 jamais alguem conseguirá desapertar. Lágrimas e sorrisos irão combinar-se e diluirem-se na forma amorosa de estarmos na vida e no mundo. Num mundo e numa vida só nossa.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Palavras
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor,de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Nell
Como se tivessem boca,
Palavras de amor,de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Nell
domingo, 8 de agosto de 2010
Voltar a escrever é complicado
Voltar a escrever e aqui é complicado. Mas sempre se arranja tempo para ler e escrever. Longe da Pátria são os jornais on-line que nos preenchem o tempo e a saudade. Escrever é da mesma forma a informática que nos leva aos nossos que de longe matam saudades de nós. Portanto hoje depois de voltar a casa com os meus cunhados que gentilmente me deram a oportunidade de conhecer Porto Velho capital da Rondónia no Brasil, sentei-me abri o pc e fui dar uma volta pelos jornais. Neste fim de semana de temperatura amena dei comigo a divagar e por, condescendência do calendário abro o postigo de atenção sobre o meu Portugal-português e as noticias que catapultam as alegrias e as tristezas dos meus conterrâneos. O ar parece tenso. Continua a novela do Freeport, a policia militar procura pistola desaparecida dna GNR de Chaves e, os Procuradores da Républica pare estarem de costas voltadas para o chefe. Aqui no Brasil as eleições dominam os midia. Tal como em Portugal vêm ai as promessas , os comicios e as falinhas mansas que sempre caiem em lugares comuns. As recentes investigações aos crimes terminaram com a indiciação do goleiro do Flamento e de um tal advogado. O mundial de futebol acabou e com ele as cantilenas repetidas sem alma e os prognósticos mais ou menos fantasiosos cairam por terra. Tambem os santos populares deixaram um cheiro a vazio nas noites lisboetas. Em Aveiro o Porto ganhou a super taça de futebol para tristeza dos benfiquistas, mas mesmo ali ao lado ninguem deu conta da violencia doméstica de um casal de imigrantes romenos. Tento encontrar o não dito, a raiz deste mal, deste desconforto que anda á solta e, a sensação que tenho é que nós estamos afogando o medo e as mágoas. Passam pelos nossos olhos as imagens do dia a dia mas sobra uma sensação de agua podre de um não dito que incomoda. Portugal perdeu...o Brasil perdeu...limparam-se as maquilhagens e o eterno palhaço do circo da vida retirou-se para o camarim chorando a glória perdida. Que interessa o resto. Há como é bom sentir a intensidade das pequenas coisas do dia a dia..provar um chopinho na Cervejaria da Gastronomia em Porto Velho, abrir a janela e olhar a chuva e, sentir o cheiro da terra húmida, ou abrir e olhar céu azul e o sol deste Brasil imenso e, apreciar os primeiros raios de um novo dia. Futebol???. Caraca como é bom começar realmente a apreciar a vida.sábado, 7 de agosto de 2010
Numa manhã de Domingo...

Era domingo...parou de chover. Era como sempre um sonolento domingo. Colocas-te a mão sob o meu pescoço e deste-me um beijo na nuca. Um beijo lento...doce..suspeito, acordei com um arrepio porque achei um beijo suspeito demais. Antes de poder mover-me e descartar a idéia de estar a sonhar de te ver com esses olhos de amendoa reparei que a cama estava vazia. Ainda com o pescoço a doer no sítio onde caiu o beijo, senti que estava de facto a sonhar. Há como era bom que este domingo nunca tivesse nascido e eu o pudesse expulsar do calendário. Tu não estás comingo. Estás longe ...muito longe. A cama, a nossa cama, adormeceu íntima e amanheceu fria. Virei o corpo para o outro lado tentando adivinhar que tu estavas na mesma do meu lado. Chamei-te mais uma vez e esperei ouvir aquela voz que me faz suar-rir-dormir-sonhar, mas nada. Começa a chegar ao meu coração o fogo denso da paixão e eu vejo-te longe...passeando descalça por sobre o sal, o açucar e o sono. è como se tivesses fugido para a rua e deixado um silêncio misterioso no quarto. Eu sei que é uma coisa absurda. A Viagem é minha....o passeio é meu...as ruas sou eu que as piso....mas o silêncio é dos dois. É por isso que acredito que nos vamos amar ainda mais...noutra manhã de Domingo...sem chuva.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
De Santarém a Monte Alegre ...de barco
Quando me debrucei no gradeamento da orla na Praça Tiradentes o meu coração acelerou e a Néia sorriu. Hummmm é ali que vamos viajar?...perguntei. Sim...respondeu ela visivelmente sorridente. O seu sorriso em vez de me acalmar deixou-me intrigado. Era Outono em Portugal...e aqui um sol abrasador a par do medo, fazia o suor encontrar no meu corpo todos os caminhos. Tal como as árvores precisam agarrar-se ás raizes eu preciso de ter os pés bem seguros em terra. Água não é o meu forte. Olhei o rio e olhei o céu. As nuvens armam e desarmam infindáveis afectos no azul celeste . As águas do Tapajoz tal como á seculos abrançam o Amazonas mesmo ali á nossa frente. A azáfama na Praça Tiradentes é enorme e uma multidão procura caminho entre malas, camions e fardos de mercadorias. As águas do rio, essas não se privam de dar vida ás imagens que nelas se reflectem. Fez-se um silêncio duvidoso antes que a Néia me empurra-se por uma estreita tábua que me levaria ao convés do "Principe do Amazonas". Acho que nesse momento o sangue borbulhava nas minhas veias. De mala numa mão e segurando o medo com outra lá subi. - O meu coração fala contigo vento do rio...suspirei . De uma forma abruta o vento calou-se e sentou-se a meu lado. Tuga a viagem vai ser tranquila, eu não vou soprar. Acalmei. Era hora de perguntar á Neia como seria a nossa viagem pois não via bancos para sentar. Pude divisar no seu rosto um leve sorriso e da surpresa se fez luz...as redes...claro só podia. A brisa paulatinamente foi tomando conta do espaço e do tempo...o barco moveu-se, era hora de partir. Lentamente o " Princípe do Amazonas " fez-se ao rio. A um rio repleto de histórias, de lendas , mas um rio em que todos acreditam ser a origem de todas as coisas, o Amazonas. Muitos foram os que se aventuraram rio acima á procura da terra prometida...eu...procurava neste momento apenas o caminho para Monte Alegre. Aos poucos o medo foi desaparecendo, mas acreditem, que este acto de viajar sem colete salva-vidas não é para português que não sabe nadar não. A noite foi caindo, o luar foi abraçando o rio e eu fui abraçando o sono e a Néia que a meu lado velava pelo baloiço da rede. Já o sol rompia a madrugada quando o estridente apito do " Princípe" anunciava um novo dia e dizia ao viajante que Monte Alegre estava mesmo ali á nossa frente. Perdi o medo de andar de barco e ganhei um novo amigo.... o Amazonas
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Era Primavera...

Lembras-te?.....era primavera. Os rouxinois cantavam na planicie e a brisa suave anunciava o renovar da vida. Esperei-te sofregamente. O primeiro encontro foi um beijo curto...rápido. Reparei então que os malmequeres do chão davam um ar silvestre aos teus cabelos e bebi da tua boca o perfume do teu sorriso. Coras-te. Foi como um voo de uma borboleta se escondendo nos raios de sol do teu olhar. Depois parámos na falésia a ver e ouvir o mar lamber as rochas e olhamos o horizonte na areia da praia. Sentimos nesse momento vontade de nos embriagar com o sal das ondas que se esbatiam a nossos pés. Senti o calor do teu corpo numa volúpia de sensualidade misturando a saliva nos teus cabelos e deixando-me ficar tempo sem fim com o meu peito a sentir o bater do teu coração. Resolvemos voltar ao hotel e cair entre as flores campestres perfumadas de alecrim. Senti vontade de invadir o teu corpo, de percorrer os recantos da tua pele de misturar os suores dos nossos corpos. Depois deixámo-nos ficar inertes. Olhei-te nos olhos e senti a mesma brisa do mar que nos havia percorrido o rosto horas antes , para depois adormecer submisso á força dos teus gestos. Durante a madrugada voltámos a dar as mãos e percorremos o universo das paixões na busca de novas madrugadas. Fui á janela. Olhei o céu salpicado de estrelas e nas asas do pensamento deixei vaguear a minha imaginação. O teu corpo nú estendido na cama segredava-me fantasias e amor. Era primavera...o cheiro a alegrim ficaria para sempre na nossa memória deixando um sentimento forte...doce de inexplicável prazer.
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