
Da minha janela vejo tudo. Vejo o mundo, vejo a rua, e vejo as flores da tia Matilde. Da minha janela vejo o Zé pular a janela da Rita nas noites de lua cheia e como sempre, fico a olhar com ansiedade a tua. Á espera de te poder ver. Á espera de te poder rever. Como lembro as flores por baixo da tua janela onde um rouxinol deixava as melodias que nos faziam sonhar. A tua janela bem na frente da minha era muitas vezes fonte da minha inspiração. Era por ela que eu tentava imaginar-te naquelas noites em que te refugiavas do mundo e de mim. Relembro as noites em que as melodias do fado te contagiavam em serenatas de nostalgia. Foi sempre através da minha janela de madeira escura ,que o teu beija-flor me vinha trazer as tuas mensagens perfumadas. Era tambem através da minha janela que te enviava os sinais que serviam de elo de ligação aos nossos encontros. A tua janela tinha o poder do silêncio, a minha, a convulsão da ansiedade. Duas janelas que o destino não quiz juntar. Talvez a distância entre as duas tivesse sido o obstáculo á concretização do amor. Sempre pensei que o amor não tinha forma, cor, ou que era transparente. Enganei-me. O tempo e a distância matam o que deveria ser eterno. A tua janela deveria ter ficado mais perto da minha. Os teus lábios mais perto dos meus. Adorava ver os teus cabelos negros esvoaçarem sob a brisa quando nas noites de luar te debroçavas na janela. Isso bastava-me. Talvez te ama-se, nunca pensei sériamente nisso. Tentava de longe ler-te a alma procurando que aos poucos o teu coração se fosse abrindo e que derradeiramente se prende-se a mim. Sempre esperei que os teus olhos se abrissem como uma flor ao sol, esperava-te sem esperar nada. Eu ficava-te olhando, com um olhar cheio de nada. Um dia senti um arrepio na espinha, a janela fechou-se. A minha e a tua...pra sempre.









