segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Janelas


Da minha janela vejo tudo. Vejo o mundo, vejo a rua, e vejo as flores da tia Matilde. Da minha janela vejo o Zé pular a janela da Rita nas noites de lua cheia e como sempre, fico a olhar com ansiedade a tua. Á espera de te poder ver. Á espera de te poder rever. Como lembro as flores por baixo da tua janela onde um rouxinol deixava as melodias que nos faziam sonhar. A tua janela bem na frente da minha era muitas vezes fonte da minha inspiração. Era por ela que eu tentava imaginar-te naquelas noites em que te refugiavas do mundo e de mim. Relembro as noites em que as melodias do fado te contagiavam em serenatas de nostalgia. Foi sempre através da minha janela de madeira escura ,que o teu beija-flor me vinha trazer as tuas mensagens perfumadas. Era tambem através da minha janela que te enviava os sinais que serviam de elo de ligação aos nossos encontros. A tua janela tinha o poder do silêncio, a minha, a convulsão da ansiedade. Duas janelas que o destino não quiz juntar. Talvez a distância entre as duas tivesse sido o obstáculo á concretização do amor. Sempre pensei que o amor não tinha forma, cor, ou que era transparente. Enganei-me. O tempo e a distância matam o que deveria ser eterno. A tua janela deveria ter ficado mais perto da minha. Os teus lábios mais perto dos meus. Adorava ver os teus cabelos negros esvoaçarem sob a brisa quando nas noites de luar te debroçavas na janela. Isso bastava-me. Talvez te ama-se, nunca pensei sériamente nisso. Tentava de longe ler-te a alma procurando que aos poucos o teu coração se fosse abrindo e que derradeiramente se prende-se a mim. Sempre esperei que os teus olhos se abrissem como uma flor ao sol, esperava-te sem esperar nada. Eu ficava-te olhando, com um olhar cheio de nada. Um dia senti um arrepio na espinha, a janela fechou-se. A minha e a tua...pra sempre.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Douro...a minha paixão



Meu Douro, meu amante meu encanto, que em cada regresso vejo-te sorrir e iluminar os meus dias enchendo-me a teu lado de felicidade. Juntos já vivemos momentos intensos. Rimos e choramos. Abraçámo-nos com o conhecimento do céu, cheirando a terra na primavera e adocicando os lábios no Outono. Meu Douro dos poetas, dos apaixonados e dos sonhadores. Quantos misturando os sons do amanhecer nas tuas montanhas juraram amores impossiveis ou derramaram lágrimas de sofrimento. Meu Douro dos vinhedos sem fim que me faz flutuar nesse imenso oceano de verdes tonalidades, que abraço em cada curva com sofreguidão serena. Meu Douro dos contornos impossiveis , onde os homens em momentos de fé e esperança, fazem novas promessas á vida. Quando percorremos os teus caminhos, sentimos o calor encher-nos a alma fazendo-nos imaginar e desejar o teu sabor. Meu Douro, meu amante, minha paixão , meu Douro de tonalidades brilhantes e insinuantes, que aos fins de tarde mistura aguarelas de mil cores. Meu Douro da fadiga e do suor humano cuja vida ingrata nem por isso deixa de fazer sorrir de prazer seus habitantes. Meu Douro encantado das vindimas e do vinho, dos passeios pelo rio e do cheiro a perfume. Meu Douro romântico das festas e romarias e do prazer de receber bem das suas gentes. Meu Douro de rio e pedra, da neve das amendoeiras e do azul dos teus olhos. Meu Douro meu rio meu encanto, de espectaculos visuais memoraveis em cada curva do teu curso. Meu Douro de evasões e perdições vou espreguiçar-me nos teus braços para sonhar acordado e o silêncio me responder de novo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Alentejo...meu irmão


Manuel Justino Ferreira, nasceu em Portugal no Alentejo , na minha cidade, Montemor-o-Novo em 1928, homem de mil actividades dedicou muito da sua vida á cultura, nomedamente como poeta , músico, radealiste e actor de teatro. Participei com ele em algumas destas actividades onde criámos forte amizade. Faleceu em Outubro de 2002. Só depois da sua morte um grupo de amigos viria a publicar um livro com os seus poemas . É desse livro, “ Poeta que parte...Poemas que ficam “, e em sua homenagem, que extraí o poema que deixo no meu blog. Oportunamente darei a conhecer outros poemas do mesmo autor.

Tem nos olhos um sol posto
A despedir-se da vida!
Cada ruga do seu rosto
Foi uma esperança perdida!

Ficou deserta a aldeia,
Até o ribeiro secou!
Mar d'angustia em maré cheia,
Onde o futuro naufragou!

Do velho monte sem porta,
A solidão é vizinha...
E nos canteiros da horta,
Só cresce a erva daninha!

Alentejo...imensidade,
Respirando quase a medo!
Alentejo...liberdade
Para viver no degredo!

Minha açorda de poejo,
Meu bolo de requeijão!
Meu velho, meu Alentejo,
Meu poema...meu irmão!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A minha avó ...e o pão caseiro


Ainda me lembro do tempo em que a minha avó me levava para a casa do pão situada no quintal da nossa casa no Torrão. Era uma festa. Logo que ela abria o saco para tirar a farinha para o alguidar, onde com mãos ágeis amassava a farinha, o fermento e água, eu pintava a cara de modo a parecer um verdadeiro padeiro. A minha avó Anica sorridente, iniciava este ritual todas as semanas, para que nunca falta-se pão na mesa da familia. Depois de batida a massa , era a vez de serem separados os pães de quaze dois kilos que ficavam num taboleiro a levedar. Enquanto a lenha crepitava no forno, a avó Anica ensinava-me a musica da “ Rita arredonda a saia” e a “ Casa do mestre André” canções tradicionais portuguesas que ainda hoje passam de boca em boca. Depois da massa levedada era a vez de ver a destreza da avó Anica, com uma enorme pá de madeira, enfiar um a um todos os pães dentro do forno. O momento súblime e mais esperado por mim era quando ela introduzia dentro daquela enorme boca de fogo ,a minha merendeira de pão com chouriço para cozer. Tal como a matança do porco, a feitura do pão era uma festa e um momento de confraternização familiar. Lembrei-me destes momentos porque o tempo é outro, o local é bem distante do quintal da avó Anica no Torrão, e o protagonista da mão na massa é outro. A festa é a mesma, as mãos do Valde são diferentes das mãos da avó e o forno não tem aquela bocarra assustadora, mas o ritual aqui em Santarém da feitura do pão mantem o mesmo sortilégio. Nem eu canto nem o Valde canta e até o Toy se mantem calado para escutar-mos os cd’s de forró que um após outro passam no lata-velha trazido de Portugal. Não hà pão de dois kilos e a merendeira com chouriço nem vêla, nas a prova e a disputa pelo pãozinho quente mantêm-se.

De Santarém a Santarém...atravessando o mar das palavras



Santarém ...rio Tejo...Santarém... rio Amazonas...no meio a uni-las o Atlântico. Duas cidades. Cada uma delas é um mundo. Vale a pena mergulhar na sua especificidade e descobrir o que ambas têm de comum e, o que as destingue nas suas múltiplas disciplinaridades. Dois rios que o mar une, duas cidades irmãs a que o tempo ajudou a criar raizes. Das Portas do Sol, no alto do planalto ribatejano avista-se o Rio Tejo, os imensos milharais e os vinhedos que a lezíria com o esforço de tantos tão generosamente produz. Da confluência dos rios Tapajós e Amazonas o beijo na orla da Santarém paraense. Esta vasta planicie amazónica, de multipla riqueza agricola e piscícola. Visitar o centro da Santarém paraense é rever nos seus forjados das janelas, dos azulejos das fachadas e da estéctica da sua arquitectura um pouco da Santarém ribatejana. Rio Amazonas e rio Tejo, duas vias fluviais de extrema importância para as duas cidades tanto na sua fundação como ainda hoje dois importantes polos no seu desenvolvimento. Duas culturas semelhantes que a lingua portuguesa ajuda a unir. Da literatura de uma ás lendas e narrativas de outra. Do puladinho ribatejano ao carimbó paraense o folclore marca o compasso. A Lenda da Pastorinha no Tejo dá as mãos á lenda do boto rosa no Amazonas, e as canções que andam de boca em boca une-as a composição das mesmas palavras. Às praias, cachoeiras, lagos, passeios pelas matas e tradições folclóricas de uma, contrapôe-se as touradas a criação de cavalos e toiros de outra. Ambas com polos universitários importantes na formação da juventude. Ambas as cidades apenas precisam da boa vontade dos seus responsáveis para que o intercâmbio cultural e económico seja uma realidade mais visivel.

Vergonha e Hipocrisia




Ao ler hoje o jornal português Correio da Manhã como faço todos os dias, fui alertado por uma noticía veiculada por aquele jornal e que me levou depois a ler a crónica com o titulo acima da autoria do Dr.Moita Flores dignissimo Presidente da Camara Municipal de Santarém, a Santarém portuguesa claro, e por achar o assunto bem pertinente e demonstrativo da desumanidade a que chegou a sociedade nos dias de hoje, pedindo desde já desculpa ao autor do texto e ao Sr.Director do Correio da Manhã vou transcrever o referido texto para reparti-lo com os meus amigos do blog:
"Uma vez, estava de serviço de piquete na PJ, fomos chamados a um casa nos arredores de Sintra, da qual vinha um cheiro fétido, e um vizinho suspeitava de que alguma coisa de grave teria acontecido, pois a velhota que ali morava não aparecia em público havia quase um mês. Ela tinha gatos em casa, dizia ele, que miavam insistentemente. Fui com o Simas. A rua empestava. Para quem conhece os odores da putrefacção, não havia dúvida. A mulher estava morta dentro de casa. Arrombámos a porta e o cenário era macabro.

Seis ou sete gatos gordos fugiram, e no quarto, caída sobre a cama, vestida, estava o cadáver da senhora. As partes moles do corpo que estavam sem roupa – pernas, mãos, rosto – não existiam. Os gatos esfomeados haviam-se alimentado da dona durante as semanas de cativeiro. A autópsia assinalou como causa da morte um enfarte fulminante. Porém, mesmo não se tratando de crime, quisemos saber como poderia ter acontecido tão impiedosa tragédia. Os filhos estavam de férias no Algarve. Alguém os alertou para o desaparecimento da senhora e chutaram para canto. Se não aparecia, talvez tivesse ido ver a irmã, que vivia algures no Algueirão. E ponto final. Nem se deram ao incómodo de telefonar para essa irmã (tia) para perguntar se a mãe estaria por lá. E assim terminou a história daquela velhota, que apesar de morta ainda serviu de alimento aos únicos animais que lhe faziam companhia. Os outros animais estavam na praia.

Recordei esta história a propósito desta velhota que agora surgiu morta em casa nove anos depois do óbito. Quis a impiedade da vida que fosse uma dívida das finanças e a imposição de pagamento que permitiram descobrir o corpo, seguramente já esqueletizado. O desaparecimento teria sido participado por uma vizinha à PSP ou à GNR. E agora, quando tudo se sabe, levantam-se um chorrilho de vozes contra as polícias que nada fizeram.

Se calhar não fizeram mesmo. Duvido se seria legal arrombar a porta sem autorização de um familiar, caso não se assinalassem odores ou outros sinais de morte. E os familiares? Durante nove anos não houve um filho, um sobrinho, um primo, alguém preocupado por desaparecimento tão longo? Ao que se sabe, apenas uma vizinha terá feito o alerta. Depois disto, a vida continuou, pois a velhice, nesta sociedade modelada pelo consumo e pelo individualismo, é dispensável. Não sei como chegámos a este limite de desumanidade, de indiferença, de egoísmo. Apenas sei que temos de fugir daqui, o mais depressa possível. Antes que seja tarde e sejamos comidos pelos gatos. Ou por nós próprios.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Toy...o leão de casa


Não sou de poucas palavras. Gosto de um bom papo e de encarar o mundo com ironia. De tristezas bem basta o bombardeamento das tropelias que alguns meliantes por aí fazem todos os dias por esse Brasil fora. Gosto de expressar aquilo que me vai na alma para que quem me conhece não tenha necessidade de ler nas palavras mas tão sómente me entenda nas entrelinhas. A Néia diz que este novo companheiro que caiu de paraquedas cá em casa com um corpanzil de leão, sabe disfarçar a dor o medo e a solidão, é meigo, não a manda lavar a roupa, e acima de tudo é o melhor fiel amigo e se ela o diz lá terá as suas razões. Pois este enorme leão sabe o usar o seu charme canino para ir espalhando a sua mijinha por aqui e ali, provocando ondas de tontura no tio Valde, não precisa que eu lhe fale. Eu e ele, nunca precisámos de falar, a nossa linguagem mimica é suficiente para o manter a razoavel distancia e lhe provoc ar arrepios de frio traduzidos pelo seu vozeirão de arrepiar os cabelos do peito. O Toy como carinhosamente foi batizado dorme acachapado em qualquer lugar mesmo que esse lugar seja reservado a guardar camisas, levando ao desespero os seus tutores quando pela manhã toca a sineta para levantar o batalhão e ele não aparece. A minha saida do quarto pela manhã provoca-lhe estranhas movimentações, espia-me pelo canto do olho sem saber muito bem se me ha-de morder o calcanhar ou mijar em cima do xinelo. Determinado, enérgico e cumpridor atento do que lhe diz a “mãe” o Toy é o mais obediente dos cachorros da minha rua. Ordem dada pela Néia é imediatamente cumprida. Chego a pensar que o Toy além de ler nas entrelinhas o que penso da sua estadia em casa, fala com a dona, tal é a prontidão com que assume as ordens dadas. Hoje pela surdina da noite fugindo ao controlo do Gio, fez uma incursão pela cozinha, calculo que como cachorro igiénicamente educado procurava o quintal para limpar a tripa. A mancha branca do focinho ficou preta quando para seu espanto deu com a porta fechada. E zás aliviou mesmo no meio do salão. Horas extras para a Néia que á sucapa e á meia-luz deu consumo ao detergente. Daqui a pouco tou a ver a “mamã” começar a querer ensinar o Toy a sentar, dar a pata, deitar, fingir que tá morto, etc. Eu acho que ele não vai pestar atenção nenhuma a este tipo de coisas e vou pagar para ver. Que pensará o leão cá de casa de mim?. Huumm... vou estar atento.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Aos meus filhos


No silêncio do meu quarto, ouvindo a chuva bater nas vidraças da janela vejo-vos de braços abertos a sorrir-me á medida que o sono me vai vencendo. Sempre quiz ter filhos e, sempre imaginei que ser pai era sentir a doçura que acalma a alma e nos conduz a uma paz inimaginavel. Sempre me senti com uma infinita vontade de vos amar, de vos proteger, de vos ver crescer e de os ajudar um dia a encontrarem o vosso próprio caminho. O vosso próprio mundo. Por isso quando estou aqui sózinho e recolhido nos meus próprios pensamentos, imagino-os como três pássaros voando livres e felizes num mundo que é vosso e que cabe nas vossas próprias mãos. O que vos desejo meus filhos, é que o mundo vos seja tão generoso como vos ensinei a serdes com ele. Que nunca percam a capacidade de vos amar uns aos outros e que tenham sempre tempo para amar aqueles que vos amam e que nunca se esqueçam dos abraços que demos quando ainda cabiam os tres entre os meus braços. Mesmo aqui longe, onde procurei a felicidade perdida, lembro-me muitas vezes de vocês e faço das minhas palavras o veículo que atravessa céus e mares para chegar até aos vossos corações. Quando percorro estes caminhos de encantamento vejo-me muitas vezes a abraçar-vos e a segredar-vos ao ouvido as canções de embalar que vos cantava quando vos aconchegava o lençol ao pescoço nos momentos que antecediam o vosso sono. E quando se faz silêncio, dou-vos as mãos num imaginário abraço para que, aqui na terra dos sonhos, agarrar-mos com ambas as mãos a hora em que o tempo não passa e inscrever-mos no arco íris a palavra amizade. O amor por vocês é incondicional e intemporal, e resistirá sempre á solidão, ao tempo e á chuva, á ausência e á distancia. Beijo-vos para nos beijos que vos dou, guardar os instantes perfeitos que gostaria de guardar a vida inteira, e nestes momentos de sossego só nosso, vamos, vocês e eu, dissolver na espuma dos dias a eventual saudade que possa haver nos nossos corações.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Eu ...e a Lua


Imagino tantas vezes sentar-me na lua a teu lado. Olhar as estrelas e agarrar uma só para ti. Imagino-me lá , sentado bem agarradinho a ti olhando o mundo e sonhando ele ser só nosso. A minha lua morena e nua está cheia de almofadas brilhantes para eu me sentar contigo. Hà muito que tenho um lugar cativo na lua, por isso podemos caminhar, correr, pular e amar-nos ao sabor da brisa que o sol empurra na nossa direcção. Uma lua só nossa onde possamos ganhar a energia suficiente para vivermos o dia a dia sem angústias. Na lua, na nossa lua, os dias correm mais devagar e as noites são quentes proporcionando-nos momentos de mel salpicadas de malmequeres. Na lua , na nossa lua, arranjamos sempre tempo para estarmos juntos, olharmo-nos nos olhos e rirmo-nos do mundo e de nós próprios. Na lua, na nossa lua pego nas tuas mãos e reparo que têm a mesma temperatura das minhas, olho nos teus olhos e vejo que têm a mesma cor dos meus, reparo no teu sorriso e noto nele a mesma doçura de sempre. Lá sempre aproveitamos todos os momentos e, eu aproveito ainda mais para saborear o presente que a vida me deu...tu. Aproveito para saborear a tua amizade, o teu tempo, o teu bem-querer, a tua estima e preocupação, a tua lealdade. Aproveito para saborear melhor o teu amor. Hà como eu adoro estar na lua...contigo