segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Vergonha e Hipocrisia




Ao ler hoje o jornal português Correio da Manhã como faço todos os dias, fui alertado por uma noticía veiculada por aquele jornal e que me levou depois a ler a crónica com o titulo acima da autoria do Dr.Moita Flores dignissimo Presidente da Camara Municipal de Santarém, a Santarém portuguesa claro, e por achar o assunto bem pertinente e demonstrativo da desumanidade a que chegou a sociedade nos dias de hoje, pedindo desde já desculpa ao autor do texto e ao Sr.Director do Correio da Manhã vou transcrever o referido texto para reparti-lo com os meus amigos do blog:
"Uma vez, estava de serviço de piquete na PJ, fomos chamados a um casa nos arredores de Sintra, da qual vinha um cheiro fétido, e um vizinho suspeitava de que alguma coisa de grave teria acontecido, pois a velhota que ali morava não aparecia em público havia quase um mês. Ela tinha gatos em casa, dizia ele, que miavam insistentemente. Fui com o Simas. A rua empestava. Para quem conhece os odores da putrefacção, não havia dúvida. A mulher estava morta dentro de casa. Arrombámos a porta e o cenário era macabro.

Seis ou sete gatos gordos fugiram, e no quarto, caída sobre a cama, vestida, estava o cadáver da senhora. As partes moles do corpo que estavam sem roupa – pernas, mãos, rosto – não existiam. Os gatos esfomeados haviam-se alimentado da dona durante as semanas de cativeiro. A autópsia assinalou como causa da morte um enfarte fulminante. Porém, mesmo não se tratando de crime, quisemos saber como poderia ter acontecido tão impiedosa tragédia. Os filhos estavam de férias no Algarve. Alguém os alertou para o desaparecimento da senhora e chutaram para canto. Se não aparecia, talvez tivesse ido ver a irmã, que vivia algures no Algueirão. E ponto final. Nem se deram ao incómodo de telefonar para essa irmã (tia) para perguntar se a mãe estaria por lá. E assim terminou a história daquela velhota, que apesar de morta ainda serviu de alimento aos únicos animais que lhe faziam companhia. Os outros animais estavam na praia.

Recordei esta história a propósito desta velhota que agora surgiu morta em casa nove anos depois do óbito. Quis a impiedade da vida que fosse uma dívida das finanças e a imposição de pagamento que permitiram descobrir o corpo, seguramente já esqueletizado. O desaparecimento teria sido participado por uma vizinha à PSP ou à GNR. E agora, quando tudo se sabe, levantam-se um chorrilho de vozes contra as polícias que nada fizeram.

Se calhar não fizeram mesmo. Duvido se seria legal arrombar a porta sem autorização de um familiar, caso não se assinalassem odores ou outros sinais de morte. E os familiares? Durante nove anos não houve um filho, um sobrinho, um primo, alguém preocupado por desaparecimento tão longo? Ao que se sabe, apenas uma vizinha terá feito o alerta. Depois disto, a vida continuou, pois a velhice, nesta sociedade modelada pelo consumo e pelo individualismo, é dispensável. Não sei como chegámos a este limite de desumanidade, de indiferença, de egoísmo. Apenas sei que temos de fugir daqui, o mais depressa possível. Antes que seja tarde e sejamos comidos pelos gatos. Ou por nós próprios.

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