terça-feira, 20 de agosto de 2013

O nascer do sol

Na noite de sexta para sábado acordei como de costume ás 6 da manhã. Apeteceu-me fazer uma coisa fora de propósito, ir ver nascer o sol em Santarém do alto do mirante. Vesti o fato de treino e lá fui. A luz do dia começava a distinguir o contorno da floresta junto ao rio. Consegui chegar ao mirante sem o sol nascer. Perto não se distinguia o vulto de ninguém. Um silêncio magnífico. Nem um cão ladrava. Só o pequeno coro dos pássaros no carramachão  do mirante entoavam estrofes para se acordarem uns aos outros. Fiquei quieto, com uma serenidade incrível assistindo aquele ritual diário de os raios de sol despontarem no fio do horizonte. O nascer, tal como o pôr do sol em Santarém é lindo. Está dentro de cada um de nós dar valor ás pequenas coisas da vida, aos pequenos gestos do quotidiano como o nascer do sol. Quanta gente fica indiferente as belezas da natureza, ao sortilégio de mil milagres com que diariamente somos confrontados. O sol aos poucos subia no horizonte. O dia ia estar bonito. Quando cheguei a casa o sol já ia alto. Os raios batiam na porta e entravam pelas frinchas das janelas como uma roseira florida. Um pintassilgo empoleirou-se na minha janela, acho que cantava dando-me os bons dias.

A magia da brisa

Virei-me  de costas sobre as tábuas do trapiche, fitei o céu por cima de mim e dei comigo a pensar em ti. No fio do horizonte era ainda possível distinguir os últimos raios de sol a desaparecerem. As estrelas começavam a brilhar no céu. Procurei o teu olhar. Fechei os olhos, e no silêncio tentei ouvir a tua voz. Solitários rumores das ondas batendo nas tábuas do trapiche foram os únicos sons daquele principio de noite. Vagarosamente, calado, caminhei ao longo da orla ouvindo os sons noturnos e expiando o rio. Enquanto caminho, caminha comigo o teu rosto. Vejo-o no limbo do meu sonho, estendo a mão na noite e toco-lhe nesta eternidade feita de pontes de saudades. O rio como se adivinha-se  a minha solidão vem beijar-me os pés na companhia do pio das gaivotas. Aqui entre o rio e a floresta, por entre a folhagem da vida navegam os sonhos que me levarão ao teu regaço. A noite abre os olhos com ternura. A magia da brisa acaricia o meu rosto e finalmente eu sinto o teu rosto junto ao meu.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

As férias em Porto Covo

Longe vão os tempos em que com muita antecedência se começava a preparar as férias, como sempre,  em Porto Covo. Éramos poucos a usar as delicias de uma paisagem que a grande maioria dos portugueses desconhecia. Era ali onde elevadas temperaturas e um sol dourado a par das delicias do recortado da costa me deixava envolver num  “dolce fare niente “ que convidava á moleza e ao desprendimento depois de um ano de trabalho. Comecei a ir para Porto Covo quando os meus filhos ensaiavam os primeiros passos. O local aprazível  e protegido pelas arribas tornara-se com o passar dos anos num ritual. Em Porto Covo conciliava-se a harmonia da paisagem com o descanso do corpo. Uma química especial envolvia tudo e todos  tornando-se diariamente  num ritual os atos próprios de um acampamento. Ali, alheios á ditadura dos horários  aprendia-se a amar a natureza, a ouvir o som das pedras e o cantar do mar. Do alto das falésias de Porto Covo buscava o sol, procurava perpetuar os dias e acalmava com o movimento ancestral das marés ficando assombrado com  o entoar da sua melodia. Como era bom deixar-nos cativar pelos aromas do lugar, pelos labirintos das rochas, pelas conversas dos pescadores nos fins de tarde, alicerçadas em mil e uma histórias ao longo de uma vida dura no mar. Foi ali, quando o gigante estava adormecido, que os meus filhos aprenderam a nadar. O espírito do local invadia tudo e todos fazendo-nos sentir  um equilíbrio e uma paz interior para nos preparava para á noite na taberna do “Tio Xico” termos  as habituais rodadas de amigos em volta de um baralho de cartas e uma cerveja gelada, misturada com boas gargalhadas. No último dia sentado num rochedo debruçado sobre o mar era altura de olhar já saudoso o horizonte e marcar encontro para daqui a um ano. Então com a bagagem da solidão a tiracolo era hora de voltar a casa.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Na Praça da Cohab...caminha-se

São 6 da manhã. Santarém acorda e eu saio da casa para caminhar. O tempo está calmo, úmido e quase letárgico. A brisa movimenta o meu corpo,  afasta-me o sono e liberta-me a alma. Um pássaro canta. Vários pássaros cantam. Sente-se no ar o rumor dos  urubus. Começam a aparecer os primeiros raios da claridade. Sinto a cada passo uma paz desconhecida, uma calma subtil e inesperada. Como de costume percorro o mesmo caminho e o suor aos poucos passa por entre os meus dedos e escorrega, fugindo, pelas minhas costas.  Na Praça da Choab, indiferentes a tudo, e seguindo a lei da natureza, as árvores deixam cair as folhas que se juntam ao lixo espalhado pelo chão pela incúria dos utentes do parque e, com a indiferença dos responsáveis da Prefeitura.  Passo a passo o meu pensamento percorre os últimos momentos difíceis, de luas já passadas, os dias de desespero, as feridas que se abriram e já secaram, as dores e o desalento em alguns momentos.  Depois recordo que a vida me deu uma nova chance  e deixo para lá os meus medos. Acredito que apesar das pedras eu consigo plantar flores  e apagar as sombras desencontradas num tempo sem tempo. Subitamente uma companheira habitual nestas caminhadas cumprimenta-me, agradeci e mostrei-lhe o meu melhor sorriso. O sol começa a aparecer como o desabrochar de uma flor rompendo a tênue fronteira da solidão levando com ele o aroma das madrugadas. Continuo a manter o ritmo da passada e o calor do sol renova-me o sentido das coisas. Enquanto recobro o fôlego dou comigo a pensar nos acontecimentos do último ano. Abri os braços, enchi o peito de ar e resolvi mudar de assunto, era ano para esquecer. A hora é de caminhar, de sentir o aroma das flores. É que viver é mesmo uma coisa muito séria. Para quê falar do passado, vamos é continuar a caminhar embalados pelo rumor da aragem.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Agora moro aqui

Aqui onde o céu toca a floresta, aqui onde o azul escreve ausência quando a noite se deita. Aqui quase no limiar do mundo moro eu. Moro em uma rua onde a ausência da cal nas paredes não queima os ossos nem resseca a pele. Aqui onde se tenta adivinhar realidades frágeis, partilhar gotas de chuva e sedentos silêncios. Uma rua onde existe chuva onde não passamos em determinados invernos e mulheres que guardam no coração sorrisos e palavras não guardadas nos sonhos ao cair da tarde. É nesta rua, por uma nesga de céu que vivo, amo e escrevo no silêncio o quotidiano em forma de alegria. É uma rua de contrastes e de trastes, uma rua de sorrisos tristes, de mãos que oferecem cores ou de olhares de solidão de vozes que se atropelam. São tantos os carros que passam, tantos os enigmas por descobrir. A minha nova rua é assim. Tem velhos que erram as palavras no tempo e crianças que descem a ladeira do seu mundo para se encontrar com as outras na escola ao fundo da rua. A minha nova rua é um céu aberto numa reta de altos e baixos feita de emoções. Uma rua de náufragos em que cada um está entregue ao seu destino. Muitas vezes percorro as quadras ao meu redor. Gosto de sentir o respirar das árvores no silêncio anônimo de quem passa. Ainda não conheço toda a rua mas sei que lhe vou conhecer todos os mistérios. Ao longo do dia, vejo passar inúmeros transeuntes solitários com sonhos que a vida não deixou guardar, soletrando o vento que lhes agita as almas. Saio muitas vezes pela minha rua, devagar, soletrando o silêncio das paredes nuas que o tempo deixa transparecer. É esta a minha nova rua. Rua onde as manhãs desejam abraços, nas noites se desejam cansaços e nas madrugadas se escrevem canções de amor. Um único senão, fica longe do rio que amo embora o sinta pela brisa que pela manhã percorre o meu interior. É assim que vivo na minha nova rua. Só podia ser assim.