quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Na Praça da Cohab...caminha-se

São 6 da manhã. Santarém acorda e eu saio da casa para caminhar. O tempo está calmo, úmido e quase letárgico. A brisa movimenta o meu corpo,  afasta-me o sono e liberta-me a alma. Um pássaro canta. Vários pássaros cantam. Sente-se no ar o rumor dos  urubus. Começam a aparecer os primeiros raios da claridade. Sinto a cada passo uma paz desconhecida, uma calma subtil e inesperada. Como de costume percorro o mesmo caminho e o suor aos poucos passa por entre os meus dedos e escorrega, fugindo, pelas minhas costas.  Na Praça da Choab, indiferentes a tudo, e seguindo a lei da natureza, as árvores deixam cair as folhas que se juntam ao lixo espalhado pelo chão pela incúria dos utentes do parque e, com a indiferença dos responsáveis da Prefeitura.  Passo a passo o meu pensamento percorre os últimos momentos difíceis, de luas já passadas, os dias de desespero, as feridas que se abriram e já secaram, as dores e o desalento em alguns momentos.  Depois recordo que a vida me deu uma nova chance  e deixo para lá os meus medos. Acredito que apesar das pedras eu consigo plantar flores  e apagar as sombras desencontradas num tempo sem tempo. Subitamente uma companheira habitual nestas caminhadas cumprimenta-me, agradeci e mostrei-lhe o meu melhor sorriso. O sol começa a aparecer como o desabrochar de uma flor rompendo a tênue fronteira da solidão levando com ele o aroma das madrugadas. Continuo a manter o ritmo da passada e o calor do sol renova-me o sentido das coisas. Enquanto recobro o fôlego dou comigo a pensar nos acontecimentos do último ano. Abri os braços, enchi o peito de ar e resolvi mudar de assunto, era ano para esquecer. A hora é de caminhar, de sentir o aroma das flores. É que viver é mesmo uma coisa muito séria. Para quê falar do passado, vamos é continuar a caminhar embalados pelo rumor da aragem.

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