São 6 da manhã. Santarém acorda e eu saio da casa para
caminhar. O tempo está calmo, úmido e quase letárgico. A brisa movimenta o meu
corpo, afasta-me o sono e liberta-me a
alma. Um pássaro canta. Vários pássaros cantam. Sente-se no ar o rumor dos urubus. Começam a aparecer os primeiros raios
da claridade. Sinto a cada passo uma paz desconhecida, uma calma subtil e
inesperada. Como de costume percorro o mesmo caminho e o suor aos poucos passa
por entre os meus dedos e escorrega, fugindo, pelas minhas costas. Na Praça da Choab, indiferentes a tudo, e
seguindo a lei da natureza, as árvores deixam cair as folhas que se juntam ao
lixo espalhado pelo chão pela incúria dos utentes do parque e, com a
indiferença dos responsáveis da Prefeitura. Passo a passo o meu pensamento percorre os
últimos momentos difíceis, de luas já passadas, os dias de desespero, as
feridas que se abriram e já secaram, as dores e o desalento em alguns momentos. Depois recordo que a vida me deu uma nova
chance e deixo para lá os meus medos.
Acredito que apesar das pedras eu consigo plantar flores e apagar as sombras desencontradas num tempo
sem tempo. Subitamente uma companheira habitual nestas caminhadas
cumprimenta-me, agradeci e mostrei-lhe o meu melhor sorriso. O sol começa a
aparecer como o desabrochar de uma flor rompendo a tênue fronteira da solidão
levando com ele o aroma das madrugadas. Continuo a manter o ritmo da passada e
o calor do sol renova-me o sentido das coisas. Enquanto recobro o fôlego dou
comigo a pensar nos acontecimentos do último ano. Abri os braços, enchi o peito
de ar e resolvi mudar de assunto, era ano para esquecer. A hora é de caminhar,
de sentir o aroma das flores. É que viver é mesmo uma coisa muito séria. Para
quê falar do passado, vamos é continuar a caminhar embalados pelo rumor da
aragem.
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