sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chove nesta manhã


Chove. No ar uma brisa ténue, nos ouvidos o som dos passaros e, no meu peito, os acordes de um novo amanhecer. Recolho-me debaixo do guarda-chuva e corro para o ónibús. O céu de Santarém aos pouco vai ficando rosa, desbotando num sorriso dessimulado. Sinto na luz da manhã o bom dia de quem passa como um calendário que se repete, deixando inundar de imagens os meus olhos. Num impulso acaricio o cabelo limpando uma gota de água que redesenhava as curvas do pescoço e , vejo uma jovem sorrir-me com os olhos, afagando-me a solidão. Olho através da janela do ónibus e revejo-me na silhueta da árvore despida, neste dia de chuva cinza claro, com grandes raizes cheias de promesas de verde que secretamente aguardam pela Primavera. O dia de chuva adormece-me a alma como se a minha letargia fosse um refugio para me esconder da solidão. Hà uma beleza especial no movimento dos transeuntes, como se fosse um baile de borboletas, desenhado pela luz do dia que nasce. As gotas de água da chuva que salpicam o pavimento largam acordes de sifonias indefinidas. Embora chovendo esta manhã está cheia de vida. Santarém acordou á muito. Mil afagos, mil botões em flor, mil raios de luz acabam por iluminar a luz de quem acredita no renovar de cada manhã. Saboreio na pele a frescura e toco com as mãos os traços de luz que me percorrem o rosto. Saio do ónibus e misturo-me na multidão. Arrepio-me quando a água me envolve fazendo-me cócegas nas ondas da vida. A chuva continua a cair. O seu ruido não é só um gotejar, é uma melodia triste mas ao mesmo tempo bonita, como o raiar timído de um sol branco que vai aparecendo para lá do rio num dia de tempestade. A natureza vai acordando preguiçosa.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quando nasceu uma amizade


Já não me recordo como tudo aconteceu, ou até mesmo quando começou. Hà um, dois, talvez três anos. Sei que nesse tempo lia poesia nas madrugadas, houvia os passáros cantar pelas manhãs e sentia as canções do vento quando a brisa me batia no rosto ao entardecer, naqueles momentos imensos do vazio dos solitários. Gostava das ruas desertas , de me rever nas poças de água e de percorrer os caminhos molhados e sentir o cheiro do capim depois das chuvadas... sózinho. Um dia descobri que precisava de um amigo para não viver debruçado no passado em busca das memórias perdidas. Um amigo daqueles que fazem o coração sorrir. Quando menos esperava do chão árido deste mundo, nasceria uma flor que mais tarde me ofereceria o seu rarissimo perfume. O da amizade. Este substantivo fecundo que acabaria por percorrer esta fronteira imensa que existe entre o respeito e a solidariedade, viria a permitir hoje, que dividamos momentos de cumplicidade, alegrias e tristezas. O Valério é um amigo, um irmão.Me fez perceber que os momentos perfeitos existem e que afinal a felicidade está nas coisas simples. A vida é, foi e sempre será feita de escolhas. Escolha da cor de uma camisa, escolha da mulher que nos acompanha pela vida, a escolha do caminho a seguir nessa vida e, a escolha de um amigo. Escolhi com a razoavel percepção de que, este amigo cuja presença me trás alegria, que me abre o coração com um sorriso, que cre na amizade e a vive com audaz conquista de liberdade, que não se preocupa em dar ou em receber mas que sente sempre a necessidade de compartilhar, é um amigo para uma vida.. Esta amizade sincera que divide comigo segredos e que silencia. É um amigo bem humorado, intransigente, exigente mas determinado. Queria dar-lhe este abraço em silêncio e dizer-lhe da minha determinação em manter indefinidamente no espaço da minha vida a tua amizade. Obrigado irmão.

domingo, 2 de outubro de 2011

Como sobreviver à hecatombe


Atravessamos uma época cuja atenção da população se centra nos atentados ao patrimônio, à vida humana, nas burlas que constantemente surgem nos mídia e que dizem respeito a gente de colarinho branco, nos assaltos com que diariamente somos confrontados, nas fugas ao fisco e todo o tipo de corrupção que encapotadamente ou sem pudor á luz do dia nos fazem pensar que vivemos numa república das bananas. Acostumamo-nos tanto a este tipo de coisas que não estranhamos as condenações ligeiras que muitos destes crimes são punidos. Os crimes contra as pessoas, sejam elas crianças, mulheres ou idosos passam-nos ao lado. Alguém já se colocou no lugar de uma mulher ou de uma criança vitima de um ato criminoso de violação, e ter a noção exata da violência física e mental porque estas pessoas passam?. Verificamos que estes crimes que afetam normalmente pessoas indefesas e que deveriam por isso estar mais protegidas, são pela justiça levemente punidos e menos agravados que muitos outros. A leia é o que é. E todos nós nos abstemos ou fingimos não entender a brutalidade destes atos ,esquecendo-nos até, do calvário vivido por estas pessoas muitas vezes ou quase sempre, sofrendo em silêncio, não só pela vergonha, mas também pela tortura de não reviverem o seu pesadelo. Há dias um taxista foi assassinado com uma mutilação horripilante. São estes crimes que toleram o nosso dia a dia face ás violações, que só são dolorosas para quem as sofre. Normalmente as bestas que violam passam ao lado das condenações. Considerados inimputáveis tomam uns comprimidos e voltam á vida que estavam habituados mais tarde ou mais cedo. Os políticos que têm a responsabilidade de legislar sobre a matéria normalmente atiram que este problema atravessa fronteiras, e diferenças sociais e culturais. Choca-me esta situação. Sensibilidade burra a minha obviamente. Como sobreviver à hecatombe social, vai ser a luta a desenvolver nestes tempos de brandos costumes.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Nayma a guerreira


O dia tinha nascido , e já muito cedo, o sol a aquecia corpos e corações. As guerreiras icamiabas da aldeia, haviam saido para caçar. Hoje era o primeiro de muitos dias especiais. A festa dedicada a Iaci divindade mãe do Muariquitã, tinha como ponto alto um jantar de caça em honra dos visitantes. Nessa noite os Guacaris, guerreiros de aldeia vizinha eram hospedes especiais . A selva e o rio mantinham à muitos anos o encantamento que fazia das belas mulheres da aldeia o sortilégio da disputa entre os Guacaris. A aldeia ficava situada num inespugnável vale da nascente do rio Nhamundá. As enormes cachoeiras de água, caiam em turbilhão num lago de águas verdes e transparentes, que as indias dedicavam á Lua. As quedas de água bem como a selva luxuriante, escondiam dos inimigos, as belas e famosas guerreiras. Nayma a mais jovem e bela guerreira chegou-se ás águas do lago e passou suavemente as mãos pelo rosto, saindo-lhe um enorme sorriso ao reparar na sua imagem reflectida nas águas limpidas. Olhou de novo o espelho de água e pediu a Iaci que lhe guia-se o arco e a flecha na caçada de hoje. O vento soprou baixinho dizendo a Nayma que a destreza das suas mãos fariam com que a floresta hoje fosse dela. Ela voltou a sorrir, deu a mão ao vento, e rapidamente voltou á companhia das outras amazonas. Fora a última a atravessar a passagem secreta que separava o mundo exterior da aldeia fazendo rolar o enorme bloco de pedra que fechava a entrada. Nayma olhou o céu e sentiu a brisa que pela manhã a beijava . Era tempo de se fazerem á floresta e procurar alimento. A jovem olhou o imenso arvoredo e sentiu o doce nectar que a beijava como que por magia. Caminharam longas horas por entre as árvores por trilhos cobertos de musgos frescos e macios. A caçada tinha sido produtiva e Nayma destacou-se caçando várias peças merecendo elogios da chefe guerreira. Era hora de regressar à taba e começar a preparar os festejos. Enquanto todas se dirigiram ás suas ocas. Nayma quedou-se à beira do lago. Sentou-se numa pedra olhou o lago e os reflexos prateados da lua da sua superficíe e quedou-se a sonhar. Quem seria o guerreiro guacari que amanhã lhe estava destinado?. Quem iria possuir o seu corpo belo e jovem? O chilrear de uma arara despertou-a. Nayma levantou-se , estendeu as mãos e mergulhou nas águas do lago. Voltou à oca construida exatamente onde o lago dá a mão á floresta, deitou-se, e adormeceu. Um beija-flor cantava junto á janela fazendo-a sonhar. Sonhava que o beija-flor lhe vinha trazer mensagens de amor perfumadas com as flores que cresciam por toda a floresta.O seu imaginário sobrevoava para lá do lago, ela sonhava que um jovem guerreiro de longos cabelos negros, esvoaçava, impelido pelo vendo, de braços abertos para ela. Tinha uns olhos verdes da cor das pedras que as guerreiras retiravam do fundo do lago. Era aquele querreiro guacari que ela queria para as festas em honra de Iaci. O sol voltara de novo á floresta . Nayma e várias das suas amigas correram para o lago e mergulharam. Refrescavam os corpos e revigoravam os musculos para o trabalho do dia. A taba tinha de estar linda para daí a pouco receber os guerreiros guacaris. Pouco depois soaram os tambores num ritmo alucinante. Chegavam os guacaris. Rapidamente as jovem alinharam de costas para a entrada como era tradição e cada um dos jovens guerreiros alinhava na frente de cada jovem. Era a forma ancestral que sempre orientou a escolha dos casais. O coração de Nayma batia aceleradamente, como seria o guerreiro que lhe havia caido em sorte?. As jovens se viraram e cada um dos guerreiros estendeu a mão aquela que durante as festas ia ser a sua amada. Nayma não queria acreditar. À sua frente estava o guerreiro de olhos verdes que o vento no sonho trouxera até ela. Sorrio. Baixou os olhos e com timidez estendeu a mão. No jantar os dois jovens se tocaram e beijaram inumeras vezes olhando-se olhos nos olhos com a ternura de um casal apaixonado. Pouco depois e em procissão os casais dirigiam-se ao lago cantando á luz de archotes. Nayma não parava de olhar o seu amado, no seu ombro ia um pote cheio de perfume que derramaria no lago para o purificar. A lua deixava na superficie das águas raios de luz prata provocando encantamento em todos. Chegava a hora das jovens guerreiras mergulharem nas águas limpidas e encantadas e das profundezas retirarem as pedrarias verdes onde pouco depois esculpiriam a figura de Muariquitã. Já na oca Nayma ajoelhou em frente do guerreiro arrancou uma trança do seu cabelo negro e num gesto de amor colocou o Muariquitã no seu pescoço pedindo a Iaci os desejos de sorte e de proteção para o seu amado. Ele abraçou-a num beijo de paixão incontida, de volupia e desejo. Nayma olha agora o lago, no lago dos seus olhos, que apenas guarda agora, o vazio de um sentimento que já se foi. Alguns anos mais tarde, na aldeia dos guacaris, Pitu o pequeno índio brincava alegremente,e o jovem guerreiro que te tinha amado Nayma, via nos olhos do filho a nostalgia de um amor impossivel.

(Ao meu amigo Junior Chaves, desafio lançado....desafio cumprido)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ponta de Pedras...a misteriosa


Solitária, linda e guardando no seu regaço o brilho das pratas, só Ponta de Pedras iguala o brilho das estrelas que lá longe, beijam o rio,exatamente no mesmo sitio onde o céu acaricía as águas. Sentado na areia fina da praia de olhos fixos no teu sorriso, dou por aquela estrela cadente, que enamorada, vem beijar o teu regaço . Neste cair de tarde de Julho, olhando o infinito azul das águas que vêm amar a areia branca e fina da praia, escuto o murmurio das aves num silêncio feito de solidão. O céu coberto de nuvens de algodão, transmite uma calmaria imensa a este lugar, onde sempre se desejará nascer, viver e morrer . Nesta tarde mansa, sentado nas margens, procuro entender de que veludo é feito este rio que corre altivo levando todos os meus sonhos até à foz. Ponta de Pedras é o sopro de um murmúrio, um barco escondido entre a folhagem, os olhos verdes semi-cerrados de uma qualquer princesa das águas. Uma perfeição da natureza. A lua cheia, redonda, imensa ajuda-me a perceber o que de belo e misterioso tem este tesouro escondido entre o arvoredo. Um som mavioso leva-me de novo o olhar para aquelas águas prateadas que me beijam os pés e tenho a percepção de que a princesa das águas canta para mim, ao mesmo tempo que uma núvem de algodão poisa nas árvores da floresta. A consciência ecológica torna-se neste lugar , um formigueiro doloroso, que nos desperta para a conservação da natureza, tal a beleza misteriosa destas paragens. É aqui neste lugar de areais imensos, onde as manhãs são de sol claro, o cheiro do maracujá e o gosto do açaí se misturam, onde a brisa leve e morna das madrugadas beija o rosto da princesa do rio, que se pode sonhar. Logo mais, quando o azul do céu escurecer e, o brilho do cristal das tuas águas se apagar, vou adormecer e, sonhar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Papel vazio


O Tapajós está esta noite vaidoso, calmo e vagabundo. Por cima do vôo pintado das gaivotas, que chegam para anunciar os ecos do calor, ouço os murmúrios das gentes que povoam a cidade. Quero escrever. Olho o imenso rio, até ao limite onde consigo imaginar o seu fim e reparo no ondular suave das águas. Perco-me a inventar as letras. Para lá das margens existe um oceano verde que se confunde com o céu azul. O rio faz uma corrida desenfreada acabando muitas vezes num rendilhado de espuma de encontro á quilha dos barcos que subindo procuram o porto de abrigo. Faltam-me as palavras para descrever este sortilégio. È a terceira folha de papel que rasgo, a caneta teima em não encontrar as palavras, é como quando a fonte seca e se cala. Escrever uma história, um sonho, um mergulho na alma. Volto a levantar a cabeça do papel e olho o horizonte. Sinto a caricia molhada que o vento, sussurrando trás do rio. As palavras que me fogem são vôos rasos sobre a superfície da minha pele. O que sinto de momento são apenas simples abraços de um pensamento fugitivo. As palavras travam, fogem, não aparecem. Será da magnitude do rio?. Preciso de um aconchego por forma a livrar-me do brilho baço e momentâneo do meu pensamento. Sinto um repentino desejo de tocar a água e guardar o prazer que sinto na minha pele, mas apenas pressinto a quietude do rio nesta noite encalorada. Rasgo nova folha deste bloco. Reparo agora que o céu está estrelado. Como era bom voar por sobre o rio a caminho das estrelas. Sonhar é o que estou a fazer neste momento com uma folha vazia à minha frente. Volto a pegar nas letras e encontro de novo apenas a sombra das palavras. Acho que vou desistir. Vou embarcar apenas no som melodioso que o silêncio me oferece e, deixar-me espreguiçar até que a última gota de orvalho chorada pela noite seja sugada pelo rio.

domingo, 14 de agosto de 2011

O banco da minha adolescência


Devagar, um a um, subi os degraus da ingreme subida que me levava ao castelo da minha cidade nos momentos de maior solidão. O banco de pedra ainda continua a ser o mesmo, virado para a magnifica paisagem onde ficava os Paços do Alcaide. Sentei-me à pouco tempo nele. Foi num fim de tarde debaixo de um imenso céu azul matizado de laranja. Nesse banco de pedra que me trouxe o despertar da saudade de tempos passados da minha adolescência. Mantem a mesma posição, apenas o granito está mais enegrecido pelo passar dos anos e dos temporais. Muitas vezes adormeci em cima dele e, outras vezes bem desperto fiz juras de amor. Era o banco do prazer e do desprazer. Rápidas e certeiras as memórias olfactivas do alecrim e do rosmaninho que encosta abaixo atapetavam o chão onde cantam rouxinois e, onde os corpos estilhaçados de batalhas passadas rolavam para ficarem inertes junto ao rio. Fiquei ali tempos sem fim. Olhei o horizonte e tentei descortinar vestigios das páginas escritas na tinta verde do arvoredo, que na minha adolescência eram pontos de referência na paisagem. De súbito poisou no meu joelho um simples gafanhoto de um verde pálido impelido pela brisa que no alto do morro sopra sempre quase sem se sentir. Sacudiu-o delicadamente com a ponta do indicador e reparei nos ruidos da cidade que chegavam aos meus ouvidos. Uma borboleta com as asas da cor do arco-irís voava ao meu redor e vi nela a promessa da renovação da vida. Quantas promessas ao inesgotável caminho do amor e da fraternidade fiz naquele lugar de pedra fria. Tantas, que se perderam na imensidão do tempo. Fui para longe. Cruzei mares, subi e desci montanhas. Desbarvei novos horizontes, desejando perpetuar a ausência,e manter-me afastado do banco de granito, mas, como a ausência só é sentida quando não hà vida, voltei. E depois de um Setembro feito de silêncios e de penumbras, hà uma chama que brilha de novo na esperança de renovação, redescobrindo em mim o sentido mais profundo da vida. Depois de Setembro as minhas madrugadas são coloridas. Como foi bom voltar ao meu banco de granito. Ao banco que foi para mim o elo de ligação entre o sonho e a poesia, avivando-me memórias que sempre recusei partilhar. Colhi um malmequer, dei-lhe um beijo e atirei-o ao vento.