quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Era uma manhã cinzenta


Era uma manhã cinzenta. O céu vertia lágrimas por sobre os mangueirais. Meti a mão nos cabelos num gesto de angustia. Os médicos olharam-me nos olhos e sentenciaram. Tinha de ser internado. Suspirei mentalmente. O silêncio não era completo quando em cadeira de rodas me levaram ao terceiro piso. O chiar da cadeira e o meu lamento com as dores, quebravam a rotina daquele penoso caminho. A Néia dotada de extrema sensibilidade e afetuosa, apanágio da sua alma forte, acarinhava-me e dava-me o alento necessário para ultrapassar o cativeiro que se prolongou quase a trinta dias. As primeiras noites foram passadas sentado na cama com os cotovelos fincados nas pernas e as dores atormentando-me o espírito. As palavras de conforto de pouco serviam, só a morfina dada já madrugada dentro me derrotava e estancava as lágrimas que bebia em silêncio. Adormecia já no céu se apagavam as estrelas. Havia luar naquela noite de segunda-feira. O céu estava límpido e uma infinidade de estrelas quebrou o nervosismo de quem lá pela manhã entraria no centro cirúrgico. A manhã de terça-feira estava fresca e serena. O silêncio foi quebrado pela Néia, era hora de banhar e de me preparar para descer. No centro cirúrgico deitado na marquesa com os braços abertos qual Cristo crucificado, apenas reparei no perfil, nos cabelos e na tez branca do Dr.Tozzi. Com a boca entreaberta e os olhos parados, senti a vida fugir-me e o sangue correr vagarosamente a caminho do coração. Depois de repente fez-se noite .Um céu claro e límpido, um ar puro, o sol a ser coado pelas vidraças das janelas e Deus mais uma vez a meu lado ao abrir os olhos. A Néia observou-me por uns segundos pegou-me na mão e sorriu. Estava de novo vivo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O fechar de uma época


Janelas outrora bonitas de casa senhorial, pintadas e reluzentes sempre a olhar o rio imenso, que à sua frente caminha indiferente até ao mar. Das suas varandas foram ouvidas serestas e juras de amor ou angustiados lamentos da lancha que não chegava. Quantas vezes escutaram segredos e ouviram lamentos. Todos os dias o sol espreguiçava-se pelas suas fachadas e viam as nuvens caminharem sobre as águas do rio, impelidas pela brisa de cada manhã. Hoje, sob a árvore de sombra benfazeja, de copa volumosa com folhas e pássaros, esquecidas e sozinhas, deixaram de sorrir. Lamentam a indiferença dos homens e ,envergonhadas, fecharam-se para ninguém poder ver a tristeza da degradação. Orações invisíveis ecoam para lá das paredes anunciando um prenúncio de morte. O tempo não pára, só as águas do rio se movem levando os sonhos de uma reabilitação. Uma andorinha pousa no parapeito dando-lhe uma dimensão de vida...até quando?.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Os fins de semana na orla


A orla estava cheia, normal para um fim de semana. Casais de todos os sexos, fauna mista entre os estudantes, agricultores, empregados de balcão e os habituais pescadores na procura de peixe miudo. De peixe miúdo tambem procura um certo grupinho de brilhantinas que se fazem a tudo o que meche. A um canto um cantor já a entrar na terceira idade debita umas notas uns décibeis acima do normal. Sentados nos muretes do passeio os mais jovens esperam ouvir de cada boca a doçura das palavras, sonhando e amando. A morena que se cruza comigo sorri como se o paraiso tivesse descido à terra ao escutar de celular pregado ao ouvido palavras que de certo lhe criam sonhos e ilusões. Do peito escorre-lhe o amor e a cabeça fervilha consumindo-a de paixões As noites na orla de Santarém ao fim de semana são assim, cheias de luz e de vida. Sente-se o coração pulsar debaixo da pele de cada um. A música e as gargalhadas andam de mão dada com a euforia, deixando todo o mundo numa letargia que deixa transparecer a vontade de o tempo passar devagarinho. Aproveita-se o tempo para limpar a memória, deixar o coração de molho ou simplesmente recarrega-se baterias para mais uma semana. Aqui sob um luar brilhante e uma brisa que sopra levemente, perde-se a noção do tempo. As noites são sempre azuis e apetece sob o manto das estrelas ficar até ao amanhecer. Mas é preciso partir depois de limpa a alma e reposto o prazer de viver. No ar deixaremos, como sempre, aquele desejo que algum barco vagabundo nos leve para lá do horizonte, para de novo ouvir o grito das gaivotas.

sábado, 26 de novembro de 2011

Procurar-te de novo...


Escrevo-te hoje, e aqui, porque sinto que ando de novo á tua procura. Numa noite, faz tempo, numa noite prefeita, liguei o meu coração ao teu e troquei uma parte da tua alma com a minha, enquanto dormias. Plantei nessa noite uma semente no teu coração consciente de que ela germinaria.Amarrei-me a ti. Como as palavras são os meus passos é com elas que espero te encontrar de novo. Continuo a gostar de ouvir a tua voz a embalar-me de noite antes de, tantas e tantas vezes, te encontrar nos meus sonhos.Sonhos alterados pela solidão, onde tu me apareces, na cama ,linda e sensual. Procuro todos os dias abraçar-te antes de adormeceres, e em cada manhã antes de acordares. É a paixão que nunca sabemos quando acaba ou se transforma. Contigo aprendi que o amor é uma força misteriosa e divina indiferente ao frio dos dias, ao vazio da cama ou até mesmo ao silêncio da distância. Acredito que tambem tenhas aprendido muito comigo. O tempo que temos vivido juntos tem demonstrado isso. Temos sido nós, com os nossos passos, que temos feito o nosso próprio caminho. Tudo o que vivemos até aqui é um tesouro que nunca se apagará da nossa memória. É por isso que te pergunto se não tens saudades de outras manhãs, onde os dias não pareciam frios e secos, sem oásis e miragens?.Quero voltar a sentir o teu cheiro. Quero continuar a amar-te sob este sol, este céu e o cheiro deste rio imenso que continua a ser a nossa fonte de inspiração. Não quero ser apenas espectador da nossa existência, quero participar activamente nela. Vamos viver cada minuto intensamente. Estou certo, que doravante, o amor vai trazer de volta os sons das nossas conversas, o calor das nossas mãos entrelaçadas, o sabor da minha boca na tua. Por ti percorro o céu e trago-te de volta mil estrelas cintilantes.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chove nesta manhã


Chove. No ar uma brisa ténue, nos ouvidos o som dos passaros e, no meu peito, os acordes de um novo amanhecer. Recolho-me debaixo do guarda-chuva e corro para o ónibús. O céu de Santarém aos pouco vai ficando rosa, desbotando num sorriso dessimulado. Sinto na luz da manhã o bom dia de quem passa como um calendário que se repete, deixando inundar de imagens os meus olhos. Num impulso acaricio o cabelo limpando uma gota de água que redesenhava as curvas do pescoço e , vejo uma jovem sorrir-me com os olhos, afagando-me a solidão. Olho através da janela do ónibus e revejo-me na silhueta da árvore despida, neste dia de chuva cinza claro, com grandes raizes cheias de promesas de verde que secretamente aguardam pela Primavera. O dia de chuva adormece-me a alma como se a minha letargia fosse um refugio para me esconder da solidão. Hà uma beleza especial no movimento dos transeuntes, como se fosse um baile de borboletas, desenhado pela luz do dia que nasce. As gotas de água da chuva que salpicam o pavimento largam acordes de sifonias indefinidas. Embora chovendo esta manhã está cheia de vida. Santarém acordou á muito. Mil afagos, mil botões em flor, mil raios de luz acabam por iluminar a luz de quem acredita no renovar de cada manhã. Saboreio na pele a frescura e toco com as mãos os traços de luz que me percorrem o rosto. Saio do ónibus e misturo-me na multidão. Arrepio-me quando a água me envolve fazendo-me cócegas nas ondas da vida. A chuva continua a cair. O seu ruido não é só um gotejar, é uma melodia triste mas ao mesmo tempo bonita, como o raiar timído de um sol branco que vai aparecendo para lá do rio num dia de tempestade. A natureza vai acordando preguiçosa.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quando nasceu uma amizade


Já não me recordo como tudo aconteceu, ou até mesmo quando começou. Hà um, dois, talvez três anos. Sei que nesse tempo lia poesia nas madrugadas, houvia os passáros cantar pelas manhãs e sentia as canções do vento quando a brisa me batia no rosto ao entardecer, naqueles momentos imensos do vazio dos solitários. Gostava das ruas desertas , de me rever nas poças de água e de percorrer os caminhos molhados e sentir o cheiro do capim depois das chuvadas... sózinho. Um dia descobri que precisava de um amigo para não viver debruçado no passado em busca das memórias perdidas. Um amigo daqueles que fazem o coração sorrir. Quando menos esperava do chão árido deste mundo, nasceria uma flor que mais tarde me ofereceria o seu rarissimo perfume. O da amizade. Este substantivo fecundo que acabaria por percorrer esta fronteira imensa que existe entre o respeito e a solidariedade, viria a permitir hoje, que dividamos momentos de cumplicidade, alegrias e tristezas. O Valério é um amigo, um irmão.Me fez perceber que os momentos perfeitos existem e que afinal a felicidade está nas coisas simples. A vida é, foi e sempre será feita de escolhas. Escolha da cor de uma camisa, escolha da mulher que nos acompanha pela vida, a escolha do caminho a seguir nessa vida e, a escolha de um amigo. Escolhi com a razoavel percepção de que, este amigo cuja presença me trás alegria, que me abre o coração com um sorriso, que cre na amizade e a vive com audaz conquista de liberdade, que não se preocupa em dar ou em receber mas que sente sempre a necessidade de compartilhar, é um amigo para uma vida.. Esta amizade sincera que divide comigo segredos e que silencia. É um amigo bem humorado, intransigente, exigente mas determinado. Queria dar-lhe este abraço em silêncio e dizer-lhe da minha determinação em manter indefinidamente no espaço da minha vida a tua amizade. Obrigado irmão.

domingo, 2 de outubro de 2011

Como sobreviver à hecatombe


Atravessamos uma época cuja atenção da população se centra nos atentados ao patrimônio, à vida humana, nas burlas que constantemente surgem nos mídia e que dizem respeito a gente de colarinho branco, nos assaltos com que diariamente somos confrontados, nas fugas ao fisco e todo o tipo de corrupção que encapotadamente ou sem pudor á luz do dia nos fazem pensar que vivemos numa república das bananas. Acostumamo-nos tanto a este tipo de coisas que não estranhamos as condenações ligeiras que muitos destes crimes são punidos. Os crimes contra as pessoas, sejam elas crianças, mulheres ou idosos passam-nos ao lado. Alguém já se colocou no lugar de uma mulher ou de uma criança vitima de um ato criminoso de violação, e ter a noção exata da violência física e mental porque estas pessoas passam?. Verificamos que estes crimes que afetam normalmente pessoas indefesas e que deveriam por isso estar mais protegidas, são pela justiça levemente punidos e menos agravados que muitos outros. A leia é o que é. E todos nós nos abstemos ou fingimos não entender a brutalidade destes atos ,esquecendo-nos até, do calvário vivido por estas pessoas muitas vezes ou quase sempre, sofrendo em silêncio, não só pela vergonha, mas também pela tortura de não reviverem o seu pesadelo. Há dias um taxista foi assassinado com uma mutilação horripilante. São estes crimes que toleram o nosso dia a dia face ás violações, que só são dolorosas para quem as sofre. Normalmente as bestas que violam passam ao lado das condenações. Considerados inimputáveis tomam uns comprimidos e voltam á vida que estavam habituados mais tarde ou mais cedo. Os políticos que têm a responsabilidade de legislar sobre a matéria normalmente atiram que este problema atravessa fronteiras, e diferenças sociais e culturais. Choca-me esta situação. Sensibilidade burra a minha obviamente. Como sobreviver à hecatombe social, vai ser a luta a desenvolver nestes tempos de brandos costumes.