terça-feira, 2 de abril de 2013

As tuas noites

Cai a noite. Faz-se um silêncio do tamanho do medo á nossa volta. O teu rosto sereno dobra um a um os cansaços da noite. No vicío do luar que nos envolve deixas um incêndio por apagar, e um rio de marés vivas na minha pele. Olhando-te invento sorrisos e volúpias, e sustenho a respiração num ritual de sentidos contidos. Olho-te de novo, e como se deixa-se passar uma chuva de girassois entre os meus dedos, descubro a vertigem de um amor incontido. Começa a chover na noite. É uma quarta-feira de uma noite fria. Uma noite inventada num tempo sem pressas. Olhando o teu corpo sinto uma ânsia incontida que me vem de dentro da alma e que doi. A tua boca entreaberta deixa transparecer o sabor dos beijos por dar, das palavras por dizer. É noite. Continua a chover. Passo as pontas dos dedos pelos teus cabelos , sinto o sopro quente da tua nuca e os murmúrios de todos os meus desejos. O tempo vai-me engolindo para lá do absurdo, deixando as marcas da solidão de uma noite chuvosa e fria. Olho-te. E no silêncio dos meus dedos sinto a humidade dos toques tangentes de fúria e desejo. Na penumbra do quarto afundo-me no teu abraço enquanto mergulho no castanho dos teus olhos. No quarto, volto a ouvir o grito calado da noite, e as bategas da chuva na janela. E neste rio quente de desejo com cheiro a maresia, neste minuto íntimo de espera, neste suor de calma aparente, deixo cair as mãos, primeiro uma depois a outra, na pele sedosa do teu corpo, sentindo o calor vermelho do teu sangue quente, misturando-se com a meia noite da ponta dos meus dedos. Abraço-te. Deixo a madrugada chegar com o cheiro quente da nossa intimidade e os pecados da lua cheia deixados para lá dos campos de girassois.

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