segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A minha avó ...e o pão caseiro


Ainda me lembro do tempo em que a minha avó me levava para a casa do pão situada no quintal da nossa casa no Torrão. Era uma festa. Logo que ela abria o saco para tirar a farinha para o alguidar, onde com mãos ágeis amassava a farinha, o fermento e água, eu pintava a cara de modo a parecer um verdadeiro padeiro. A minha avó Anica sorridente, iniciava este ritual todas as semanas, para que nunca falta-se pão na mesa da familia. Depois de batida a massa , era a vez de serem separados os pães de quaze dois kilos que ficavam num taboleiro a levedar. Enquanto a lenha crepitava no forno, a avó Anica ensinava-me a musica da “ Rita arredonda a saia” e a “ Casa do mestre André” canções tradicionais portuguesas que ainda hoje passam de boca em boca. Depois da massa levedada era a vez de ver a destreza da avó Anica, com uma enorme pá de madeira, enfiar um a um todos os pães dentro do forno. O momento súblime e mais esperado por mim era quando ela introduzia dentro daquela enorme boca de fogo ,a minha merendeira de pão com chouriço para cozer. Tal como a matança do porco, a feitura do pão era uma festa e um momento de confraternização familiar. Lembrei-me destes momentos porque o tempo é outro, o local é bem distante do quintal da avó Anica no Torrão, e o protagonista da mão na massa é outro. A festa é a mesma, as mãos do Valde são diferentes das mãos da avó e o forno não tem aquela bocarra assustadora, mas o ritual aqui em Santarém da feitura do pão mantem o mesmo sortilégio. Nem eu canto nem o Valde canta e até o Toy se mantem calado para escutar-mos os cd’s de forró que um após outro passam no lata-velha trazido de Portugal. Não hà pão de dois kilos e a merendeira com chouriço nem vêla, nas a prova e a disputa pelo pãozinho quente mantêm-se.

De Santarém a Santarém...atravessando o mar das palavras



Santarém ...rio Tejo...Santarém... rio Amazonas...no meio a uni-las o Atlântico. Duas cidades. Cada uma delas é um mundo. Vale a pena mergulhar na sua especificidade e descobrir o que ambas têm de comum e, o que as destingue nas suas múltiplas disciplinaridades. Dois rios que o mar une, duas cidades irmãs a que o tempo ajudou a criar raizes. Das Portas do Sol, no alto do planalto ribatejano avista-se o Rio Tejo, os imensos milharais e os vinhedos que a lezíria com o esforço de tantos tão generosamente produz. Da confluência dos rios Tapajós e Amazonas o beijo na orla da Santarém paraense. Esta vasta planicie amazónica, de multipla riqueza agricola e piscícola. Visitar o centro da Santarém paraense é rever nos seus forjados das janelas, dos azulejos das fachadas e da estéctica da sua arquitectura um pouco da Santarém ribatejana. Rio Amazonas e rio Tejo, duas vias fluviais de extrema importância para as duas cidades tanto na sua fundação como ainda hoje dois importantes polos no seu desenvolvimento. Duas culturas semelhantes que a lingua portuguesa ajuda a unir. Da literatura de uma ás lendas e narrativas de outra. Do puladinho ribatejano ao carimbó paraense o folclore marca o compasso. A Lenda da Pastorinha no Tejo dá as mãos á lenda do boto rosa no Amazonas, e as canções que andam de boca em boca une-as a composição das mesmas palavras. Às praias, cachoeiras, lagos, passeios pelas matas e tradições folclóricas de uma, contrapôe-se as touradas a criação de cavalos e toiros de outra. Ambas com polos universitários importantes na formação da juventude. Ambas as cidades apenas precisam da boa vontade dos seus responsáveis para que o intercâmbio cultural e económico seja uma realidade mais visivel.

Vergonha e Hipocrisia




Ao ler hoje o jornal português Correio da Manhã como faço todos os dias, fui alertado por uma noticía veiculada por aquele jornal e que me levou depois a ler a crónica com o titulo acima da autoria do Dr.Moita Flores dignissimo Presidente da Camara Municipal de Santarém, a Santarém portuguesa claro, e por achar o assunto bem pertinente e demonstrativo da desumanidade a que chegou a sociedade nos dias de hoje, pedindo desde já desculpa ao autor do texto e ao Sr.Director do Correio da Manhã vou transcrever o referido texto para reparti-lo com os meus amigos do blog:
"Uma vez, estava de serviço de piquete na PJ, fomos chamados a um casa nos arredores de Sintra, da qual vinha um cheiro fétido, e um vizinho suspeitava de que alguma coisa de grave teria acontecido, pois a velhota que ali morava não aparecia em público havia quase um mês. Ela tinha gatos em casa, dizia ele, que miavam insistentemente. Fui com o Simas. A rua empestava. Para quem conhece os odores da putrefacção, não havia dúvida. A mulher estava morta dentro de casa. Arrombámos a porta e o cenário era macabro.

Seis ou sete gatos gordos fugiram, e no quarto, caída sobre a cama, vestida, estava o cadáver da senhora. As partes moles do corpo que estavam sem roupa – pernas, mãos, rosto – não existiam. Os gatos esfomeados haviam-se alimentado da dona durante as semanas de cativeiro. A autópsia assinalou como causa da morte um enfarte fulminante. Porém, mesmo não se tratando de crime, quisemos saber como poderia ter acontecido tão impiedosa tragédia. Os filhos estavam de férias no Algarve. Alguém os alertou para o desaparecimento da senhora e chutaram para canto. Se não aparecia, talvez tivesse ido ver a irmã, que vivia algures no Algueirão. E ponto final. Nem se deram ao incómodo de telefonar para essa irmã (tia) para perguntar se a mãe estaria por lá. E assim terminou a história daquela velhota, que apesar de morta ainda serviu de alimento aos únicos animais que lhe faziam companhia. Os outros animais estavam na praia.

Recordei esta história a propósito desta velhota que agora surgiu morta em casa nove anos depois do óbito. Quis a impiedade da vida que fosse uma dívida das finanças e a imposição de pagamento que permitiram descobrir o corpo, seguramente já esqueletizado. O desaparecimento teria sido participado por uma vizinha à PSP ou à GNR. E agora, quando tudo se sabe, levantam-se um chorrilho de vozes contra as polícias que nada fizeram.

Se calhar não fizeram mesmo. Duvido se seria legal arrombar a porta sem autorização de um familiar, caso não se assinalassem odores ou outros sinais de morte. E os familiares? Durante nove anos não houve um filho, um sobrinho, um primo, alguém preocupado por desaparecimento tão longo? Ao que se sabe, apenas uma vizinha terá feito o alerta. Depois disto, a vida continuou, pois a velhice, nesta sociedade modelada pelo consumo e pelo individualismo, é dispensável. Não sei como chegámos a este limite de desumanidade, de indiferença, de egoísmo. Apenas sei que temos de fugir daqui, o mais depressa possível. Antes que seja tarde e sejamos comidos pelos gatos. Ou por nós próprios.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Toy...o leão de casa


Não sou de poucas palavras. Gosto de um bom papo e de encarar o mundo com ironia. De tristezas bem basta o bombardeamento das tropelias que alguns meliantes por aí fazem todos os dias por esse Brasil fora. Gosto de expressar aquilo que me vai na alma para que quem me conhece não tenha necessidade de ler nas palavras mas tão sómente me entenda nas entrelinhas. A Néia diz que este novo companheiro que caiu de paraquedas cá em casa com um corpanzil de leão, sabe disfarçar a dor o medo e a solidão, é meigo, não a manda lavar a roupa, e acima de tudo é o melhor fiel amigo e se ela o diz lá terá as suas razões. Pois este enorme leão sabe o usar o seu charme canino para ir espalhando a sua mijinha por aqui e ali, provocando ondas de tontura no tio Valde, não precisa que eu lhe fale. Eu e ele, nunca precisámos de falar, a nossa linguagem mimica é suficiente para o manter a razoavel distancia e lhe provoc ar arrepios de frio traduzidos pelo seu vozeirão de arrepiar os cabelos do peito. O Toy como carinhosamente foi batizado dorme acachapado em qualquer lugar mesmo que esse lugar seja reservado a guardar camisas, levando ao desespero os seus tutores quando pela manhã toca a sineta para levantar o batalhão e ele não aparece. A minha saida do quarto pela manhã provoca-lhe estranhas movimentações, espia-me pelo canto do olho sem saber muito bem se me ha-de morder o calcanhar ou mijar em cima do xinelo. Determinado, enérgico e cumpridor atento do que lhe diz a “mãe” o Toy é o mais obediente dos cachorros da minha rua. Ordem dada pela Néia é imediatamente cumprida. Chego a pensar que o Toy além de ler nas entrelinhas o que penso da sua estadia em casa, fala com a dona, tal é a prontidão com que assume as ordens dadas. Hoje pela surdina da noite fugindo ao controlo do Gio, fez uma incursão pela cozinha, calculo que como cachorro igiénicamente educado procurava o quintal para limpar a tripa. A mancha branca do focinho ficou preta quando para seu espanto deu com a porta fechada. E zás aliviou mesmo no meio do salão. Horas extras para a Néia que á sucapa e á meia-luz deu consumo ao detergente. Daqui a pouco tou a ver a “mamã” começar a querer ensinar o Toy a sentar, dar a pata, deitar, fingir que tá morto, etc. Eu acho que ele não vai pestar atenção nenhuma a este tipo de coisas e vou pagar para ver. Que pensará o leão cá de casa de mim?. Huumm... vou estar atento.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Aos meus filhos


No silêncio do meu quarto, ouvindo a chuva bater nas vidraças da janela vejo-vos de braços abertos a sorrir-me á medida que o sono me vai vencendo. Sempre quiz ter filhos e, sempre imaginei que ser pai era sentir a doçura que acalma a alma e nos conduz a uma paz inimaginavel. Sempre me senti com uma infinita vontade de vos amar, de vos proteger, de vos ver crescer e de os ajudar um dia a encontrarem o vosso próprio caminho. O vosso próprio mundo. Por isso quando estou aqui sózinho e recolhido nos meus próprios pensamentos, imagino-os como três pássaros voando livres e felizes num mundo que é vosso e que cabe nas vossas próprias mãos. O que vos desejo meus filhos, é que o mundo vos seja tão generoso como vos ensinei a serdes com ele. Que nunca percam a capacidade de vos amar uns aos outros e que tenham sempre tempo para amar aqueles que vos amam e que nunca se esqueçam dos abraços que demos quando ainda cabiam os tres entre os meus braços. Mesmo aqui longe, onde procurei a felicidade perdida, lembro-me muitas vezes de vocês e faço das minhas palavras o veículo que atravessa céus e mares para chegar até aos vossos corações. Quando percorro estes caminhos de encantamento vejo-me muitas vezes a abraçar-vos e a segredar-vos ao ouvido as canções de embalar que vos cantava quando vos aconchegava o lençol ao pescoço nos momentos que antecediam o vosso sono. E quando se faz silêncio, dou-vos as mãos num imaginário abraço para que, aqui na terra dos sonhos, agarrar-mos com ambas as mãos a hora em que o tempo não passa e inscrever-mos no arco íris a palavra amizade. O amor por vocês é incondicional e intemporal, e resistirá sempre á solidão, ao tempo e á chuva, á ausência e á distancia. Beijo-vos para nos beijos que vos dou, guardar os instantes perfeitos que gostaria de guardar a vida inteira, e nestes momentos de sossego só nosso, vamos, vocês e eu, dissolver na espuma dos dias a eventual saudade que possa haver nos nossos corações.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Eu ...e a Lua


Imagino tantas vezes sentar-me na lua a teu lado. Olhar as estrelas e agarrar uma só para ti. Imagino-me lá , sentado bem agarradinho a ti olhando o mundo e sonhando ele ser só nosso. A minha lua morena e nua está cheia de almofadas brilhantes para eu me sentar contigo. Hà muito que tenho um lugar cativo na lua, por isso podemos caminhar, correr, pular e amar-nos ao sabor da brisa que o sol empurra na nossa direcção. Uma lua só nossa onde possamos ganhar a energia suficiente para vivermos o dia a dia sem angústias. Na lua, na nossa lua, os dias correm mais devagar e as noites são quentes proporcionando-nos momentos de mel salpicadas de malmequeres. Na lua , na nossa lua, arranjamos sempre tempo para estarmos juntos, olharmo-nos nos olhos e rirmo-nos do mundo e de nós próprios. Na lua, na nossa lua pego nas tuas mãos e reparo que têm a mesma temperatura das minhas, olho nos teus olhos e vejo que têm a mesma cor dos meus, reparo no teu sorriso e noto nele a mesma doçura de sempre. Lá sempre aproveitamos todos os momentos e, eu aproveito ainda mais para saborear o presente que a vida me deu...tu. Aproveito para saborear a tua amizade, o teu tempo, o teu bem-querer, a tua estima e preocupação, a tua lealdade. Aproveito para saborear melhor o teu amor. Hà como eu adoro estar na lua...contigo

sábado, 29 de janeiro de 2011

É Inverno


É inverno . Chuva, muita chuva. Alguma frescura na terra do calor. É tempo de pegar o guarda- chuva que na força do vento provoca o jogo do vira e do revira. O deslumbramento dos relâmpagos e o ribombar dos trovões provocam aqui no Pará um espectáculo muito especial da natureza. Chove. Gotas grossas, gotas que caiem numa sincopada leveza redentora. Da área do prédio é possivel avistar o rio e as nuvens carregadas a sobreporem-se a este céu azul que timidamente apenas observa. Gosto de estar aqui olhando o rio e o céu. Passam na rua jovens a caminho da escola, e as gotas de chuva vão caindo nos seus ombros encontrando caminho pelas palpebras semi-cerradas dos seus olhos. Continuo a conversar com a Mirdes enquanto a a água da chuva percorre os caminhos desbravados na terra da rua. O vento sopra com força sobre as mangueiras á minha frente. Uma borboleta colorida fugindo da chuva refugia-se no meu braço e as folhas das arvores cantan ao sabor do vento. Lá ao fundo o sol timidamente aparece e o rio pincela de cores coloridas o arco-iris. Aos poucos a tempestade desaparece deixando finalmente o sol beijar a vida. A Mirdes foi ao trabalho e o movimento na rua tende a normalizar. Em casa deixei de sentir e ouvir o teclado das pingas no telhado e os urubus fazem de novo voos razantes. Fez-se silêncio, a Néia voltou a sorrir.