Chove em Santarém. A vida renova-se na
floresta. E uma chuva presente é sempre mais gostosa de dormir, de ama e de
ouvir. O aconchego da chuva é igual ao do amor que encanta a deusa despida pelo
vento que deixa palavras. Palavras num tempo que se vive e se sente mas não se explica,
que transformam sempre os dramas em luz, a tristeza em celebração e a ansiedade
em tempo de renovação de espíritos. E é pelas palavras que volto a falar de ti.
No rescaldo das insônias desta noite doem-me os olhos as pálpebras insistem em
fechar-se e a cabeça quer tombar no travesseiro. Acabo por fechar os olhos e
entrego-me ao Criador. E sonho. Sonho como serás
tu toda, de pele e braços, o teu peito e os teus lábios. Os teus cabelos soltos
como borboletas e o som do rio a fazer de chão ao meu desejo. Ai como quero
chegar a ti e tocar-te. É de areia o sal dos meus olhos, a insistir na sede que
me devora . Imagino levar os meus dedos aos teus lábios enternecidos e adivinho
quantas são as pétalas no jardim do teu copo que desejo. É então que perdes o
pudor e vens aquecer-te no meu corpo. Ficas sorrindo a brincar-me com o olhar,
sabendo-me nos olhos o que podia dizerem os meus lábios. Soltas-te de forma a
escorrer em gotas de mel sobre o meu ao
mesmo tempo que os teus olhos,
serenos, deixam a tua boca deixar-me um beijo numa lentidão de prazer
sussurrado no entrelaçar ternurento
dos dedos , na volúpia desenfreada dos nossos corpos, alterando a maré da minha
saliva e a ansiedade dos meus dedos. É noite na ilha do amor. As estrelas
brilham lá no alto e, nos teus olhos
continua a ser sempre céu. Os teus lábios aproximam-se dos meus,
inflamando a maciez da pele no caminho da minha saliva. Tremem os meus joelhos,
sinto o abraço das tuas pernas, e eu mergulho em ti, muito devagarinho, a
colher o suco gostoso e açucarado da tua língua. Á como eu adoro o perfume dos
teus cabelos, a maciez dos teus ombros, o rubor do teu rosto, a ternura do teu
corpo depois de fazer amor. No breve intervalo entre um mergulho no rio e o
fresco hálito de uma madrugada, amamo-nos de novo. Sacio lentamente a sede
impaciente dos teus lábios. Então, quedo-me embriagado, e exausto nas areias
brancas e finas da praia, procuro o teu abraço, á espera do teu beijo. Afago o
teu rosto, beijo os teus olhos, e passo as mãos pela tua pele. Há como eu não
queria mais acordar.
sexta-feira, 6 de março de 2015
quarta-feira, 4 de março de 2015
As palavras do meu teclado
Olho através das frechas da janela o céu. Tá negro. Está a
chover. Quase consigo cheirar daqui do meu quarto a terra molhada e ouvir os
pingos da chuva baterem violentamente no telhado. São nove e meia da manhã já
tomei o café da manhã e, como habitualmente, vou ler as capas dos jornais portugueses.
Recosto-me confortavelmente e começo a acionar
as teclas do meu notebook.
Apetece-me hoje escrever. Há dias assim. É para mim de há muito uma
sensação prazerosa. Clicar nas teclas e ver as palavras correrem ao longo do
monitor enche-me de frisson e preenche-me a alma. Alivia-me ficar no quarto
vazio, apenas eu e o meu computador a quem eu muitas vezes irritado por as
palavras não saírem corretas recrimino. Respiro fundo e os meus dedos fazem
tocar as teclas e encher de letras o branco de uma página. Hoje o meu estado de
espirito não é dos melhores tanto mais que o enjoo de ontem ainda não me
passou. Algo que comi me fez mal, provocando-me um nó no estomago que hoje
ainda persiste. Quero escrever mas o pensamento leva-me para outras paragens,
para outros tempos. Respiro profundamente, tiro as mãos do teclado, e fixo o
olhar num ponto negro algures no teto do quarto. E por ter feito ontem
aniversário recordo outro de há muito anos atrás. Também chovia. Nesse dia o
meu coração batia excessivamente depressa quando ela me estendeu a mão. Nem
queria acreditar que estava ali. Ela a minha professora de francês sorria-me
com aqueles cabelos de um loiro profundo. Pegou na minha mão e, estremeci. O
meu mundo ia caindo aos bocados nesse momento. Porque me lembraria hoje dos meus sonhos
aquecidos por loucuras que acalentavam na época o meu coração?. Nessa tarde
deixei de ser menino. Foi o meu presente de aniversário. A partir daí podia
seduzir o mundo.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Pelas areias de Carapanari
Vai sendo tempo de regresso, regresso ao mundo da água que
sempre acalma o stress de uma semana do movimento citadino, regresso ao tempo
dos pássaros que á nossa volta cantam hinos de alegria a cada novo dia,
regresso ás manhãs em que respiramos o ar puro do rio, que enlevado pelo nascer
do sol, nos acaricia a face e nos dá os
bons dias, regresso ao passeio na areia da praia e aos beijos que a água serena
e morna nos dá nos pés. É aqui na solidão das palavras, acompanhado pela
luminosidade de um dia de sol, que reflete na água raios de prata, que procuro
tentar reunir, com a alma em chamas, pedaços de uma vida. Aqui, este paraíso de
perfumes raros é sublime para isso. A luz do sol, o calor da noite, o chilrear
dos pássaros, o verde da floresta faz de nós, na imensidão cálida deste local
lindo, um Adamastor. Bem podem vir
tempestades e tufões, bem pode o vento soprar para espalhar as palavras, porque
contra ventos e marés, a força de um desejo de paz que se conquista neste local
é incomensurável. Cada palavra, cada ponto, cada sinal, diz-me na solidão calma
da maresia, que as saudades são momentâneas, que as dúvidas serão cada vez mais certezas e que a
confiança no futuro será inalterada. É altura de deixar para trás gestos
inventados nos sonhos que pintei nas noites de paixão e silêncio. É tempo de
rejubilar pela nova oportunidade que Deus e os homens me reservaram. Vou
vivê-la com paixão e com fé no futuro. Hoje a lua vai de certeza iluminar e embalar
o meu sonho, trazendo-o á praia dos meus sentidos, hoje ela vai estar calma e
sorridente fazendo bailar nas ondas do meu rio de emoções os botos rosas á luz
das estrelas. Hoje o tempo não parará num tempo que quero recordar. Hoje fico
quieto deixando o tempo passar por mim, esperarei a hora em que ele seja de
novo o meu tempo, o tempo de poder sorrir de novo. Em Carapanari volto a olhar
o rio e a floresta e, subitamente, parece rever o barco da nova esperança que
havia ficado encalhado algures num tempo sem tempo. Entro no rio, e uma deusa
despida pelo silêncio do rio vem suavemente me beijar os pés.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Espero um dia poder encontrar-te
Dizem que o coração consegue guardar as tristezas indefinidamente. Não creio. Hoje elas transbordaram do meu peito com violência. Se o peito é aquele sitio onde a alma repousa, se o peito é aquele lugar que sangra de saudade, então ele hoje bate de tristeza. Faz anos que te perdi minha mãe, numa tarde cinzenta. Nas asas de uma borboleta voas-te para lá do paraíso. Nesse dia perdi a noção do tempo. Fixei o olhar no céu á procura do rasto luminoso que de certo marcou a tua viagem. Em vão. Deu-me vontade de chorar, mas os olhos ficaram vazios. Tirei os olhos do céu num derradeiro esforço de vislumbrar o caminho ou o novo lugar para te encontrar. A morte é estúpida é má, porque só leva quem faz falta, e que falta me ficas-te a fazer minha mãe. Quando me recolho nos meus pensamentos relembro-te muitas vezes. Vejo-te á janela a olhar a lua e, continuo a sentir os teus lábios a cantar-me canções de embalar naqueles noites difíceis de insônia. Ai minha mãe como eu adorava as tuas canções. Sinto muitas vezes que andas por aqui a abraçar-me quando me deito ou a aconchegar-me a roupa da cama quando está frio e levares a mão á boca num beijo de despedida quando a luz se apaga. Mãezinha sinto tantas saudades. Sinto saudades do sorriso, do teu olhar. Tu eras a minha estrela do mar que orientava o meu caminho, tu eras o meu sol que me trazia a aurora em cada dia. Já passaram uns anos depois do nosso último encontro, mas à momentos que nos ficam para sempre, que guardamos no segredo e em silêncio. São só nossos, meus e teus. Hoje continuo a acreditar que a tua força, a tua intuição, a tua crença me ensinaram a trilhar os caminhos que fizeram de mim o que hoje sou. Hoje vejo-te sempre a sorrir caminhando numa nuvem branca num céu azul. Mesmo que a vida me leve por muitos caminhos, espero um dia me voltar a cruzar contigo, porque te continuo a amar minha mãe.
A noite inteira já não chega
De ti só quero o cheiro dos lilases
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes e a tua voz de sombras e matizes
De ti só quero o riso que não ouço quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço vampiro que já sou da tua luz
De ti só quero as rosas amarelas que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas da casa abandonada dos meus dias
De ti só quero o eco do teu nome e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome mendigo que já sou da tua pele.
ROSA LOBATO FARIA,
De ti só quero os gestos que não fazes e a tua voz de sombras e matizes
De ti só quero o riso que não ouço quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço vampiro que já sou da tua luz
De ti só quero as rosas amarelas que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas da casa abandonada dos meus dias
De ti só quero o eco do teu nome e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome mendigo que já sou da tua pele.
ROSA LOBATO FARIA,
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Carta ao Papai Noel
Querido Papai Noel.
Batem as horas na noite. Santarém adormeceu. Hora ideal para te escrever mais uma vez. O coração guarda Papai Noel, o que nos escapa das mãos, e o natal é sempre tempo de falarmos um com o outro acerca daquilo que o coração guarda. Como queria nesta hora encontrar aquele conjunto mágico de palavras para te falar do muito que me aflige nestes dias que correm. Falar-te sem reservas. Tu sabes que um coração como o meu, tímido e rebelde, carinhoso e aventureiro, mas ao mesmo tempo rebelde e selvagem, viveu de paixões, teve desenganos e encantamentos, e tantas vezes planou como uma borboleta por cima de um campo de girassóis. Foi muitas vezes um coração simples, carente de afetos que fez dos poemas a seiva com que se alimentava. Foi tantas vezes resistente e outras frágil como o papel. O ano está quase a terminar Papai Noel. É altura para te confessar que fiz algumas borradas em decisões que tomei, que tive das enfrentar e seguir em frente. Não havia alternativa meu amigo. Contudo sinto-me em paz, mais calmo, mas ainda a necessitar da tranquilidade necessária para percorrer o meu caminho. É altura de colocar o sapatinho á chaminé e fazer os pedidos de presentes. Papai Noel me dá de presente a tranquilidade e a força necessárias para o que ainda falta percorrer. Depois um pedido mais simples. Pedir-te para todos os meus amigos, para todos os que amo, para todos aqueles que eu involuntariamente fiz sofrer e, ainda para todos os que ao longo do ano fizeram parte da minha vida, que de alguma forma a preencheram, que o ano de 2015 seja um ano de saúde plena e de alegria constante. Queria fazer mais um pedido. Espalha milhões de rosas, mistura-as com a maresia do meu rio para que o aroma delicioso se espalhe pelas ruas de Santarém, ganhando em cada um de nós a forma de um sorriso. Há ia esquecendo deixa no meu sapatinho uma caixa de Mon Chery tá.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
É Natal
Tive saudades de escrever. E hoje na solidão das palavras e, na estranha claridade que advém da luminosidade da época, resolvi conversar tentando com estas palavras reunir pedaços de uma vida e com elas alimentar o ato de amor em que se transformou a nossa vivência em comum ao longo destes oito anos. Tal como hoje, lembro-me que o natal estava perto. Recordo-me da noite da chegada. Do teu rosto ruborizado e do treme treme das minhas mãos. Relembro o enlaçar dos nossos olhos na fita colorida do sorriso e das nossas mãos unidas. Éramos como dois adolescentes que no vendaval das nossas paixões, num rubor de ternura e com a alma em chamas procuravam no comprimir dos seus corpos não apenas o desejo do nosso enlace mas sobretudo a urgência do despertar de um sonho. Foram momentos de magia E nesse instante mágico, soubemos que no pousar dos teus lábios nos meus a clara madrugada dos nossos sonhos nascera logo ali. Tive saudades de escrever...de conversar...no fundo tive saudades de sussurrar ao coração outros momentos. O Natal é sublime para isso e, a luz do sol, o calor da noite, o chilrear dos pássaros ou a brisa que vem do rio despertaram na minha alma o desejo enorme de te abraçar. Nada mudará. Ontem como hoje as minhas mãos continuam a tremer, porque na imensidão linda deste local de magia jamais esquecerei as juras de amor, a troca de beijos o sentir dos teus carinhos, numa Belém em flor. É Natal, tempo de amor e reafirmação.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Recordando nas areias do Maguari
Um dia encontrámo-nos por aí, Por aí não. Em sítio certo. No seguimento do acumular de horas incontáveis no pc, Apertados daquela angústia grossa de nos conhecermos. Interrogando-nos, cada um de nós, no infinito do pensamento e, na vaga sensação de acordarmos na paisagem vertiginosa e luminosa de uma praia. Desarmando os olhos, e temendo desvendar o rebentar das ondas do rio. A internet juntou-nos, lembras-te?, Como se tivéssemos sentados na pedra do banco de um jardim qualquer, adormecidos no silêncio que havia por entre os sons de um teclado. Tu na altura perguntaste: ...o rio vai nos unir?... eu respondi que só o futuro iria responder a essa pergunta. Tinhas na altura o rio nos teus olhos...e nos cabelos os trigais de um Alentejo em flor. Depois, mais tarde, quando o olhar se perdia, inquieto, sobre o oceano, tornaste tua a minha voz e juramos amor eterno. Na altura o rio tornou-se transparente e as ondas flores de água. A tua mão na minha, feita pássaro bravio pela surpresa, alvoroçava-me o sangue e o coração batia mais forte. Pedi-te então para abrires para mim os caminhos do teu regaço para eu poder ao som das músicas e dos aromas sentir-te por dentro. Dei então conta, que a vida é feita de pequenos nadas registados um a um. Cada gesto, cada sorriso, cada beijo me pareceu então os vagidos de uma criança a nascer, uma onda a rebentar na areia ou montes de pássaros rasgando os caminhos como o sangue nas veias. Foi um delírio. E ris-te, os dois rimo-nos, debaixo do cheiro do alecrim de um campo coberto de flores. Demos as mãos e acreditas-te, e eu acreditei, que me conduzirias por caminhos algures por aí. Um caminho e um violão. Este amor feito canção. E eu de boca aberta nem acreditava. Olhando o sol sobre este rio que nos separa, no cimo do trapiche, perguntava-me por onde tinhas andado tanto tempo sem te encontrar. Como foi possível tanto tempo perdido. Por onde andas-te tu flor de jasmim de um jardim que eu teimo em preservar?. Deixa pousar novamente os olhos sobre os teus, deixa provar o doce sabor dos teus beijos, deixa encontrar o calor do teu corpo. Deixa voltar a ser feliz de novo.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Há Dias Assim
Há dias assim. Dias em que percebemos que somos importantes para uma pessoa e até aqui não demos valor a isso. O que enxergamos com os olhos acaba por não ser igual ao interiorizamos com a alma. É a diferença entre os olhos e o coração. Efetivamente muitas vezes não damos valor a quem segura a nossa mão sem intenção de solta-la, a quem evita as nossas lágrimas em vez de enxuga-las, ou quem cuida de nós e nos protege. Ainda é tempo, por estas razões, de regressar aos dias em que os pássaros á nossa volta cantavam hinos á alegria ou, de mãos dadas, respirávamos o ar puro do nosso rio, quando o sol nos acariciava logo pela manhã dando-nos os bons dias. Não queria neste dia diferente voltar á solidão das palavras e apenas reunir pedaços da minha vida resgata-los ás noites brancas da minha vivência, para com eles num passe de magia despertar de um sonho. Cada gesto, cada atitude, cada pequenino carinho, muitas vezes é uma celebração á renovação do amor. Hoje o dia é e vai ser diferente. Hoje o meu mundo vai para de girar por um instante. Hoje não quero o hoje. Vou querer só o amanhã para que o meu coração encontre a melodia que afaste a cada segundo o desespero da minha saudade. Hoje o rio não vai trazer o grito das gaivotas, não vai trazer o cheiro da maresia que desperta paixões e muito menos vai fazer as ondas bailar ao luar com os botos prateados á luz das estrelas. Hoje o rio não é meu amigo.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Por Uma Vida
Sorris-te! Sentados na mesa do restaurante onde almoçávamos, reparei que os teus olhos brilhavam. Buscavam para lá do horizonte qualquer coisa, apenas os trejeitos dos teus lábios davam a entender um pouco do mistério. Demos as mãos e voltas-te a sorrir…E eu, olhava-te, de boca aberta surpreendido, nem acreditava que estava ali contigo. Da janela do restaurante vimos o navio subir o rio e sentimos as ondas nos beijar ao pés, sonhava. Por onde andaste tu, nos outros dias nos outros anos, antes deste momento maravilhoso, nas semanas, nos meses e nos anos em que nem existias para mim?... pousei os meus olhos sobre os teus, sobre o teu corpo, os olhos doces, a blusa colorida. Dos socalcos chegava-nos o odor de um Douro florido carregado de frutos, e eu, não esperava mais do que esta ternura que ia crescendo entre nós, distanciada que bastasse para manter mão na mão, braço no braço. Eu sei que vou te amar por toda a minha vida eu vou te amar em cada despedida...dizia o cantor e eu repito... eu vou te amar. Depois subimos a íngreme subida até á aldeia, a noite começava a cair. O teu corpo encostou no meu, cingindo-se no meu braço. Apertei-te com carinho. Eu sei que por toda a minha vida vou recordar aquele fim de semana no Douro. Dos beijos que trocámos, das promessas que fizemos, do calor dos nossos corpos a tocarem-se, da imensidão de uma madrugada que nunca mais acabava, contigo tão perto. Não foram necessárias palavras para cada um de nós entender que precisávamos um do outro. Por uma vida.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Ao Luar no Calçadão da Orla
Percorrer o calçadão da orla numa noite de luar é suficiente para contar numa roda de amigos a evolução da cidade. Ir á orla numa noite de luar, é sentir de imediato o desejo de procurar nos segredos do rio os segredos de cada um de nós. A alma da orla só é inteiramente sensível a horas tardias, quando os nossos passos, impelidos pela brisa que vem do rio, parecem suspiros da princesa da noite. A orla é o esplendor da cidade. Como um suspiro, o barulho das ondas confunde-se com o bater de muitos corações que em delírio, guardam no seu interior, mágoas de outras primaveras. " O meu coração está de luto " dizia-me hoje uma amiga. O amor não morre, digo eu. Basta conhecer a orla e o movimento da sua fauna mais atrevida para verificar que o amor vive-se intensamente em cada minuto da vida de cada um de nós. Aqui não há contatos passageiros. As conversas variam, o amor varia, mas não morre. Nos beijos que se trocam, nas juras que se fazem, nas simpatias que se fundem em desejos ardentes, o amor é a alma das noites de luar na orla. Principalmente quem como eu está atento aos movimentos dos transeuntes, apercebe-se da vitalidade e do encantamento que a orla provoca aquém a quer como sua. Não se pode estar de luto por amor. Quando muito de quarentena. Aí como é bom ir á orla em noites de luar. Quando podemos usar esse prazer, a orla de Santarém é a nossa própria existência. Nela se fazem negócios, se fala mal do vizinho, nela se mudam ideias e convicções, nela surgem as dores e os desgostos, nela se sente o amor e a emoção. Quantas vezes se encontra o amor na orla sem nós próprios sabermos. A orla de Santarém em noites de luar, chega a ser obsessão em cada um de nós, condensa as nossas ambições. Vá á orla em noites de luar e, viva o amor.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Viajar na BR163....Uma Aventura
Um dia destes fui de ônibus ao Mato Grosso pela BR163. Nada de especial não fossem os 1.200km do percurso e os fantasmas que apareceram durante a viagem. Fantasmas sim não estou a brincar. Um amigo meses atrás havia-me confidenciado de que os ônibus eram excelentes a BR já estava um primor e a paisagem era deslumbrante. Quem com esta fotografia não se enchia de coragem e metia pés á viagem até Colider? Ninguém né. Até eu, medroso por natureza , resolvi fazer as malas. Mato Grosso aí vou eu. Quando o taxi parou na rodoviária de Santarém a uns bons cinqüenta metros da entrada, para cá do enorme buraco que separava a entrada dos meus tênis de uma brancura indelével na véspera bem lavadinhos, desconfiei logo ali das palavras do meu amigo. Mas que diabo era o inicio da viagem tudo seria diferente para lá do sol posto pensei eu. Quando me abeirei do ônibus para entrar foi como se o próprio tempo abrandasse e muda-sede cor. Um diligente funcionário queria me obrigar a colocar o notbook no porta malas do ônibus. Conclusão resumida do drama judicial, acabei com o dito cujo aos meus pés dentro do ônibus. O ônibus lá arrancou direitinho á estrada que. já virou lenda em Santarém e é um perfeito cenário para filmes de suspense. Como cenário de filme do far-west parece ser a nossa primeira paragem. Rurópolis. A localidade surgiu depois do nada, como se tivesse sido ali colocada para posto de descanso á beira da estrada e, ainda hoje me parece não ser mais que isso. Ainda assim depois de suportar muitos kilómetros de estrada esburacada e lamacenta, onde o único sinal visível da civilização são os inúmeros caminhões que se cruzam por nós. Sabe bem beber um café e desentorpecer as pernas.
terça-feira, 8 de julho de 2014
A Ginástica da Linguagem
Estou aqui em Santarém há 6 anos. Com o tempo tenho-me habituado á pronuncia paraense e, quando pergunto alguma coisa vou, mentalmente ensaiando a resposta na cabeça. Quando falam comigo escolho as palavras falo pausadamente e explico as minhas opções de discurso. Invariavelmente ficam me olhando e quando termino já está bem claro para mim, pelo sorriso estampado no rosto do meu interlocutor que as minhas palavras já perderam validade. Sugiro novo texto, debito novas palavras, mas nada feito. O desinteresse repetido pelo meu esforço de me compreenderem leva-me muitas vezes a recorrer a intermediário. Acredito que me vou fazer compreender nem que para isso tenha de lhes fazer um desenho. Que diabos não sou francês como a menina do salão ao lado da minha casa um dia me perguntou. Os meus amigos riem-se mas eu não acho piada nenhuma. Á força de tanto me ouvirem garanto que vão um dia perceber-me nem que para tanto tenha de meter explicador nas horas vagas. É engraçado ás vezes dou comigo a falar perante uma platéia de amigos que me olham como se eu estivesse a dar noticias de um mundo imaginário. Dou um sorriso e de repente, como por milagre as minhas palavras voltam a ter significado. Por breves momentos somos irmãos nos olhares. Um dia eu vou conseguir.
domingo, 6 de julho de 2014
O Beija-Flor e o meu Castelo
Hoje de manhã estive no mirante olhando o rio. Apercebi-me do vôo rasante de um beija-flor, lindo, gracioso que teimosamente queria pousar na minha mão. Cantava num sussurro ao meu ouvido, como se cuida-se de transmitir-me algo. Estendi a mão ao céu e pedi-lhe para deixar o seu corpo descansar entre os meus dedos. Chorava. As lágrimas do beija-flor inundaram-me a mão, enquanto o sol fazia brilhar a delicadeza das suas penas. Eram lágrimas de saudade me disse ele. Saudades de uma região, saudades de um castelo, do sons, dos cheiros e do colorido do Alentejo. Disse-me que trazia de lá entre as suas penas, o calor que a distância não permitia transmitir-me. Olhei o beija-flor sorri para ele e agradeci. Deixou-me uma pena na palma da mão que vou guardar religiosamente. Qualquer dia vou lançá-la, ao vento, das muralhas do castelo de uma cidade no coração do Alentejo.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Das Escadinhas ao Mirante
De mãos dadas, olhando o rio, pensávamos nos anos já passados em que ambos, trilhando um mesmo caminho de sonhos, de alegrias, de dor, mas de muita esperança, à muita havíamos definido que o futuro era nosso. Olhei os olhos amendoados daquele rosto sereno e beijei-lhe os lábios. Apaixonados, subimos as escadinhas que nos levam ao mirante, que do alto de uma das colinas, deixa contemplar uma vista deslumbrante sobre a cidade e o rio. O local seduz e encanta todos aqueles, que como nós, procuram na natureza o refugio da agitação de todos os dias. O perfume das flores empurrado pela brisa que corre, deixa no ar o pronuncio de uma tarde serena, de pleno encantamento. A luz no mirante é infinitamente doce e poética. Abeiramo-nos de mãos dadas da grade do mirante. Ela, levantou o rosto, sorrio, e em silêncio olhou o horizonte. A brisa naquele momento acariciava os ramos mais frágeis das árvores fazendo-as tremer ao sol, sacudindo o seu apego à terra. Uma brisa que leva as vozes pelos ares, que levanta os cabelos e os faz ondular, um sopro que nos inspira e nos faz amar. Num súbito momento, as minhas mãos procuraram descobrir o seu corpo. Movimento que a fez estremecer e soltar uma pequena gargalhada espontânea, rouca, acompanhada de um sorriso apaixonado. As nossas bocas encontraram-se vorazes num beijo prolongado, deixando um rasto de fogo nos nossos corpos. O mirante torna-se assim num espaço de segredos, suspiros, inspirações e desejos. É um local que dá vontade de fechar os olhos e ouvir a música dos sentidos e onde os cheiros são afrodisíacos lançados pelo rio e pela floresta. Há qualquer coisa de profundamente misterioso e fascinante no rio visto daqui de cima. O mirante, um dos incontornáveis pontos de encontro da juventude santarena que vem aqui, no silêncio dos fins de tarde, ver a lua descer do céu num movimento lento e demorado e, sentir o calor dos beijos quando as luzes se começam a confundir com as estrelas. Voltei tranquilamente a pegar-lhe nas mãos. Naquele fim de tarde uma poeira fina e dourada inundava o mirante. Ela sorrio. Estava linda. Um arrepio de vento anunciava a noite. Beijamo-nos num beijo prolongado, que nos encheu de certezas sobre a vida e o amor.
sexta-feira, 23 de maio de 2014
A Princesa do Rio
O presente escorria-me pelas mãos como a água do rio que tentava carregar da beira até a areia seca na praia. Parei subitamente entre as ondas e deixei o presente relembrando o passado. Momento intenso do qual fiz questão de guardar as lágrimas. Recordar-te era afinal tudo ou quase nada. Devia ser amor acumulado e, de repente não mais que de repente , senti a tua mão na minha, o sopro dos teus lábios nos meus, e tomei o gosto salgado das tuas lágrimas. O rio serenou, o tempo paralisou e foi preciso isso para entender como a minha vida estava fora do lugar, estava fora do tempo. A minha vida não estava agitada estava parada e eu tinha tanto para te dizer e tanto tempo para te ouvir. O vento soprou de novo e as folhas voaram, as algas enroscaram-se nos pés e o fantasma da tua imagem no meio das ondas sorria para mim. Senti um frio que me arrepiou a nuca e as tuas palavras dolorosas entraram dentro de mim rasgando-me como um vendaval intocável. Era uma noite solitária, única. O vento cantava por cima dos mangueirais. Cada minuto que passava martelava o meu pensamento, era a lembrança da tua imagem a martelar-me na solidão. Senti os pingos que caiam na folhagem, não está chovendo, eram as lágrimas da saudade que me percorriam a face tombando de encontro ás ondas que beijavam sem cessar a areia da praia. Eram lágrimas de medo por te perder?...eram lágrimas de desespero por te sentir longe?...ou lágrimas de solidão por estar só?. Parece que falta um pedaço de mim. Quero ser feliz e voltar a sonhar. Quero voltar a mergulhar as mãos no rio e de novo encontrar a princesa das águas.
sábado, 17 de maio de 2014
Lendas da Amazonia
Lenda da Lua
Lenda da origem da lua
Manduka namorava sua irmã. Todas as noites ia deitar com ela, mas não mostrava o rosto e nem falava, para não ser identificado. A irmã, tentando descobrir quem era, passou tinta de jenipapo no rosto de Manduka.
Manduka lavou o rosto, porém a marca da tinta não saiu. Então ela descobriu quem era. Ficou com vergonha, muito brava e chorou bastante. Manduka também ficou com vergonha pois todos passaram a saber o que ele havia feito.
Então, Manduka subiu numa árvore que ia até o céu. Depois, ele desceu e foi dizer aos Jurunas que ia voltar para a árvore e que não desceria nunca mais. Levou uma cotia pra não se sentir muito só. Aí virou lua.
É por isso que a lua tem manchas escuras, por causa do jenipapo que a irmã passou em Manduka. No meio da lua, costuma aparecer uma cotia comendo coco. É a outra mancha que a lua tem.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Tudo ou Quase Nada
O presente escorre-me pelas mãos como a água deste rio que tanto amo. Como sempre é á noite que escrevo. E esta noite deixei o presente relembrando o passado. Relembrei os nossos encontros fugazes, relembrei o teu sorriso amargo escondendo algo que mais tarde descobri. Foram para mim momentos intensos dos quais fiz questão de guardar no meu peito. Recordar-te era afinal tudo ou quase nada. Deve ser amor pensava eu. E o meu pensamente foi desviado para uma foto recente onde o sorriso é mais doce. Num repente não mais do que num repente , senti a tua mão na minha, o sopro dos teus lábios nos meus e os teus cabelos roçarem a minha face. O rio serenou. O tempo paralisou e foi preciso isso para entender como a minha vida estava fora do lugar. Ontem estive sentado no trapiche olhando o rio. O vento soprou de novo e as folhas da orla voaram, as algas enroscavam-se nas tábuas e a tua imagem no meio das ondas sorria para mim. Senti um frio que me arrepiou a nuca. O teu sorriso mais uma vez entrou em mim rasgando-me como um vendaval intocável. Foi uma tarde solitária, única. Cada minuto que passava martelava o meu pensamento, era a lembrança da tua imagem a martelar-me na solidão. Senti na face os pingos da chuva que voltou a cair, enquanto as ondas do rio batiam com sofreguidão no madeiramento do trapiche. Os pingos de chuva escorrendo-me pela face substituíam as lágrimas da saudade. Eram lágrimas de medo de te perder. Eram lágrimas de desespero por te sentir longe?...Ou lágrimas de solidão por estar só. Parece que falta um pedaço de mim. Quero ser feliz e voltar a sonhar. Quero voltar a mergulhar as mãos no rio e de novo encontrar a princesa do rio. Tu
terça-feira, 13 de maio de 2014
Batem as Horas na Noite
É noite. Ouço as horas baterem no relógio da igreja. Na cama, o meu corpo está coberto de silêncios e das minhas mãos brotam palavras. Escrevo um sonho. Um nome de mulher, o teu. No meu sonho imagino o futuro ao longo do teu corpo passando os dedos na tua pele e os lábios no teu peito. Esta noite, fui aos poucos descobrindo que nós nos encontramos nos sonhos. Nos meus pelo menos. Senti vibrações positivas que a sexualidade revela ao longo destes encontros notívagos, só é triste que apenas fiquem por aí. Estranho. Não consigo pensar no presente.Tudo parece esperar por uma nova primavera, por um novo tempo. Já faz tempo que me perdi do passado. Hoje, quero continuar a caminhar ao encontro do futuro, antes que se faça tarde. Tu és uma paixão que me rouba sorrisos, a todo o momento estás a meu lado, mas não sinto o teu cheiro. Não tenho as minhas mãos nas tuas e os meus lábios nos teus. Quero acreditar que o segredo está nas palavras mas...as tuas têm sido tão poucas. Aqui, no silêncio do meu quarto, enquanto o vento embala as horas abro a boca em direção ao sonho e beijo-te, agarrando-me a ti para não perder o toque da tua pele. Tudo sem respirar. Acredita, se me deres a tua mão neste silêncio que me perturba, dar-te-ei uma ilha de sonhos para compreenderes este mistério que é o meu coração. Amor, consente que o meu coração escute o teu. Quero ficar contigo nesta eternidade feita de sonhos e presentear-te com as palavras que dançam no silêncio do meu quarto. Já é tarde. Vou dar um mergulho na noite e procurar de novo o teu nome no meu sonho.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Noite de Inverno...noite de inferno
É inverno . Chuva, muita chuva. Alguma frescura na terra do calor. É tempo de pegar o guarda- chuva que na força do vento provoca o jogo do vira e do revira. O deslumbramento dos relâmpagos e o ribombar dos trovões provocam aqui no Pará um espectáculo muito especial da natureza. Chove. Gotas grossas, gotas que caiem numa sincopada leveza redentora. Da área do prédio é possivel avistar o rio e as nuvens carregadas a sobreporem-se a este céu azul que timidamente apenas observa. Gosto de estar aqui olhando o rio e o céu. Passam na rua jovens a caminho da escola, e as gotas de chuva vão caindo nos seus ombros encontrando caminho pelas palpebras semi-cerradas dos seus olhos. Continuo a conversar com a Mirdes enquanto a a água da chuva percorre os caminhos desbravados na terra da rua. O vento sopra com força sobre as mangueiras á minha frente. Uma borboleta colorida fugindo da chuva refugia-se no meu braço e as folhas das arvores cantan ao sabor do vento. Lá ao fundo o sol timidamente aparece e o rio pincela de cores coloridas o arco-iris. Aos poucos a tempestade desaparece deixando finalmente o sol beijar a vida. A Mirdes foi ao trabalho e o movimento na rua tende a normalizar. Em casa deixei de sentir e ouvir o teclado das pingas no telhado e os urubus fazem de novo voos razantes. Fez-se silêncio, a Néia voltou a sorrir.
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