Lá ao fundo, visto da orla, onde o céu beija o rio, o sol transforma o horizonte num manto colorido de vermelho, castanho e laranja. É a noite que se aproxima. Gaivotas esvoaçam por cima do trapiche e lançam-se no espelho azul do rio. Vagueio um pouco no chão áspero do calçadão ouvindo o chilrear dos pássaros de mil cores e, fixando-me no leito do rio, reparo nas cores desmaiadas já do principio da noite. Um uivo triste de um cão faz-se ouvir para os lados do mirante. Sob a luz trêmula de um candeeiro a última borboleta saltando de flor em flor refugia debaixo de uma folha. Enquanto as sombras se levantam para cá do casario namorados beijam-se e amigos reencontram-se. Escuto o sussurro do rio e encanto-me com o traço luminoso da lua que deixa mil pirilampos na sua superfície. No frio prateado da noite ouve-se o som de uma viola e ao passar por uma morena, ela deixa no ar um perfume fresco, evasivo e doce e, as suas formas arredondadas estão pintadas com as cores da Primavera. Uma lágrima de orvalho que desliza de um fio de luz desenhado na sombra de uma mangueira frondosa cai-me no rosto. Sem pressa, tranqüilo, devagar vou percorrendo a noite e sorrindo ao luar. O ruído urbano dos motores deixa-se de ouvir mergulhando a noite num doce silêncio. A noite vai-se aninhando junto ás minhas raízes enquanto sinto o perfume da terra húmida. Santarém já adormeceu, e eu, mergulho enfim nesse oceano mágico da noite e dos sonhos.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
A cidade adormecida
Lá ao fundo, visto da orla, onde o céu beija o rio, o sol transforma o horizonte num manto colorido de vermelho, castanho e laranja. É a noite que se aproxima. Gaivotas esvoaçam por cima do trapiche e lançam-se no espelho azul do rio. Vagueio um pouco no chão áspero do calçadão ouvindo o chilrear dos pássaros de mil cores e, fixando-me no leito do rio, reparo nas cores desmaiadas já do principio da noite. Um uivo triste de um cão faz-se ouvir para os lados do mirante. Sob a luz trêmula de um candeeiro a última borboleta saltando de flor em flor refugia debaixo de uma folha. Enquanto as sombras se levantam para cá do casario namorados beijam-se e amigos reencontram-se. Escuto o sussurro do rio e encanto-me com o traço luminoso da lua que deixa mil pirilampos na sua superfície. No frio prateado da noite ouve-se o som de uma viola e ao passar por uma morena, ela deixa no ar um perfume fresco, evasivo e doce e, as suas formas arredondadas estão pintadas com as cores da Primavera. Uma lágrima de orvalho que desliza de um fio de luz desenhado na sombra de uma mangueira frondosa cai-me no rosto. Sem pressa, tranqüilo, devagar vou percorrendo a noite e sorrindo ao luar. O ruído urbano dos motores deixa-se de ouvir mergulhando a noite num doce silêncio. A noite vai-se aninhando junto ás minhas raízes enquanto sinto o perfume da terra húmida. Santarém já adormeceu, e eu, mergulho enfim nesse oceano mágico da noite e dos sonhos.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Pelo Tapajós acima
Em cada curva desse azul de cetim fervilham os meus pensamentos levando-me para lá, para onde o céu e rio se fundem no dourado da tarde. Enquanto navego nas tuas águas sinto-te mimar o vento endiabrado que faz enrolar as tuas ondas na areia branca da praia e, enquanto mimas o vento endiabrado, puxas-nos para a frente e para trás na amurada do meu barco como se fossemos bailarinos de uma dança sem coreografia. Olhei de novo as tuas águas da cor do cetim a baterem a quilha do barco explodindo como uma sinfonia infernal de guitarras e violinos e, enquanto engolias aquela quilha empurravas as tuas águas levando-as a beijar , na areia dourada, os pés da princesa que em bicos de pés e de vestido prateado me estende as mãos para me levar para a floresta onde os amantes se perdem em suor e saliva. A cada metro desta subida em que o barco contorna as curvas longilíneas do teu corpo eu sorvo-te a cada centímetro ao passar as mãos por sobre as tuas águas ao mesmo tempo que reabro mais uma página do meu livro de memórias proibidas. Ao passar por aquele rochedo velho e imponente que nas tuas margens estremece nas areias finas, enlaço-me entre o suor e a saliva e deixo os meus pensamentos voarem para lá, onde as tuas águas se tingem de violeta com a floresta, e onde os dois se sentam no horizonte. Nas tuas margens brotam árvores frondosas enquanto no teu leito brincam cardumes de botos. E ao entardecer, quando se desenha no teu leito a silhueta de uma lua ainda transparente, se recortam nas tuas margens as silhuetas fugitivas dos amantes que se apaixonam ao sabor da brisa quente que percorre os seus corpos e se espraia no infinito.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Memórias
O intemporal dissipa-se nesta chuva de inverno. Os pingos esbatem-se no meu rosto como lágrimas de saudade. Lágrimas que parecem ressuscitar um impulso adormecido, desconhecendo a sua cor em expressões de saudade. A cada momento, protejo e escondo a minha escrita dentro da memória de cada letra, para que possa entre cada passo, ouvir o ruído da saudade do meu tempo. Sem pressas, percorro a orla debaixo de um sol que timidamente insiste em romper as brumas. Olho em volta. Sinto falta da minha ausência e de sentir a falta de não sentir, desfrutando o presente ás escondidas do tempo nesta imensidão de sentimentos. A minha alma vagueia sedenta, cavalgando na noite, por sobre as águas do rio, na busca de uma réstia de memória adormecida. Quiçá os meus anseios, os meus medos, as minhas risadas ou quem sabe um pouco daquele amor de um outro dia. Sinto uma derrota interior pela minha inabilidade e pelo fracasso da minha memória. Chego á conclusão de que muitas vezes as minhas palavras desaparecem nas linhas do infinito, para depois voltarem a ser reencontras numa qualquer madrugada. Como é difícil responder a todas as inquietações do meu cotidiano. Fito as águas do rio como se o seu leito ajudasse a direcionar perguntas e respostas, como se eu pudesse reivindicar ao rio a paternidade dos meus sonhos.
terça-feira, 7 de maio de 2013
O Comando ...da televisão
No escuro do quarto a minha mão, deslizando no lençol, procura o comando da televisão. Sou presa fácil e espontânea de um comando de televisão. É assim a minha noite. Eu e a televisão. Momentos de êxtase, pedacinhos soltos de sedução de um aparelho que me fala em silêncio. Como acontece nas várias noites em que a insônia me vence e as idéias para escrever se esfumam, são os filmes ou a leitura que povoam os meus sonhos, aumentando a labareda alta de um prazer notívago. Nenhum músculo do meu rosto se meche quando vejo o Hause ou estou de olhar fixo na CSI. Cruzo as mãos atrás da cabeça uma vez. Duas vezes. Várias vezes. Eu, a noite e a televisão, dimensões do espaço e do tempo que se ultrapassam com um simples olhar, sem palavras e sem gestos, nos momentos de solidão. Uma vez por outra fico a leste das emoções apenas sentindo a chuva bater no telhado e aprendo a decorar todos os silêncios. Como a vida é estranha. A vida sem sonhos não vale nada, vale-me carregar no comando para que nos variados canais eu vá ganhando força para a indignação, para um sorriso, para uma lágrima e até para um sonho. Envelhecer é tramado. Não há comando que resista. Existem noites em que por mais que mudemos de canal a doçura das memórias não nos aquecem, as noites arrastam-se e nada é o que deveria ser. É como andar á deriva no Tapajós e sentir subitamente a floresta engolir o rio e eu acordar sentado numa bananeira. Não resisto mais. Vou embrulhar as minhas memórias, os meus risos e lágrimas, clico no comando e vou dormir
quinta-feira, 2 de maio de 2013
O Cheiro a terra e água
Silencioso vou vagueando na areia da praia cheio de vazios sujos marcados no corpo, consolado no meu mundo de sonhos. Olho este rio cheio de mistérios e encantos. De um lado a floresta verde e tentadora , do outro, as margens nuas de solidão. Vejo o despertar do encontro noturno feito de fantasias e a espuma das ondas dissolvendo-se no espaço descampado do areal cor de ouro. Olho esta imensidão de água azul lambida por um nascer do sol de filmes de amor e de desejo absoluto de liberdade. Fico de pé, hirto, fixo e irremovível ,encarando o horizonte á minha frente, recebendo a força do sol que rasga os detalhes da floresta . Floresta que se cala ao admirar como eu, esta força da natureza que é o Tapajós. O cheiro a terra e água, circula com raiva pelo ar a declarar vitoria sobre os meus sentidos. Quero conhecer todos os segredos do teu percurso. Acrescentar segredos à minha solidão. Meus ouvidos se tornaram no aconchego dos sons sublimes que a brisa provoca na água, esperando a próxima música, com a intensidade de um começo de dia. Vou voar para casa. Apagar todas as minhas luzes e, ensinar à minha tristeza que sorrir é o melhor sentimento para quem, depois de um nascer do dia assim, precisa de dormir.
terça-feira, 9 de abril de 2013
o Silêncio
Estava escuro. Senti-me envolto em fios de algodão, em teias de aranha, em musgo de rio e sol. Queria respirar e não era capaz. Fechei os olhos e deixei-me conduzir. As imagens percorreram o meu pensamento como um bailado. E é nesse silêncio que olho o mundo velado, sem nuvens, sem céu azul, sem pulsação para lá do infinito. Esperei não sei quanto tempo. O tempo suficiente para que chega-se alguém e leva-se de mim o nada que me compõe e deixa-se lá o resto de coisa alguma. É naquele momento que descubro a vida numa lágrima, sentindo-me um cavalo alado sem rédeas, sem freio, sem destino, partindo num suposto barco de ardores. Apetece-me falar. Mas que direi agora que o meu corpo quer gritar, que os meus braços doem, que as minhas pernas se desmancham?. Tento gritar mas os gritos não saem. Algo me afronta a garganta. De imediato projetei mil e uma imagens, e, esta dor que trago comigo rasga-me a pele e os sentidos. A lágrima não cai, a pálpebra não fecha. Levo a mão ao peito e acho um vazio invulgar. Pelo tempo que por mim passou sinto o coração frio, e os pés gelados. Sou transportado no imediato para um momento, uma memória. Demasiadas memórias que ardem. Subitamente a chama que dança no escuro aquece as paredes do meu quarto do hospital parecendo chorarem como pássaros sem asas. Quebra-se o sonho. Nessa noite á um mistério para guardar. A renovação da própria vida. E porque a lua hoje vai ser grande demais para o céu o meu deserto de mar vai ser cativo na solidão. Vou poder sorrir de novo. Há como me sabem bem o fresco dos lençóis no peito e o brilho da lua refletido no chão.
A angustia de amanhã
Olho o chão á minha frente e tento perceber o quanto dependo da certeza firme dos meus passos. Hoje enquanto escrevo continuo a acreditar, ou antes quero acreditar que o meu futuro ainda vai guardar um pouco do tempo que já foi tempo. Os meus passos têm atravessado estes últimos dias, florestas de pensamentos, rios de angústias mas ao mesmo tempo, céus de esperanças. É por isso que sempre tenho tido, ao longos destes últimos anos, a melhor idéia da vida. Por várias razões. A aproximação á vida para lá do espírito nos últimos tempos tem-me ajudado a encontrar um novo sentido, acreditando num mundo sempre novo que renasce em cada manhã. Tem existido um mistério em todas as vezes que procuro um papel para escrever pois sempre tenho de lutar pelo limite das palavras, como se o papel fosse aos poucos sendo sugado pela ponta do lápis. É então que voltando a acreditar em tudo aquilo que sou capaz , me revejo nas páginas brancas e silenciosas e não deixo de pensar que viver é muito melhor que ver viver. Eu quero viver. Vou pedir que a velocidade do tempo abrande para poder descansar a alma. Depois ...bem depois seja o que Deus quiser e o Tozzi souber fazer.
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