terça-feira, 29 de novembro de 2011

Os fins de semana na orla


A orla estava cheia, normal para um fim de semana. Casais de todos os sexos, fauna mista entre os estudantes, agricultores, empregados de balcão e os habituais pescadores na procura de peixe miudo. De peixe miúdo tambem procura um certo grupinho de brilhantinas que se fazem a tudo o que meche. A um canto um cantor já a entrar na terceira idade debita umas notas uns décibeis acima do normal. Sentados nos muretes do passeio os mais jovens esperam ouvir de cada boca a doçura das palavras, sonhando e amando. A morena que se cruza comigo sorri como se o paraiso tivesse descido à terra ao escutar de celular pregado ao ouvido palavras que de certo lhe criam sonhos e ilusões. Do peito escorre-lhe o amor e a cabeça fervilha consumindo-a de paixões As noites na orla de Santarém ao fim de semana são assim, cheias de luz e de vida. Sente-se o coração pulsar debaixo da pele de cada um. A música e as gargalhadas andam de mão dada com a euforia, deixando todo o mundo numa letargia que deixa transparecer a vontade de o tempo passar devagarinho. Aproveita-se o tempo para limpar a memória, deixar o coração de molho ou simplesmente recarrega-se baterias para mais uma semana. Aqui sob um luar brilhante e uma brisa que sopra levemente, perde-se a noção do tempo. As noites são sempre azuis e apetece sob o manto das estrelas ficar até ao amanhecer. Mas é preciso partir depois de limpa a alma e reposto o prazer de viver. No ar deixaremos, como sempre, aquele desejo que algum barco vagabundo nos leve para lá do horizonte, para de novo ouvir o grito das gaivotas.

sábado, 26 de novembro de 2011

Procurar-te de novo...


Escrevo-te hoje, e aqui, porque sinto que ando de novo á tua procura. Numa noite, faz tempo, numa noite prefeita, liguei o meu coração ao teu e troquei uma parte da tua alma com a minha, enquanto dormias. Plantei nessa noite uma semente no teu coração consciente de que ela germinaria.Amarrei-me a ti. Como as palavras são os meus passos é com elas que espero te encontrar de novo. Continuo a gostar de ouvir a tua voz a embalar-me de noite antes de, tantas e tantas vezes, te encontrar nos meus sonhos.Sonhos alterados pela solidão, onde tu me apareces, na cama ,linda e sensual. Procuro todos os dias abraçar-te antes de adormeceres, e em cada manhã antes de acordares. É a paixão que nunca sabemos quando acaba ou se transforma. Contigo aprendi que o amor é uma força misteriosa e divina indiferente ao frio dos dias, ao vazio da cama ou até mesmo ao silêncio da distância. Acredito que tambem tenhas aprendido muito comigo. O tempo que temos vivido juntos tem demonstrado isso. Temos sido nós, com os nossos passos, que temos feito o nosso próprio caminho. Tudo o que vivemos até aqui é um tesouro que nunca se apagará da nossa memória. É por isso que te pergunto se não tens saudades de outras manhãs, onde os dias não pareciam frios e secos, sem oásis e miragens?.Quero voltar a sentir o teu cheiro. Quero continuar a amar-te sob este sol, este céu e o cheiro deste rio imenso que continua a ser a nossa fonte de inspiração. Não quero ser apenas espectador da nossa existência, quero participar activamente nela. Vamos viver cada minuto intensamente. Estou certo, que doravante, o amor vai trazer de volta os sons das nossas conversas, o calor das nossas mãos entrelaçadas, o sabor da minha boca na tua. Por ti percorro o céu e trago-te de volta mil estrelas cintilantes.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chove nesta manhã


Chove. No ar uma brisa ténue, nos ouvidos o som dos passaros e, no meu peito, os acordes de um novo amanhecer. Recolho-me debaixo do guarda-chuva e corro para o ónibús. O céu de Santarém aos pouco vai ficando rosa, desbotando num sorriso dessimulado. Sinto na luz da manhã o bom dia de quem passa como um calendário que se repete, deixando inundar de imagens os meus olhos. Num impulso acaricio o cabelo limpando uma gota de água que redesenhava as curvas do pescoço e , vejo uma jovem sorrir-me com os olhos, afagando-me a solidão. Olho através da janela do ónibus e revejo-me na silhueta da árvore despida, neste dia de chuva cinza claro, com grandes raizes cheias de promesas de verde que secretamente aguardam pela Primavera. O dia de chuva adormece-me a alma como se a minha letargia fosse um refugio para me esconder da solidão. Hà uma beleza especial no movimento dos transeuntes, como se fosse um baile de borboletas, desenhado pela luz do dia que nasce. As gotas de água da chuva que salpicam o pavimento largam acordes de sifonias indefinidas. Embora chovendo esta manhã está cheia de vida. Santarém acordou á muito. Mil afagos, mil botões em flor, mil raios de luz acabam por iluminar a luz de quem acredita no renovar de cada manhã. Saboreio na pele a frescura e toco com as mãos os traços de luz que me percorrem o rosto. Saio do ónibus e misturo-me na multidão. Arrepio-me quando a água me envolve fazendo-me cócegas nas ondas da vida. A chuva continua a cair. O seu ruido não é só um gotejar, é uma melodia triste mas ao mesmo tempo bonita, como o raiar timído de um sol branco que vai aparecendo para lá do rio num dia de tempestade. A natureza vai acordando preguiçosa.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quando nasceu uma amizade


Já não me recordo como tudo aconteceu, ou até mesmo quando começou. Hà um, dois, talvez três anos. Sei que nesse tempo lia poesia nas madrugadas, houvia os passáros cantar pelas manhãs e sentia as canções do vento quando a brisa me batia no rosto ao entardecer, naqueles momentos imensos do vazio dos solitários. Gostava das ruas desertas , de me rever nas poças de água e de percorrer os caminhos molhados e sentir o cheiro do capim depois das chuvadas... sózinho. Um dia descobri que precisava de um amigo para não viver debruçado no passado em busca das memórias perdidas. Um amigo daqueles que fazem o coração sorrir. Quando menos esperava do chão árido deste mundo, nasceria uma flor que mais tarde me ofereceria o seu rarissimo perfume. O da amizade. Este substantivo fecundo que acabaria por percorrer esta fronteira imensa que existe entre o respeito e a solidariedade, viria a permitir hoje, que dividamos momentos de cumplicidade, alegrias e tristezas. O Valério é um amigo, um irmão.Me fez perceber que os momentos perfeitos existem e que afinal a felicidade está nas coisas simples. A vida é, foi e sempre será feita de escolhas. Escolha da cor de uma camisa, escolha da mulher que nos acompanha pela vida, a escolha do caminho a seguir nessa vida e, a escolha de um amigo. Escolhi com a razoavel percepção de que, este amigo cuja presença me trás alegria, que me abre o coração com um sorriso, que cre na amizade e a vive com audaz conquista de liberdade, que não se preocupa em dar ou em receber mas que sente sempre a necessidade de compartilhar, é um amigo para uma vida.. Esta amizade sincera que divide comigo segredos e que silencia. É um amigo bem humorado, intransigente, exigente mas determinado. Queria dar-lhe este abraço em silêncio e dizer-lhe da minha determinação em manter indefinidamente no espaço da minha vida a tua amizade. Obrigado irmão.

domingo, 2 de outubro de 2011

Como sobreviver à hecatombe


Atravessamos uma época cuja atenção da população se centra nos atentados ao patrimônio, à vida humana, nas burlas que constantemente surgem nos mídia e que dizem respeito a gente de colarinho branco, nos assaltos com que diariamente somos confrontados, nas fugas ao fisco e todo o tipo de corrupção que encapotadamente ou sem pudor á luz do dia nos fazem pensar que vivemos numa república das bananas. Acostumamo-nos tanto a este tipo de coisas que não estranhamos as condenações ligeiras que muitos destes crimes são punidos. Os crimes contra as pessoas, sejam elas crianças, mulheres ou idosos passam-nos ao lado. Alguém já se colocou no lugar de uma mulher ou de uma criança vitima de um ato criminoso de violação, e ter a noção exata da violência física e mental porque estas pessoas passam?. Verificamos que estes crimes que afetam normalmente pessoas indefesas e que deveriam por isso estar mais protegidas, são pela justiça levemente punidos e menos agravados que muitos outros. A leia é o que é. E todos nós nos abstemos ou fingimos não entender a brutalidade destes atos ,esquecendo-nos até, do calvário vivido por estas pessoas muitas vezes ou quase sempre, sofrendo em silêncio, não só pela vergonha, mas também pela tortura de não reviverem o seu pesadelo. Há dias um taxista foi assassinado com uma mutilação horripilante. São estes crimes que toleram o nosso dia a dia face ás violações, que só são dolorosas para quem as sofre. Normalmente as bestas que violam passam ao lado das condenações. Considerados inimputáveis tomam uns comprimidos e voltam á vida que estavam habituados mais tarde ou mais cedo. Os políticos que têm a responsabilidade de legislar sobre a matéria normalmente atiram que este problema atravessa fronteiras, e diferenças sociais e culturais. Choca-me esta situação. Sensibilidade burra a minha obviamente. Como sobreviver à hecatombe social, vai ser a luta a desenvolver nestes tempos de brandos costumes.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Nayma a guerreira


O dia tinha nascido , e já muito cedo, o sol a aquecia corpos e corações. As guerreiras icamiabas da aldeia, haviam saido para caçar. Hoje era o primeiro de muitos dias especiais. A festa dedicada a Iaci divindade mãe do Muariquitã, tinha como ponto alto um jantar de caça em honra dos visitantes. Nessa noite os Guacaris, guerreiros de aldeia vizinha eram hospedes especiais . A selva e o rio mantinham à muitos anos o encantamento que fazia das belas mulheres da aldeia o sortilégio da disputa entre os Guacaris. A aldeia ficava situada num inespugnável vale da nascente do rio Nhamundá. As enormes cachoeiras de água, caiam em turbilhão num lago de águas verdes e transparentes, que as indias dedicavam á Lua. As quedas de água bem como a selva luxuriante, escondiam dos inimigos, as belas e famosas guerreiras. Nayma a mais jovem e bela guerreira chegou-se ás águas do lago e passou suavemente as mãos pelo rosto, saindo-lhe um enorme sorriso ao reparar na sua imagem reflectida nas águas limpidas. Olhou de novo o espelho de água e pediu a Iaci que lhe guia-se o arco e a flecha na caçada de hoje. O vento soprou baixinho dizendo a Nayma que a destreza das suas mãos fariam com que a floresta hoje fosse dela. Ela voltou a sorrir, deu a mão ao vento, e rapidamente voltou á companhia das outras amazonas. Fora a última a atravessar a passagem secreta que separava o mundo exterior da aldeia fazendo rolar o enorme bloco de pedra que fechava a entrada. Nayma olhou o céu e sentiu a brisa que pela manhã a beijava . Era tempo de se fazerem á floresta e procurar alimento. A jovem olhou o imenso arvoredo e sentiu o doce nectar que a beijava como que por magia. Caminharam longas horas por entre as árvores por trilhos cobertos de musgos frescos e macios. A caçada tinha sido produtiva e Nayma destacou-se caçando várias peças merecendo elogios da chefe guerreira. Era hora de regressar à taba e começar a preparar os festejos. Enquanto todas se dirigiram ás suas ocas. Nayma quedou-se à beira do lago. Sentou-se numa pedra olhou o lago e os reflexos prateados da lua da sua superficíe e quedou-se a sonhar. Quem seria o guerreiro guacari que amanhã lhe estava destinado?. Quem iria possuir o seu corpo belo e jovem? O chilrear de uma arara despertou-a. Nayma levantou-se , estendeu as mãos e mergulhou nas águas do lago. Voltou à oca construida exatamente onde o lago dá a mão á floresta, deitou-se, e adormeceu. Um beija-flor cantava junto á janela fazendo-a sonhar. Sonhava que o beija-flor lhe vinha trazer mensagens de amor perfumadas com as flores que cresciam por toda a floresta.O seu imaginário sobrevoava para lá do lago, ela sonhava que um jovem guerreiro de longos cabelos negros, esvoaçava, impelido pelo vendo, de braços abertos para ela. Tinha uns olhos verdes da cor das pedras que as guerreiras retiravam do fundo do lago. Era aquele querreiro guacari que ela queria para as festas em honra de Iaci. O sol voltara de novo á floresta . Nayma e várias das suas amigas correram para o lago e mergulharam. Refrescavam os corpos e revigoravam os musculos para o trabalho do dia. A taba tinha de estar linda para daí a pouco receber os guerreiros guacaris. Pouco depois soaram os tambores num ritmo alucinante. Chegavam os guacaris. Rapidamente as jovem alinharam de costas para a entrada como era tradição e cada um dos jovens guerreiros alinhava na frente de cada jovem. Era a forma ancestral que sempre orientou a escolha dos casais. O coração de Nayma batia aceleradamente, como seria o guerreiro que lhe havia caido em sorte?. As jovens se viraram e cada um dos guerreiros estendeu a mão aquela que durante as festas ia ser a sua amada. Nayma não queria acreditar. À sua frente estava o guerreiro de olhos verdes que o vento no sonho trouxera até ela. Sorrio. Baixou os olhos e com timidez estendeu a mão. No jantar os dois jovens se tocaram e beijaram inumeras vezes olhando-se olhos nos olhos com a ternura de um casal apaixonado. Pouco depois e em procissão os casais dirigiam-se ao lago cantando á luz de archotes. Nayma não parava de olhar o seu amado, no seu ombro ia um pote cheio de perfume que derramaria no lago para o purificar. A lua deixava na superficie das águas raios de luz prata provocando encantamento em todos. Chegava a hora das jovens guerreiras mergulharem nas águas limpidas e encantadas e das profundezas retirarem as pedrarias verdes onde pouco depois esculpiriam a figura de Muariquitã. Já na oca Nayma ajoelhou em frente do guerreiro arrancou uma trança do seu cabelo negro e num gesto de amor colocou o Muariquitã no seu pescoço pedindo a Iaci os desejos de sorte e de proteção para o seu amado. Ele abraçou-a num beijo de paixão incontida, de volupia e desejo. Nayma olha agora o lago, no lago dos seus olhos, que apenas guarda agora, o vazio de um sentimento que já se foi. Alguns anos mais tarde, na aldeia dos guacaris, Pitu o pequeno índio brincava alegremente,e o jovem guerreiro que te tinha amado Nayma, via nos olhos do filho a nostalgia de um amor impossivel.

(Ao meu amigo Junior Chaves, desafio lançado....desafio cumprido)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ponta de Pedras...a misteriosa


Solitária, linda e guardando no seu regaço o brilho das pratas, só Ponta de Pedras iguala o brilho das estrelas que lá longe, beijam o rio,exatamente no mesmo sitio onde o céu acaricía as águas. Sentado na areia fina da praia de olhos fixos no teu sorriso, dou por aquela estrela cadente, que enamorada, vem beijar o teu regaço . Neste cair de tarde de Julho, olhando o infinito azul das águas que vêm amar a areia branca e fina da praia, escuto o murmurio das aves num silêncio feito de solidão. O céu coberto de nuvens de algodão, transmite uma calmaria imensa a este lugar, onde sempre se desejará nascer, viver e morrer . Nesta tarde mansa, sentado nas margens, procuro entender de que veludo é feito este rio que corre altivo levando todos os meus sonhos até à foz. Ponta de Pedras é o sopro de um murmúrio, um barco escondido entre a folhagem, os olhos verdes semi-cerrados de uma qualquer princesa das águas. Uma perfeição da natureza. A lua cheia, redonda, imensa ajuda-me a perceber o que de belo e misterioso tem este tesouro escondido entre o arvoredo. Um som mavioso leva-me de novo o olhar para aquelas águas prateadas que me beijam os pés e tenho a percepção de que a princesa das águas canta para mim, ao mesmo tempo que uma núvem de algodão poisa nas árvores da floresta. A consciência ecológica torna-se neste lugar , um formigueiro doloroso, que nos desperta para a conservação da natureza, tal a beleza misteriosa destas paragens. É aqui neste lugar de areais imensos, onde as manhãs são de sol claro, o cheiro do maracujá e o gosto do açaí se misturam, onde a brisa leve e morna das madrugadas beija o rosto da princesa do rio, que se pode sonhar. Logo mais, quando o azul do céu escurecer e, o brilho do cristal das tuas águas se apagar, vou adormecer e, sonhar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Papel vazio


O Tapajós está esta noite vaidoso, calmo e vagabundo. Por cima do vôo pintado das gaivotas, que chegam para anunciar os ecos do calor, ouço os murmúrios das gentes que povoam a cidade. Quero escrever. Olho o imenso rio, até ao limite onde consigo imaginar o seu fim e reparo no ondular suave das águas. Perco-me a inventar as letras. Para lá das margens existe um oceano verde que se confunde com o céu azul. O rio faz uma corrida desenfreada acabando muitas vezes num rendilhado de espuma de encontro á quilha dos barcos que subindo procuram o porto de abrigo. Faltam-me as palavras para descrever este sortilégio. È a terceira folha de papel que rasgo, a caneta teima em não encontrar as palavras, é como quando a fonte seca e se cala. Escrever uma história, um sonho, um mergulho na alma. Volto a levantar a cabeça do papel e olho o horizonte. Sinto a caricia molhada que o vento, sussurrando trás do rio. As palavras que me fogem são vôos rasos sobre a superfície da minha pele. O que sinto de momento são apenas simples abraços de um pensamento fugitivo. As palavras travam, fogem, não aparecem. Será da magnitude do rio?. Preciso de um aconchego por forma a livrar-me do brilho baço e momentâneo do meu pensamento. Sinto um repentino desejo de tocar a água e guardar o prazer que sinto na minha pele, mas apenas pressinto a quietude do rio nesta noite encalorada. Rasgo nova folha deste bloco. Reparo agora que o céu está estrelado. Como era bom voar por sobre o rio a caminho das estrelas. Sonhar é o que estou a fazer neste momento com uma folha vazia à minha frente. Volto a pegar nas letras e encontro de novo apenas a sombra das palavras. Acho que vou desistir. Vou embarcar apenas no som melodioso que o silêncio me oferece e, deixar-me espreguiçar até que a última gota de orvalho chorada pela noite seja sugada pelo rio.

domingo, 14 de agosto de 2011

O banco da minha adolescência


Devagar, um a um, subi os degraus da ingreme subida que me levava ao castelo da minha cidade nos momentos de maior solidão. O banco de pedra ainda continua a ser o mesmo, virado para a magnifica paisagem onde ficava os Paços do Alcaide. Sentei-me à pouco tempo nele. Foi num fim de tarde debaixo de um imenso céu azul matizado de laranja. Nesse banco de pedra que me trouxe o despertar da saudade de tempos passados da minha adolescência. Mantem a mesma posição, apenas o granito está mais enegrecido pelo passar dos anos e dos temporais. Muitas vezes adormeci em cima dele e, outras vezes bem desperto fiz juras de amor. Era o banco do prazer e do desprazer. Rápidas e certeiras as memórias olfactivas do alecrim e do rosmaninho que encosta abaixo atapetavam o chão onde cantam rouxinois e, onde os corpos estilhaçados de batalhas passadas rolavam para ficarem inertes junto ao rio. Fiquei ali tempos sem fim. Olhei o horizonte e tentei descortinar vestigios das páginas escritas na tinta verde do arvoredo, que na minha adolescência eram pontos de referência na paisagem. De súbito poisou no meu joelho um simples gafanhoto de um verde pálido impelido pela brisa que no alto do morro sopra sempre quase sem se sentir. Sacudiu-o delicadamente com a ponta do indicador e reparei nos ruidos da cidade que chegavam aos meus ouvidos. Uma borboleta com as asas da cor do arco-irís voava ao meu redor e vi nela a promessa da renovação da vida. Quantas promessas ao inesgotável caminho do amor e da fraternidade fiz naquele lugar de pedra fria. Tantas, que se perderam na imensidão do tempo. Fui para longe. Cruzei mares, subi e desci montanhas. Desbarvei novos horizontes, desejando perpetuar a ausência,e manter-me afastado do banco de granito, mas, como a ausência só é sentida quando não hà vida, voltei. E depois de um Setembro feito de silêncios e de penumbras, hà uma chama que brilha de novo na esperança de renovação, redescobrindo em mim o sentido mais profundo da vida. Depois de Setembro as minhas madrugadas são coloridas. Como foi bom voltar ao meu banco de granito. Ao banco que foi para mim o elo de ligação entre o sonho e a poesia, avivando-me memórias que sempre recusei partilhar. Colhi um malmequer, dei-lhe um beijo e atirei-o ao vento.

sábado, 13 de agosto de 2011

Parou de chover


Sozinho, entre o cortinado e os vidros da janela, olho o Amazonas e vislumbro entre o negrume do fim de dia, umas réstias de sol de inverno. Gosto de ver chover. Ao longe os clarões aproximam-se. É preciso semi-cerrar os olhos ofuscados pelo clarão de um relâmpago que enche o horizonte de fagulhas amarelas e prata. Para lá longe, onde rio encontra a floresta, nota-se a chegada de uma chuva quente que descarrega de supetão neste pedaço de mundo encantado. O ritmo da chuva a bater na vidraça, apressa a euforia, o êxtase. As pessoas na rua, temerosas ou talvez não, refugiam-se por sob as frondosas mangueiras cujas folhas aterram furiosas batidas pelo vento no asfalto da rua. Uma ave minúscula empoleirada no candeeiro de iluminação da rua pia incessantemente. O vento, tremendo forte, empurra gemendo, as cordas da água de um rio revoltado. Na cidade o trânsito engarrafa as ruas, cujo pavimento regurgita com a avalanche de água que se esta a abater fazendo com que os bueiros, fiquem de bocas entupidas incapazes de dar vazão ao dilúvio, como se de um momento para o outro os estrangulassem com uma mordaça asfixiante. À minha frente Santarém enfrenta galhardamente, um inimigo tremendo, feito de um liquido que lhe está a cair em cima em catadupas, em quilolitros de fúria, como se o S.Pedro tivesse aberto todas as torneiras celestiais. Esta noite o rio vai-me inundar os olhos correndo, livre e solto, esperando voltar a vê-lo de novo na próxima tempestade em forma de nuvem, enquanto lá fora a noite avança em momentos de silêncio lento. Parou de chover.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

É urgente parar para pensar


Hoje quero deixar um apelo ao teu coração... Quero falar da importância de parar para que nos olhemos olhos nos olhos deixando de lado este mundo apressado, de velocidades loucas, que tudo devora. Acho que temos ido no caminho certo, mas também entendo que temos perdido pormenores importantes. Deixámos de descobrir, de saborear e de ver com o coração muito do que a vida nos colocou na frente. Falta de tempo e de espaço dirás tu. Pressa demais no fazer das coisa direi eu. Os corações apressados dificilmente se apercebem de tudo o que gira à sua volta. A vida é uma dádiva preciosa que precisa ser entendida. E dentro deste mundo de fantasia e magia, tu, e eu, devemos guiar o nosso amor de acordo com a voz do coração. A felicidade e o sucesso andam de mãos dadas. Por isso quero acreditar de que a vida não se faz de promessas, mas sim de determinações. Determinação no fazer, determinação no compreender e, claro, determinação no amar. Se não fizermos por ouvir o coração, não cresceremos , e muito dificilmente teremos tempo para fazermos as nossas escolhas certas ou reconhecermos os nossos erros. A nossa vida é uma dádiva preciosa para que deixemos que ela deixe de ter sentido. Por isso entendo que não poderemos esperar pelos acontecimentos mas ir ao encontro deles. E isso só se consegue parando para refletir. A sabedoria que reconhecemos um no outro ajudará a encontrar o caminho certo com a ajuda e a incrível grandeza dos espíritos. Se pararmos para meditar de certeza que até ouviremos melhor o canto do cuco, o vibrar das árvores da floresta e até mesmo o bater das asas das borboletas. Vamos refletir?...vamos parar para ouvir os nossos corações?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Os teus olhos da cor do chocolate


Quem haveria de dizer que a nossa vida iria depender do chocolate. Agora, tu tens um cidadão português cujo efeito do chocolate dá uma sensação boa pelo corpo inteiro. A energia das caminhadas vem do gosto, do olfato e da visão do teu bolo de chocolate. Dá gosto olhar para ele, tocar-lhe, senti-lo, e come-lo. Como é gostoso olhar a tua mão a dirigir a varinha na batedeira dos ovos, com os movimentos do teu corpo como se de uma orquestra se trata-se, e da qual poderias ser a diretora . Escreves coisas lindas na superfície dos bolos, que mais tarde encanta nas casas o olhar de um e outro. Falam que o adoram. Enquanto não chega a próxima encomenda, aproveito cada segundo para estar do teu lado. Passando para os teus lábios a doçura do chocolate. Tu na última encomenda não querias que ele fosse embora, mirava-lo embevecida como se olhasse uma obra de arte. Ambos acabamos por rir da cena. Rimos porque entendemos como pode ser tão gostoso fazer aquilo que se gosta. Rimos é verdade porque também somos felizes por muito pouco. Basta estar perto do chocolate. Está feliz de estar ali. E tu querias estar ali pra sempre. Tu ris porque não era nada daquilo que tinhas imaginado para a tua vida. Tu imaginas-te viajar pelas montanhas e vales da Suiça, conhecendo e comendo chocolate a meu lado. Mas ele te convence, sem palavras, só com o odor, de que o teu futuro é ali no fogão, mexendo e fazendo dele o manjar dos Deuses. Ele, o chocolate, admira o teu sorriso, e dilui-se quando o mexes. E tu, sem palavras, acarinhas, transformas e moldas fazendo do resultado final o sorriso de muita gente. Ele, o bolo de chocolate, é o cara para quem muita gente olha, nas festas de aniversário, nas tardes tranqüilas de bons papos a ver o rio ou simplesmente naquelas manhãs ainda de sono, depois de um show sertanejo e, deseja ardentemente come-lo para depois tocar as estrelas, e sentir a necessidade de amar. Depois são tempos marcados pela ternura, a doçura do chocolate quente e muitas histórias para contar. E quando a noite chega, se encerra a porta e, se ouve o vento soprar por entre as árvores do quintal , só os sonhos sobreviverão. Sentimos então o suave perfume do chocolate percorrer a noite e a casa, criando nos espíritos a doce sensação da embriaguês. Deixo nos teus lábios um beijo doce e, abrigo-me nos teus braços.

domingo, 31 de julho de 2011

Mudámos de rua


Mudámos de rua. Nesta manhã de casa nova, o sol ás primeiras horas da manhã cobre inteiramente todo o espaço, espalhando-se com a violência de um flagelo . Por toda a rua as nesgas de sombra vislumbram-se de baixo das mangueiras. Os ónibús sobem e descem como se flutuassem ao sabor das ondas do Tapajós, e os transeuntes caminham corajosamente ao sol causticante das nove horas da manhã , deduzo que para trabalhar. O Toy dorme resignadamente á sombra do portal de entrada. Dentro de casa o abrir de malas e caixas absorve todos. Discute-se a questão do espaço e a localização dos móveis. No quintal, os descorados arbustos iluminados pelo sol vitorioso de Junho, recebem um beijo escaldante de vida, enquanto os lagartos percorrem o espaço em corridas loucas. Rápidamente tachos e panelas vão tomando o lugar devido enquanto a Ayla de dedo apontado aos tacos vai dando cera no chão. A D.Claudete com o seu temperamento singular discorre desembaraçadamente sobre o local do frizzer e a Néia segue as nuances desta ou daquela idéia. Era quase hora de almoço quando bebi café e rabisquei umas linhas no facebook dando noticia da nova morada. Para trás ficaram os buracos, o pó e a Mirdes. Agora da minha rua não vejo o rio, mas em compensação estou a dois passos dele e das minhas caminhadas na orla. Sinto-me aqui mais santareno. Não sei porquê na morada antiga parecia-me morar em Marrocos ou no Texas, se bem não visse nem turbantes nem índios, devia ser do pó. O Ferdinando como sempre foi solicito e acabei dormindo a primeira noite com o ar condicionado ligado. Embora tivessemos a ajuda de dois braços mais fortes que os meus, todos aqui em casa nem se lembram de ouvir os passarinhos quando cairam nos braços de morfeu. O sol desperta-nos sorridente e o galo canta no quintal. A D.Claudete fez uma cafézada e o cheiro inunda toda a casa. Estranho, eu hoje senti falta do barulho dos tabuleiros do Valde. Nesta nova rua todos temos esperança que o asfalto permita o refazer de mil idéias e a concretização de muitos projetos. Até o Valério e a Cathiucia estão mais perto. Estou a habituar-me aos seus mistérios, aos seus ruidos, aos seus cheiros e aos sabores inconfundiveis desta amazónia que continua a fazer sonhar. A minha rua agora tem tudo, tem flores, tem luz e brilhantes. A minha rua agora até tem poesia. Tem o grito das crianças e o sossego dos amantes.Depois de mais um dia de arrumos, quando a noite se aproximou sorrateira e eu olhei a lua nova , me lembrei de outra rua e de outros tempos. De outra rua que foi minha amiga de brincadeiras e onde tantas vezes escondi os tesouros da minha infância, e onde brincava e sorria. Mudam-se os tempos mudam-se as ruas mas a vida continua. Entrei na nova casa com a minha mala numa mão e um punhado de sonhos na outra.

sábado, 30 de julho de 2011

Noites Vazias


Quem vc é não é quem vc foi...mudou?. Acredito que não!. A noite vira chama por entre as brasas da incompreensão?. Mudou a mente com o tempo? Quero em cada volta do luar voltar a sentir saudades do teu abraço e do teu sorriso. Quero-te sentir sem temer, sem pensar em desistir. Quero-te ver sorrir e te ver sempre por perto. Quantas vezes últimamente a noite me enche de vazio levando-me para meio do nada. Tem sido no silêncio da noite que tenho percorrido de novo os caminhos que me levaram a ti. Como tambem tem sido na noite que oiço o som de muitas águas, das muitas águas que correm nesse rio que amo, falando-me dos muitos momentos de amor e de prazer que passámos juntos. E quantas vezes na noite te oiço com o coração e te vejo viva, forte, doce. Quantas vezes na noite te pedi as palavras de volta sentindo apenas o vazio?. É como se tivesses indeferido o meu sono querendo fazer-me compreender que não são palavras para pronunciar na madrugada. Penso que o que se deve passar na noite não está apenas no brilho da lua ou na brisa que vem do rio, mas sim na plenitude do amor vivido em cada momento. E são esses momentos que têm que ser aproveitados com a intensidade de um beijo ou a serenidade de um carinho. É nesses momentos que tenho a consciência clara e sublime de que o que existe entre nós não é algo perecível. mas algo que durará eternamente. Você continua a ser para mim um tesouro sem preço, bom demais para ser perdido, e importante demais para ser esquecido. Você é tudo.Você é o meu refexo, num quarto á noite onde não existem miragens, você é uma folha em branco onde eu tenho escrito tantos textos que já te dediquei. Você tem o cheiro que me seduz a cor que me apaixona e o sentimento que me refresca. Será que entendes isso tudo?. Não quero mais percorrer caminhos em noites vazias de silêncios e medos. Quero só , e simplesmente...te amar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Gaivota



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

terça-feira, 5 de julho de 2011

O segundo andar de uma rua em flor


Era naquele segundo andar de uma rua em flor, onde os ramos das mangueiras frondosas se debruçavam-se sobre a varanda, deixando nela o cheiro da verdura, a frescura da sombra e o perfume das mangas maduras, que todos os dias os dois acordavamos com o sorrir da manhã e o trinar dos pássaros nas copas das árvores. Uma brisa suave vinda do rio refrescava a atmosfera do quarto e imprimia em nós o desejo de um beijo matinal. O céu todas as manhãs trajava de azul. Felizes entrelaçava-mos os braços, olhavamos-nos nos olhos, e os nossos lábios encontravam-se num longo concerto mágico de beijos e suspiros. O sol naquela manhã, a cumprir o seu percurso, espreitava acima do horizonte. Abriamos a janela e lá estava na nossa frente o Amazonas em suaves ondulações e a seu lado, a floresta a perder de vista. Havia dias que procuravamos estar atentos ás coisas da vida, queriamos entender o significado delas e, perante a magnitude da natureza que os nossos olhos distinguiam, meditava-mos sobre a fragilidade do homem face á natureza. A manhã estava fresca. O cheiro do café fumegando exalava por toda a casa. Normalmente entravamos no banheiro e deixáva-mos a água correr pelos nossos corpos com demorado prazer. Ensaboava-mo-nos mútuamente e debaixo da água beijávamos-nos com amor. Depois experimentava-mos o silêncio olhando-nos nos olhos. Eram instantes mágicos. O dia corria veloz e quando a lua brilhava de novo por entre os galhos das mangueiras, olhavamos o céu e voltava-mos áquele segundo andar daquela rua em flor, para amar.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Beijo



Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
Donde teria vindo!(não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?
É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...

Alexandre O'Neil

sábado, 11 de junho de 2011

Por esse Tapajós a dentro


A lancha segue adiante, majestosa e lenta, descrevendo uma bela curva no espelho de água e faz-se ao rio apressando a marcha. Rio que se estende manso e translúcido num manto de areia fina por entre o arvoredo da mata amazónica. E enquanto o “Meneguetti” desaparecia na primeira curva do rio , Santarém ficava para trás. Subir o Tapajos é como subir o paraíso transplantado para o Brasil, tal a opulência da natureza que os nossos olhos difÍcilmente esquecerão. O céu estendia-se azul com alternadas estrias esbranquiçadas. Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um odor delicioso da comida que a Néia cozinhava, misturado com a brisa serena que vinha do rio, a mesma brisa que fazia ondular o pavilhão brasileiro na mastro do “ Meneguetti”. Imensas aves ribeirinhas ostentanto a sua plumagem garrida e multicolor, voam entre a lancha e a margem numa contradança animada, oferecendo aspectos lindíssimos. Estava calor. O sol tinha uma cor baça com um aro azulado á sua volta. O arvoredo nas margens ondulava levemente. No convés da lancha soaram boas gargalhadas filhas do inalterável bom humor de todo o pessoal, entre oa quais os irmãos do Jaime que do Paraná vinham em visita a Santarém. Percorrer o rio Tapajós é conhecer um dos mais belos panoramas que se pode imaginar, por isso todos os olhos se fixavam no verde do arvoredo e no espelho mágico do rio tranquilo como se fosse um imenso lago de cristal. Um pedaço de céu azul, o mesmo céu azul que nos tem acompanhado desde Santarém entrou lancha a dentro quando a Néia nos chamou para o almoço. Uma galinhada acompanhada por um tinto português estratégicamente escolhido para o efeito. A floresta prolonga-se a perder de vista, deslumbrante, como um quadro encantado de um qualquer pintor. Percorrer o rio Tapajós é conhecer um dos mais belos panoramas que se pode imaginar. A alma como se dilata em estranhas combinações de cor e luz. Chegámos ao destino. Atracamos numa praia deserta ao largo de Alter do Chão. Depois das manobras de atracação todo o mundo pulou na areia fina e mergulhou nas águas tépidas e transparentes do Tapajós. Durante algum tempo caminhei nos trilhos marcados na areia e embrenhei-me por debaixo das ramagens dos mangueirais recebendo na face a caricía das folhas tenras. Ao longe ouvia-se o badalar do sino da igreja, e numerosas embarcações transportavam veraneantes para as praias da ilha fronteira á cidade.Parei súbitamente e reparei em tudo o que me cercava, a água, a areia e a floresta, fazendo-nos sentir um misterioso fluído, cujos efeitos se traduz em voluptuosas sensações e secretos desejos de posse da natureza. Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente á lancha para o nosso regresso. O “Meneguetti”, diluido na escuridão da noite, aproado á correnteza que descia rio abaixo acenava a Santarém com a sua luzinha palpitando á brisa suave que se fazia sentir no convés. Um passeio demolidor. Uma viagem pra sempre recordar.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Renascer para além do mar


A cidade ainda dormia quando me fiz á rua. Sem pensar em nada, escutando únicamente o ruido do vento que soprava naquela manhã trazendo o cheiro do rio, decidi caminhar. Peguei num boné e num livro e sai de casa. As ruas já tinham um razoável movimento para aquela hora da manhã. A chuva tinha parado fazia dias e o calor ameaçava fazer daquela manhã um mar de suor caminhando camisa abaixo. A cada passo , o pó levantava-se debaixo da sola dos sapatos fazendo prever que o verão deste ano será sofrido. Caminhei direito ao rio ao habitual ponto de encontro com os meus pensamentos. Sabia que ia ter alguém para conversar sobre a criação do novo Estado, da melhor forma de tapar os buracos das ruas sem que ninguém desse por isso ou simplesmente ouvir histórias do rio. Enganei-me. Naquela manhã em que o sol aquecia os corações, eu estava sózinho. Apenas eu e o rio. Apenas eu, os meus pensamentos, o rio e o livro. Sentei-me. Acendi um cigarro, olhei as águas do rio que como sempre faziam o seu pecurso indiferentes ao movimento dos barcos e, abri o livro. Fazia algum tempo que não lia. Motivos vários impediam que me concentra-se na leitura e na absorção prazeirosa que sempre fazia das histórias. Hoje era diferente. Sentia uma paz interior a que apenas o calor emprestava alguma moleza ao corpo e ás palpebras dos meus olhos. Voltei a olhar o rio antes de me concentrar na leitura. Fixei o horizonte daquela paisagem deslumbrante onde era capaz de ficar horas em silêncio mergulhado apenas na imensidão da natureza e, pensei nas forças misteriosas que me fizeram deslocar para um lugar tão longe e tão perto da minha cidade natal. Tudo era diferente agora do dia em que decidira partir. Ali, naquele momento, entre eu e o céu, apenas o rio e os pensamentos que me levavam para lá do oceano das palavras. Tentei abstrair-me e fixar os olhos no livro. Só então surprendentemente reparei no seu titulo “ Renascer para além do mar “...quem diria. Entendi agora que os meus presentimentos são rápidos mergulhos da minha alma nesta corrente universal de vida, onde a história de cada um de nós se liga ao desejo incontido de viver no seio da natureza.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O beijo da princesa do rio


Percorria a orla da praia naquele fim de dia quando a luz do dia a morrer, empalidecia a areia da praia junto á água do rio e as ondas beijavam de mancinho a areia branca e fina. A brisa suave fazia cair aos meus pés as folhas mortas do arvoredo. Ao longe era nitido o som do rio no bater das ondas, fazendo chegar aos meus ouvidos uma sinfonia que os dedos de uma sereia dedilhavam nas cordas de uma harpa ferida pelo vento. Era tempo ideal para que a poesia corre-se pela areia e chega-se aos lábios da princesa do rio para que num beijo lânguido ela se despedi-se do dia e mergulha-se nas águas profundas. Uma borboleta voava á minha frente desaparecendo súbitamente através dos mangueirais. Sentia-se no ar o perfume das flores e o som frenético de um rádio de pilhas de um último veraneante a desaparecer no alto da escadaria que liga a areia ao asfalto. Neste princípio de noite mágico, as mãos pagam os prazeres dos ouvidos e dos olhos numa prolongada salva de palmas á natureza. Nesta praia maravilhosa todos os dias o perfume das exalações tépidas das águas faz adormecer quem a visita e os namorados na penumbra de um luar romântico vêm contar as estrelas do céu amando-se até a madrugada despertar e o voo razante das garças anunciar o novo dia. Depois nesta bela noite fresca ,de lua cheia e céu estrelado, é bem agradavel um passeio pelo areal imaginando os prazeres do dia e os mil toques dos lábios apaixonados, fazendo-nos zaguezaguear por entre as sombrinhas fechadas como os colibris entre as flores á procura de sugar o seu mel. È assim Alter do Chão com o brilho fascinante de mil cores, uma criação poética criada por Deus para exprimir o canto d’alma de quem a percorre nas noites de luar.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Aquela noite na orla


Caminhava na orla deserta a meio da noite. O vento e a chuva faziam tremer os candeeiros da iluminação. Os edificios enfileirados do outro lado, tinham as janelas fechadas e o escuro das suas fachadas faziam crer que a hora era avançada. O rio estava revolto e a madeira do trapiche rangia com o movimento das ondas. Um barulho medonho ecuou na noite. Um relampago iluminou a rua e o trovão quase simultâneo fez cair no charco alguem que corria com os sapatos na mão. Pareceu-me que a figura tentava fugir de alguma coisa ou de alguém. Um trovão ribombou de novo. Depois fez-se silêncio. Respirei fundo e aconcheguei o corpo ao portão do armazém de plásticos. Continuava a chover copiosamente e, a iluminação provocada pelo clarão de novo relâmpago fez projetar na parede fronteira a sombra do fugitivo que de olhos esbugalhados , e respiração ofegante de medo,pingava copiosamente. Julguei ver um vulto enorme erquer-se do rio com uns olhos enormes e flamejantes. Senti as pernas tremerem de medo. E reparei que a figura largara os sapatos para melhor correr e vinha na minha direcção pedindo socorro. Parou exausto a meu lado e quase lhe ouvia o bater do coração ao mesmo tempo que senti algo roçar as pernas. Era o Toy. Que fazia ele ali e áquela hora da noite. Latiu e de olhos fixos em mim esperando a recompensa de lhe passar a mão pela cabeça como gostava. A hora não era de festas mas de medo. Estava todo molhado e além de medo começava a sentir frio. Novo relâmpago e o ribombar de novo trovão clareou a orla deixando antever que a noite ia ser dura. Fixei o olhar em tudo quanto era sitío na vã esperança de que a medonha criatura tivesse desaparecido. Estarrecido, com o coração ao pé da boca,e uma tremideira enorme que juntava os joelhos um ao outro vi uma enorme mão que se deslocava na nossa direcção e entreguei-me ao Criador. O Toy ladrou de medo. A criatura caiu aos meus pés sem um gemido e, quando vi a mão descomunal perto dos meus olhos a orla desapareceu da minha visão. Ouvi um grito e senti um abanão no braço. Era a Néia que me gritava que já eram horas de sair da cama. Tinha que ser rápido ou perdiamos o ónibus para ir ao centro ás compras. Caraca que noite.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Mercadão 2000?




Ainda as estrelas brilham no céu quando a grande maioria dos vendedores chegam ao mercado. Camionetas e carregadores acotovelam-se nas ruas que ladeiam o mercadão para descarregar todos os produtos para que as bancas estejam fornecidas antes da chegada dos clientes. O cheiro das hortaliças e de mil produtos espalham-se no ar. Nas bancas laterais de comida os madrugadores comem para retemperar forças e trocam papos sobre a cumplicidade dos múltiplos negócios. Olhando o recinto é fácil verificar as várias gerações que têm ao longo dos anos zelado pela alimentação dos santarenos. Muita gente jovem de sorriso nos lábios prepara-se para ver nascer os primeiros raios de sol marcando a transição entre a noite e o dia e, atender o primeiro cliente. Os mais velhos sorriem e conversam quem sabe, recordando os primeiros dias de vendas no mercadão. A um canto, numa banca mais escondida e parodiando o velho fado da Amália...hà um romance de amor entre a Rita que é peixeira e o Xico que é pescador..ela escama vigorosamente um peixe ainda com o odor do rio que o viu nascer, ele, olha embevecido os seus olhos verdes. As frutas e os legumes alinham-se nas bancas como se de um concurso de beleza se trata-se, misturando os odores mais exóticos e as cores mais garridas num chamariz irresistivel. Do outro lado ouve-se o barulho do cutelo do açogueiro separando as carnes transformando em lombos e filés o corpo de uma lustrosa vitela. Neste jogo diário de luz e sombras não faltam as flores e o artesanato nas lojas de espaços bem demarcados. É este o retrato e a essência do Mercadão 2000, principal ponto abastecedor de Santarém. É uma verdade que a mistica deve sobreviver, mas o aspeto não deve ser revisto?. O seu interior não deve ser repensado por forma a facilitar a vida a vendedores e utentes? .A Prefeitura não deve revitalizar o espaço, criando condições de um mercado multifacetado onde a vertente cultural e lúdica se possam misturar com os cheiros das frutas e legumes e a fidelização de vendedores e clientes? .O Mercadão não poderia ser um pólo de atração turística, cultural e gastronómica?. Porque não construir uma galeria interior na área das frutas e legumes e para o piso zero mudar todos os camelós que mal instalados fazem pela vida em volta do edificio?. Porque não no segundo piso dessa galeria criar um espaço que vise aproximar a actividade turística da cidade e o potencial cultural e artistico de toda a região misturando ambientes e possibilitando á cidade mostar o que de melhor fazem os seus habitantes?. Não poderia o espaço fronteiro ao edificío levar um tratamento urbanistico que possibilita-se uma área de lazer e de espera para quem visite o mercadão?. A localização estratégica do Mercadão 2000 com a aproximação ao porto e ao principal eixo viário da cidade pode e deve ser aproveitada. Vamos colocar lá os artesãos a trabalhar, as dezenas de doceiros de Santarém a produzir e vender os seus produtos, realizar esposições, colóquios e vender livros. Deve ser estudado um conceito inovador e moderno que priviligie o contato com o turismo mas que sobretudo se torne um novo lugar de integração da cidade, do rio e do sua população. O projeto seria mais um fator de regeneração de toda a frente ribeirinha de Santarém. Sem mudanças o declinío será inevitável. Mãos á obra.

sábado, 21 de maio de 2011

Os passos diários da minha caminhada


Ao canto de uma casa de um rua sem saida uma bela morena de shorts, ténis de tacão e uma t-shirt que lhe marca o peito e a cintura, o cabelo mais claro e a pele luminosa olha-me fixamente. Mais á frente duas amigas mais bonitas que a morena tagarelam, deduzo sobre a universidade. Os livros fixam a sua atenção. A minha vizinha enfermeira cruza-se comigo no meio da rua. Neste fim de tarde de inverno a chuva parou. Ela vem de guarda chuva debaixo do braço, rimel esborratado e cabelo desgrenhado. São quase sete da tarde. Começa a escurecer. A rua que me leva ao estádio fervilha de movimento.Cruzo-me com jovens que se dirigem para o Instituto Federal e os menos jovens que começam a sair dos empregos. Os urubús são um praga, saltam-nos na frente, cruzam-se no caminho , enchem o céu. Depois de passar a segunda quadra um homem e uma mulher lutam desajeitadamente, por palavras entenda-se, não da melhor maneira. Acho que estavam em jogo alguns trocados da jorna da semana. Apressei o passo. O médico recomendara-me cerca de quarenta a cinquenta minutos de caminhada diária e não que me fixá-se nas lutas intestinas por meia duzi a de reais. A meio da terceira quadra um grupo se rapazes eterniza as velhas e clássicas amizades jogando baralho e bebendo umas fresquinhas. Olho as garrafas e dá-me sede. Não posso parar , o médico , sempre ele , avisou que os quarenta minutos são seguidos sem parar. Por isso nem tempo tenho para cumprimentar a ajudante da vizinha cabeleireira que sai de um salão da concorrência bem a li ao meio da quarta quadra do percurso. A água da chuva torrencial destes dias levou parte da rua obrigando transeuntes e automóveis a circular com precaução. A mim obriga-me a mudar de passeio e dar de caras ou antes a dar com as costas de uma neguinha curvilinea que com alguma pressa e muito bombalear se dirige-se á casa dos churrascos mesmo ali juntoao salão da Comissão de Moradores. Como diz um amigo meu que trabalha lá para os lados do estádio os olhos não comem. E ele tem razão mas que ajudam ai isso ajudam. Já levo vinte minutos de caminhada e ainda não cheguei ao estádio, local que em outras ocasiões marca o meu regresso. Quer dizer que estou a caminhar mais devagar, ou as ocorrências do percurso não me têm deixado fluir a passada. Uma amiga acena-me ao entrar para um estabelecimento de uma qualquer marca de perfumaria tão habituais no Brasil, tal era a pressa de entrar ou de me cumprimentar, que se estatelou ao bater nas irregularidades do passeio , que em Santarém são uma imagem de marca e um obstaculo para cegos, novos e menos novos como eu. Corri solicito a pegar na mãozinha da pequena. De sorriso meio envergonhado la entrou a comprar um Cardin qualquer para estar cheirosa nos encontros da orla. Para mim foi mais um contratempo na caminhada. Quando me preparo para atravessar a rua que liga a quinta quatra á rua da escola quase desmaio. Uma pirigueta de saia curta, cabelo desgrenhado, montada num bólide de quarta geração com aparelhagem xpto , com colunas sensoround de alta amperagem, desbanca um sonzinho tão alto que até a minha avó Anica se levantaria do maosuléu se a rua fosse a avenida lá do cemitério da terrinha. Caraca com o susto e as pragas rogadas por mim e pelo sapateiro que conserta sapatos na esquina da quinta quadra atrasei a caminhada e não tirei rendimento da passada. Dou volta ao sinal e retorno a casa. Fiz vinte cinco minutos. Não está mal. Mas devo passar dos cinquenta bem contados..pelo meu relógio que pelo da sogra são sempre mais. Apresso o passo. Ontem não caminhei, hoje doem-me os pés. Deu-me vontade de sentar no bar ao fim da rua bem ali no lado direito. Em que pensaria a jovem de longos cabelos, calças justas ao corpo e de olhar perdido no céu. Deve estar a pensar na forma de convencer o namorado a convida-la a um jantar romantico depois de uma longa semana de trabalho. Bom resolvo não parar o meu médico não ia gostar da paragem e, alem do mais na casa verde iam de certeza dar pela demora. Dou meia volta aos calcanhares para voltar. Descobri que já passaram trinta minutos.Vou exceder o tempo previsto alem de gastar mais solas ás sapatilhas,ainda por cima já caiu a noite e qualquer dia meto o pé onde não devia. O melhor é ir preparando o cabedal para o banho de água fria.

domingo, 8 de maio de 2011

Para que em Santarém seja sempre primavera


O rio e o céu vivem de mãos dadas no horizonte. São como dois gatos siameses que o universo juntou para que a cidade pudesse existir. Sempre quis viajar, conhecer o mundo.Viver em muitas cidades , até descobrir o lugar certo. Um Lugar certo entre um rio e o horizonte. Um lugar onde o rio e o céu se encontrem com o meu olhar. Uma terra tranquila sem nenhum segredo escondido e onde não tropece em nenhum turista de chinelos caros e de chapéu de palhaço rico. Um lugar com orla, onde aos fins de tarde me pudesse encontrar com o horizonte em que os siameses se juntam e onde a terra abrace o arvoredo, e possa deslizar nas águas com a perfeição dos pequenos gestos. Hà qualquer coisa de perfeitamente irresistivel numa cidade assim. Todos os dias dá vontade de percorrer os seus caminhos com uma vontade enorme de abraçar o rio. De lhe dizer que a cidade também é minha, de lhe contar em segredo que a vejo todos os dias vestida de primavera embora a reveje por detrás do espelho e proteste o seu presente com o desejo de ver o seu futuro. Quando a noite cai, é tempo de guardar no silêncio dos dias a vontade de voltar ver de novo o amanhecer. E é em cada amanhecer que a vida sempre nos surpreende fazendo-nos arrumar no sotão da consciência os sonhos de um passado recente fazendo-nos acreditar que a cidade viverá para lá desses sonhos. É assim esta cidade que nos obriga a andar sistemáticmente com as flores de papel presas ao coração, como se o jardim de cada peito fosse o reflexo da imagem do seu rio. A cidade faz-nos de fato amar o rio, com um amor leve e branco, feito de idéias, de sonhos, de esperança e de muitas cores. Um amor com planos e prejectos, quase adoslecente, intenso, puro e perfeito. È por isso que todos os dias visito o rio com o seu festival de cores e aromas, feito de sol e de primavera. Tu cidade que cuidas do meu coração e que nem sequer sabes, tu cidade que escreves na minha pele e fazes brilhar os meus olhos como pirilampos na noite, não deixes que os homens te matem. Protesta. Protesta sempre, para que sejas eternamente jovem. Para que seja sempre primavera.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Blanca e radiante vai la nobia...


Tinha a fortuna no seu sorriso, e a delicadeza doce da sua voz como trunfos na vida e no trabalho. Um dia um homem tentou desviar-lhe a rota da vida e trocar-lhe as coordenadas. . O seu livro da vida, falou-lhe sobre o amor e principalmente sobre o amor correspondido . Naquela hora, naquele dia, ela fixou-se no poder do silêncio e teve medo do desconhecido. O seu livro fazia-a acreditar que o amor não tem cor nem forma e que se tece no dia a dia independentemente do tempo ou da distância que a separava das palavras. Era em silêncio que acreditava nas histórias de amor. Dizia muitas vezes não haver príncipes encantados. Rosilene é um mulher de longos cabelos castanhos, com uma voz encantadora, e a beleza das mulheres que aprenderam a esperar pelo amor sem esperar nada. Até áquele dia, vivia feliz e isso bastava-lhe. Talvez um dia viesse a amar verdadeiramente. Foi nesse dia que ele se dirigiu a ela e meio mole, cerimonioso, estendeu-lhe a mão e cumprimentou-a. Começou a falar-lhe das suas actividades como cliente do banco e, ela indiferente, fixou-se no perfume das palavras que tiveram o condão de lhe abrir o coração como uma flor ao sol. Guardou as palavras dentro de si. É partir daqui que a verdadeira história de amor começa. Ainda tem o primeiro ramo de flores preso no coração, As flores generosas e simpáticas que levavam até ela o perfume de um amor mantido a kilómetros . Um amor feito de idéias, de sonhos, de esperança e de muitas cores. Um amor cheio de projectos, quase adolescente, intenso puro e quase perfeito que nessa altura já não precisava de palavras. Era um ato de fé, uma manisfestação de esperança, como o plantar de um semente no inicio de uma nova vida. Dia 23 de Abril branca e radiante ia a noiva, selando esse amor, num beijo longo e profundo.Sentiu nessa hora uma fábrica de borboletas no estomago e vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Cumpria-se o sonho. Os seus olhos nesse momento brilhavam como duas estrelas e o seu coração parecia querer adormecer na lua.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

As voltas do coração


Um coração como o meu, tímido e rebelde, carinhoso e aventureiro mas ao mesmo tempo rebelde e selvagem, viveu paixões, teve desenganos e encantamentos, e tantas vezes planou como uma borboleta por cima de um campo de girassóis. Foi muitas vezes um coração simples, carente de afectos que fez dos poemas a seiva com que se alimentava. Foi tantas vezes resistente e duro como o aço, e outras débil, de papel, frágil. Foi um coração que sempre se entregou ao longo da vida a outros corações partindo e repartindo sonhos e ilusões. Tantas vezes coração apaixonado que dava e aceitava amor com sofreguidão desmedida ou retraido e medroso. Foi muitas vezes um coração sem nome outras um jornal de parede aberto até á saciedade. Um coração que gravitou tantas vezes incógnito em volta de si próprio na vã esperança de alguem o acarinhar. Foi coração de pai, de mãe, de irmão a quem tantas vezes aqueceu as noites e refrescou os dias. Sentiu a tristeza para lá da solidão, e algumas vezes o afecto no meio da multidão. Tantas vezes coração pensante nas noites vazias de uma qualquer rua a fugir do encontro com a sua própria vida. Coração feito nas saudades de uma qualquer guitarra tocada numa qualquer viela de uma qualquer cidade, lembrando-se de amores apertados nos braços sempre fugidios. Coração cujas cicatrizes se esbatem nos anos de vidas agitadas ou se acalmam no calor de um simples beijo. Coração que arde no peito ou no orgulho e, que tantas vezes foi feito de mel escorrendo entre os dedos de alguém. Namorou ao luar, bebeu coca-cola, riu e chorou e um dia pensou calar-se. Não era ainda o dia. Era necessário viver uma paixão até ao fim. E ao meu coração tímido e rebelde, carinhoso e aventureiro, rebelde e selvagem, ordenaram-lhe de novo que fosse dono da sua própria vida.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O horror de uma manhã incompriensivel

Era uma vez uma escola onde os lápis corriam por sobre as folhas de cadernos coloridos. De sorrisos e cabelos ao vento crianças felizes preparavam o futuro de um Brasil criado para elas. Era dia de estudar matemática, dia de mais uma vez correr, saltar e confraternizar.No fundo era mais um dia para a afirmação de um ideal. O ideal de crescer em segurança e de se afirmarem na caminhada por um mundo melhor contruido na solidariedade e no amor ao próximo. Longe, muito longe de pensarem noutra coisa do que não fosse todos se voltarem a reunir á porta da sala de aula esperando pelo toque da campainha, que mais uma vez, soaria para o inicío de mais um dia de formação. O professor deu os bons dias. As crianças sorriram.Incompriensivelmente pela última vez. Paz à sua alma.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A Noite


Esta noite decidi vaguear pela cidade. Nas ruas desertas á procura do nada, numa floresta de betão duma qualquer cidade. Todos parecem dormir. Não há movimento nas ruas, contudo os sons são muitos. A lua acompanha os meus passos , projectando no asfalto a sombras fantasmagórica do meu corpo. Uma ligeira neblina vai caindo sobre a cidade tornando-a ainda mais misteriosa. Paro diante de uma montra de uma rua indiferente ao frio. Aos poucos os meus pensamentos chegam a ti e comparo o cintilar das estrelas ao brilho dos teus olhos. Diante da quela montra pareço distinguir a tua silhueta e sinto vontade de desenhar um coração no bafo que se fixou na vidro com a minha respiração, e dentro dele, escrever o teu nome junto ao meu. Sei que num repente o vento e o frio levarão o coração para lá das estrelas. Agora na solidão da noite parece que nos tocamos sem mexermos os pés interrompendo o curso do silêncio num espaço que é o das palavras. Entro no bar. Sentada a uma mesa está uma jovem. Fixo o seu olhar e detenho-me da palidez da sua pele, e no movimento suave das suas mãos. Bebemos, olhamo-nos. Fixo o seu rosto. Hà duas rugas, finas mas seguras, que emulduram o seu nariz. Lá fora os sons da rua voltavam recomeçavam lentamente. Lá fora, a cidade erguia-se de novo nos olhares dos homens que caminham sózinhos na noite. Dentro, no quarto, as nossas mãos encontram debaixo dos lençois. Através delas contámos um ao outro o que não pederia ser dito por palavras. De mãos dadas, sob a respiração, a luz da noite, e os sons da rua, recuperámos a nossa própria pele ao frio e, arrancando todas as cordas que nos prendiam voltámos a amar-nos de novo.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Aquela rua a caminho do castelo


Lembrei-me hoje da minha rua. Da rua onde nasci e onde dei os primeiros passos. Da rua onde brincava e sorria. A rua D.Vasco era e ainda hoje é, caminho obrigatório para o castelo da minha cidade. Rua de tantas histórias e de tantos acontecimentos ,onde o quotidiano dos moradores era constantemente sobressaltados, pelo pisar dos cascos dos cavalos da Guarda Republicana e pelos gritos da criançada nas touradas improvisadas no alto da rua. A manhã era constantemente invadida pelos odores das fornadas de pasteis de nata que o senhor Barros fabricava como ninguém. A meio da rua o papagaio da Cristina dava os bons dias aos transeuntes e o matraquear do martelo na sola anunciava mais um dia de trabalho para o Luis sapateiro. Era um rua castiça. Não raro era o dia que não se ouvia a gaita do amolador de tesouras ou os pregões do Caetano a anunciando o leite do dia. Era hábito de casa, a minha avó Anica me levar á barbearia do Xico Matias, situada na quina da rua, para aparar a franja quando entendia que ela já me tapava os olhos, e ainda hoje, relembro o cheiro da brilhantinha com que o barbeiro me deixava de marrafa direitinha. As tardes eram passadas de olho atento no chegar do Chico Bomba, o dono da mercearia e da padaria que nos enchia de rebuçados e de bolachas maria. Rua de tantos sonhos e de tanta lágrima. Rua de pedras que contavam histórias e faziam história. A rua de D.Vasco sempre foi uma rua cosmopolita de portas abertas a quem rumava ás muralhas e, de conversa franca dos moradores. É uma rua que ainda hoje preserva as suas caracteristicas arquitectónicas e continua a guardar sonhos, amizades e ambições. Rua florida do mês de Maio e dos arquinhos e balões do S.João cheirando a manjerico pelo S.António. Era na minha rua, sentado na janela da avó Maria que eu extasiado via todos os dias o Buick do Marques dos Santos subir a rua em direcção á garagem. Hoje a rua tem restos de outras vidas recordações de outras eras.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Para lá das nuvens


Dizia Fernando Pessoa de que “ O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade em que elas vivem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. Fernando Pessoa de certeza que escreveu isso para vc. Para vc que me obrigou a descobrir que não estava sózinho, para vc que me fez descobrir a sua indispensabilidade na minha vida. Foram os ventos que me trouxeram de lá do outro lado do mar que me deixaram no caminho que me levaria a amar-te. Inexplicável?....talvez. O sobressalto de uma existência e a paz interior de cada um de nós empurrou-nos para a busca da felicidade que hoje vivemos. Inexplicável?...não acho , porque hà coisas que acontecem na hora exata. E as nossas coisas aconteceram no momento exato. Porque o amor foi maior. Porque o amor e a amizade dominaram o coração e o espaço. O coração de nós dois o espaço do nosso encontro. Ao longo destes quase cinco anos aprendi a conhecer-te, aprendi a amar-te. Quero que saibas que viver a teu lado é no fundo seguir o raciocínio de que as estrelas sempre respeitaram o brilho da lua, ou seja, as estrelas que iluminaram o meu caminho até vc minha lua morena e nua foram fieis cumpridoras dos designios de muitos sonhos guardados. Jà tivemos momentos de desânimo, percalços ao longo deste caminho nada fácil, contudo sempre soubemos solidificar a nossa amizade e reforçar o nosso amor. O nosso primeiro beijo foi dado pelos olhos, através da janela aberta sobre este rio que ambos amamos. Depois foi preciso coragem para colher a flor de espinhos estendida ao longo deste caminho que nos levou até Setembro. Melodias que têm rasgado silêncios, silêncios que têm contido as palavras neste percurso de amor feito de compreensão. Amar-te é viver neste rio de paixões. Amar-te é viver para lá das nuvens.

quinta-feira, 24 de março de 2011

É sempre o mesmo fado

Fixo o relógio...são duas da madrugada,
Escrevo,leio,olho o tecto, tento adormecer.
Me enrosco,me viro,me cubro...e sono nada,
Irra.A noite passa, e vejo o dia nascer!

As tuas noites


Cai a noite. Faz-se um silêncio do tamanho do medo á nossa volta. O teu rosto sereno dobra um a um os cansaços da noite. No vicío do luar que nos envolve deixas um incêndio por apagar, e um rio de marés vivas na minha pele. Olhando-te invento sorrisos e volúpias, e sustenho a respiração num ritual de sentidos contidos. Olho-te de novo, e como se deixa-se passar uma chuva de girassois entre os meus dedos, descubro a vertigem de um amor incontido. Começa a chover na noite. É uma quarta-feira de uma noite fria. Uma noite inventada num tempo sem pressas. Olhando o teu corpo sinto uma ânsia incontida que me vem de dentro da alma e que doi. A tua boca entreaberta deixa transparecer o sabor dos beijos por dar, das palavras por dizer. É noite. Continua a chover. Passo as pontas dos dedos pelos teus cabelos , sinto o sopro quente da tua nuca e os murmúrios de todos os meus desejos. O tempo vai-me engolindo para lá do absurdo, deixando as marcas da solidão de uma noite chuvosa e fria. Olho-te. E no silêncio dos meus dedos sinto a humidade dos toques tangentes de fúria e desejo. Na penumbra do quarto afundo-me no teu abraço enquanto mergulho no castanho dos teus olhos. No quarto, volto a ouvir o grito calado da noite, e as bategas da chuva na janela. E neste rio quente de desejo com cheiro a maresia, neste minuto íntimo de espera, neste suor de calma aparente, deixo cair as mãos, primeiro uma depois a outra, na pele sedosa do teu corpo, sentindo o calor vermelho do teu sangue quente, misturando-se com a meia noite da ponta dos meus dedos. Abraço-te. Deixo a madrugada chegar com o cheiro quente da nossa intimidade e os pecados da lua cheia deixados para lá dos campos de girassois.

domingo, 20 de março de 2011

Aos meus amigos


A amizade não se compra, não se aluga, não se empresta. A amizade vive-se e sente-se. O valor da amizade não se mede pelo tempo que dura mas pela intensidade com que se vive. Hà momentos ao longo da nossa vida, que são marcos importantes e inesquecíveis e que jamais esqueceremos. Um dia afastamo-nos, deixamos de ter contatos, ou pura e simplesmente deixamos de existir mas , uma verdadeira amizade perdurará no espaço e no tempo. Hà pessoas que passam pela nossa vida, que deixam um pouco de si. Um sorriso...uma palavra ou simplesmente um gesto que acaba por nos ligar a eles. Tenho tido a felicidade ao longo da minha vida de ter bons e fieis amigos. Amigos a quem tenho deixado um pouco do meu saber, da minha tristeza, da minha alegria, da minha maneira de ver a vida. Relembro o companheirismo vivido, as descobertas que fizemos bem como as angústias repartidas.Tenho passado por momentos dificeis nos últimos tempos e sempre os amigos me deram conforto, me deram palavras de esperança suficientes para que ultrapassa-se esses momentos com menos angustia. Sou daqueles que reconhecem a importância das pessoas que têm passado pela minha vida e que sempre demonstraram a sua amizade. Que me têm aclamado nos sucessos, que me têm dado palavras de alento nos insucessos e, que me têm perdoado nos meus erros. Reconheço o amigo que sofre por mim, que chora por mim e que ri comigo. Com todos eles tenho procurado ser o cumplíce de todas as horas e o companheiro a quem tenho emprestado o ombro para melhor sentir as suas desilusões ou dado o meu abraço para felicitar nas suas conquistas. Hoje é o dia ideal para escrever sobre a amizade, porque acredito ,que para lá da estrela que todos os dias ilumina o meu caminho existe a solidariedade suficiente para não me perder no espaço e no tempo. De certeza que vou continuar a ver os meus amigos rir comigo e sofrer comigo. Obrigado a todos por fazerem parte da minha vida. Na pessoa do Valério o abraço a todos eles.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A vida ...de um sonho


Corria uma ligeira brisa na muralha. No meu universo imaginário áquela hora de fim de tarde, proliferavam mil e um pensamentos, mil e uma conjectura sobre o rumo a seguir. Olhava o infinito e dava asas ao sonho. Para lá do mar, lá longe onde o céu se confunde com o horizonte, acreditava existir o alimento que me satisfaria a vida, o lume que me aqueceria o corpo e a magia que me fortificaria a alma. A minha vida naquele momento passava pelo sonho. Senti as tuas caricias e decidi caminhar ao teu encontro. Atravessei mares, percorri rios, subi montanhas. Deixei-me levar pelo imaginário num rio enorme de imagens tuas. Pelo nosso rio. E a brisa que me acarinhava na muralha, sinto-a agora na amurada do navio. Escuto a tua voz doce de menina, meiga...rouca, e sinto o calor do teu corpo no meu peito. Ao longeas pontas das árvores na floresta parecem acariciar o céu com ternura. De mãos dadas, naquele fim de tarde, assitimos ao sol tocar lá ao longe as águas do rio. Fez-se noite. No rio apenas o sussurrar da floresta nos acompanha naquele beijo longo e silêncioso. E a noite foi nossa companheira unindo os nossos corpos numa viagem sem fim. Já o sol nascera na madrugada quando o suor deixou de encontrar caminho pelos nossos corpos e o rio sorria. Ouvia ao longe de novo o sussurro da floresta e bem perto o bater de um coração...o teu.

sábado, 12 de março de 2011

Porto Velho...Uma cidade na floresta


“...Senhores passageiros com destino a Porto Velho é favor dirigirem-se ao portão de embarque nº4...”. Manaus começou a ficar pequeno visto lá do alto. O avião da Trip tinha levantado voo com destino á Rondónia. Lá em baixo o rio Amazonas e a floresta eram a companhia, cá em cima a meu lado a minha sobrinha Ju parecia demonstrar algum cansaço. Não era de admirar depois do estágio forçado de seis horas na gare do aeroporto internacional de Manaus. A noite tinha sido longa, muito longa, mas o desejo de nova aventura e a vontade de a abraçar a Rose e o Jaime compensavam, e bem, o incomodo da permanência em Manaus. A viagem foi tranquila e Porto Velho começou a aparecer por sob a janela da aeronave. Recepção calorosa do jaime e da Rose a que só faltou a banda de música. Porto Velho, capital da Rondónia, é uma cidade de 300.000 mil habitantes situada nas margen direita do maior afluente do Amazonas o rio Madeira. Rio Madeira que aliás desde os primórdios da fundação da cidade tem tido papel importante ao longo do século de existência da cidade não só no seu desenvolvimento económico mas também no seu desenvolvimento urbano. Construida por força da forte acção do desenvolvimento económico a que não é alheia a exploração da industria da borracha, Porto Velho é hoje uma cidade moderna em pleno desenvolvimento. Cidade multifacetada e multiracial, Porto Velho é o espelho do desenvolvimento económico do Brasil de hoje. O Jaime levou-me a visitar a cidade, os shopings, os restaurantes e como eu esperava aquele que é hoje o maior investimento do governo brasileiro na região, as obras da barragem de Jirau. Fiquei encantado com a visita. Percorri as obras, conheci a grandiosidade do investimento, e naturalmente apercebi-me da capacidade de realização da empresa que constroi a Barragem de Jirau, a Camargo Correia. A visita terminou da melhor forma com um almoço no refeitótio ( onde são servidas diáriamente cerca de 40.000 refeições) das instalações sociais da Camargo Correia. Cidade rectilinea e bem tratada, Porto Velho fervilha nas horas de ponta com o movimento anormal que o desenvolvimento sempre provoca nas cidades onde o futuro parece estar garantido. A agricultura e a pecuária são as alavancas do progresso no Estado. Na cidade o terciário é uma importante vertente de uma cidade que aposta no modernismo. O único senão da minha estadia nesta cidade foi a constante nuven de fuligem que sobrevoa tudo e todos. As queimas dos canaviais do Mato Grosso provocam aqui um mal estar consentido. Foram dias agradaveis passados numa cidade onde não me importaria de morar. Obrigado cunhados por esta oportunidade de conhecer mais um pouco do vosso e meu Brasil.

segunda-feira, 7 de março de 2011

8 de Março....para ti


Para ti que trazes beleza aos meus dias,
que me incentivas e repreendes.
Para ti que és companheira, amiga e amante,
que choras e ris.
Para ti que lutas e trabalhas,
e vences o cansaço com coragem.
Para ti que és uma mulher especial,
que amas e sonhas.
Para ti que és frágil e poderosa,
que lutas pelos teus ideais.
Para ti mulher guerreira e doce,
que brigas e acarinhas.
Para ti que me acompanhas na alegria e doença,
que és ao mesmo tempo ingénua e sedutora.
Para ti que tens a força de ser mãe,
o carinho de ser esposa, e a paixão de seres amante.
Para ti Mulher de uma vida,
Feliz Dia Internacional da Mulher

sábado, 5 de março de 2011

O primeiro beijo...em Belém



Nos momentos que antecederam o pouso do avião em Belém, respirei fundo, fechei os olhos e pensei em ti. A primeira imagem foi o teu sorriso a perdurar para lá da vidraça do aeroporto. Era outono, com um suspiro olhei as tonalidades á nossa volta, e na vastidão da cidade adormecida reinventei a cor do amor oferecendo-te o meu sorriso, a minha memória, os meus sonhos. No taxi que nos levou do aeroporto ao hotel, entre o barulho do vento e o sobressalto de um trovão atei as minhas mãos ás tuas, senti nos teus lábios o sabor da pele salgada a nas nossas mãos a humidade do orvalho das madrugadas. Os teus cabelos cheiravam a violetas e navegavam no meu rosto ao sabor do vento. Nas costas senti o beijo frio da brisa que vinha através da janela meio aberta do táxi.O banco traseiro foi colchão improvisado para o nosso primeiro beijo. Mostrei-te, timidamente, as tonalidades liquidas da minha alma. Os meus olhos desenharam flores nos teus, bem lá no cimo junto á lua que nos acompanhava na viagem. Fechando-os iria jurar que via o arco-irís, e que para lá dele avistava as gaivotas voando no céu azul. Depois foi a volúpia azul da maresia nos nossos rostos, o cheiro dos restaurantes das docas, o perfume das flores da marginal e, as orações á Senhora da Nazaré. Hoje ainda sinto as tuas mãos nas minhas, os teus lábios nos meus e, da mão que tremia quando esvoaçava ao encontro da tua. Lembro a noite comprida do primeiro encontro, a palma da minha mão tocando lentamente o teu corpo e o êxtase daqueles momentos sublimes. Hoje, sinto quatro anos depois, que o meu coração é teu.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A cana...o açucar e a nova experiência


Maringá,14 horas. A Nilce afivelou o cinto de segurança do jeep e lá fomos a mais uma descoberta. Tinha uma ideia vaga de como seriam os canaviais. Surpeendeu-me a imensidão. O sol envergonhado, naquela manhã chuvosa ajudou a desbravar caminhos. Sómente o engano da Nilce na rota para a usina veio baralhar. Aqui e ali raios de sol rasgavam os canaviais e deixavam ver o serpenteado da estrada. As borboletas coloridas ensaiavam um ritual estranho dançando em circulos mais ou menos regulares á nossa volta. A chuva parou. O céu cabia inteiro numa poça de água e os pássaros voavam á nossa volta quando chegámos ao nosso objectivo. O Wilson simpático Director da usina compartilhou connosco o seu tempo dando-nos as boas vindas e as primeiras explicações sobre o cronograma da empresa e os seus objectivos. Um video ajudou a perceber a grandeza da Usacucar. 8 usinas fazem parte do grupo da familia Meneguetti. A visita iniciou pelo laboratório da usina. Testa-se a qualidade do açucar, a graduação do alcoole, e as demais vertentes para o plantio da cana. O Engº Director de Produção foi simpatiquitissimo connosco explicando as várias fases da produção. Desde as enormes bocarras que engolem a cana para triturar , até aos tanques de recolha e armazenagem é um mundo de ferro e aço. Pareço sentir ainda na ponta dos dedos o cheiro da cana esmagada. Um rio interno de melaço percorre um sem fim de tubagem até aos tanques, e uma enorme central de produção de energia garante á unidade total independência quando a mesma está em pleno funcionamento. A maioria da produção anual de açucar vhp é para exportação. A automatização e um quadro de colaboradores altamente especializado honra o passado, e certamente garantirá o futuro da empresa. Esta visita á Usacucar foi mais uma lição de vida. O meu muito obrigado a todos os que me proporcionaram aprender mais um pouco

Fado é amor



Como explicar aos meus amigos brasileiros que fado é amor. Que fado é saudade. Que fado é destino. Um dia destes explicava numa rodada de amigos, que ouvir cantar o fado é sentir a emoção e o sentimento. Ao cantar o fado fecham-se os olhos, olha-se para dentro, sentem-se as emoções. O fado dizia eu ao meu amigo, é uma canção que representa , dizem, a alma portuguesa e canta o seu destino. Ele concordou, sem contudo de me perguntar porquê uma cançao triste na maneira de ver dele. Os sentimentos, os desgostos de amor, a saudade da terra quando se está longe, e até mesmo a alegria de um regresso programado são motivos para serem cantados no fado. O fado era e é um simbolo português. Hoje é uma música do mundo e é escutado em silêncio por platéias embevecidas. O fado continua por isso, contra os seus delatores, a projectar Portugal para além das suas fronteiras e a levar a cultura portuguesa um pouco por todo o mundo. Ouvir o fado á luz das velas, no silêncio de uma viela lisboeta é uma experiência única. Silêncio...tocam as guitarras. Vai-se cantar o fado!

quarta-feira, 2 de março de 2011

Saudades do Brasil em Portugal


O sal
Das minhas lágrimas de amor
Criou o mar
Que existe entre nós dois
P'ra nos unir e separar

Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração
Nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal

Meu bem
Sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi

Vinicius de Morais/Homem Cristo

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Janelas


Da minha janela vejo tudo. Vejo o mundo, vejo a rua, e vejo as flores da tia Matilde. Da minha janela vejo o Zé pular a janela da Rita nas noites de lua cheia e como sempre, fico a olhar com ansiedade a tua. Á espera de te poder ver. Á espera de te poder rever. Como lembro as flores por baixo da tua janela onde um rouxinol deixava as melodias que nos faziam sonhar. A tua janela bem na frente da minha era muitas vezes fonte da minha inspiração. Era por ela que eu tentava imaginar-te naquelas noites em que te refugiavas do mundo e de mim. Relembro as noites em que as melodias do fado te contagiavam em serenatas de nostalgia. Foi sempre através da minha janela de madeira escura ,que o teu beija-flor me vinha trazer as tuas mensagens perfumadas. Era tambem através da minha janela que te enviava os sinais que serviam de elo de ligação aos nossos encontros. A tua janela tinha o poder do silêncio, a minha, a convulsão da ansiedade. Duas janelas que o destino não quiz juntar. Talvez a distância entre as duas tivesse sido o obstáculo á concretização do amor. Sempre pensei que o amor não tinha forma, cor, ou que era transparente. Enganei-me. O tempo e a distância matam o que deveria ser eterno. A tua janela deveria ter ficado mais perto da minha. Os teus lábios mais perto dos meus. Adorava ver os teus cabelos negros esvoaçarem sob a brisa quando nas noites de luar te debroçavas na janela. Isso bastava-me. Talvez te ama-se, nunca pensei sériamente nisso. Tentava de longe ler-te a alma procurando que aos poucos o teu coração se fosse abrindo e que derradeiramente se prende-se a mim. Sempre esperei que os teus olhos se abrissem como uma flor ao sol, esperava-te sem esperar nada. Eu ficava-te olhando, com um olhar cheio de nada. Um dia senti um arrepio na espinha, a janela fechou-se. A minha e a tua...pra sempre.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Douro...a minha paixão



Meu Douro, meu amante meu encanto, que em cada regresso vejo-te sorrir e iluminar os meus dias enchendo-me a teu lado de felicidade. Juntos já vivemos momentos intensos. Rimos e choramos. Abraçámo-nos com o conhecimento do céu, cheirando a terra na primavera e adocicando os lábios no Outono. Meu Douro dos poetas, dos apaixonados e dos sonhadores. Quantos misturando os sons do amanhecer nas tuas montanhas juraram amores impossiveis ou derramaram lágrimas de sofrimento. Meu Douro dos vinhedos sem fim que me faz flutuar nesse imenso oceano de verdes tonalidades, que abraço em cada curva com sofreguidão serena. Meu Douro dos contornos impossiveis , onde os homens em momentos de fé e esperança, fazem novas promessas á vida. Quando percorremos os teus caminhos, sentimos o calor encher-nos a alma fazendo-nos imaginar e desejar o teu sabor. Meu Douro, meu amante, minha paixão , meu Douro de tonalidades brilhantes e insinuantes, que aos fins de tarde mistura aguarelas de mil cores. Meu Douro da fadiga e do suor humano cuja vida ingrata nem por isso deixa de fazer sorrir de prazer seus habitantes. Meu Douro encantado das vindimas e do vinho, dos passeios pelo rio e do cheiro a perfume. Meu Douro romântico das festas e romarias e do prazer de receber bem das suas gentes. Meu Douro de rio e pedra, da neve das amendoeiras e do azul dos teus olhos. Meu Douro meu rio meu encanto, de espectaculos visuais memoraveis em cada curva do teu curso. Meu Douro de evasões e perdições vou espreguiçar-me nos teus braços para sonhar acordado e o silêncio me responder de novo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Alentejo...meu irmão


Manuel Justino Ferreira, nasceu em Portugal no Alentejo , na minha cidade, Montemor-o-Novo em 1928, homem de mil actividades dedicou muito da sua vida á cultura, nomedamente como poeta , músico, radealiste e actor de teatro. Participei com ele em algumas destas actividades onde criámos forte amizade. Faleceu em Outubro de 2002. Só depois da sua morte um grupo de amigos viria a publicar um livro com os seus poemas . É desse livro, “ Poeta que parte...Poemas que ficam “, e em sua homenagem, que extraí o poema que deixo no meu blog. Oportunamente darei a conhecer outros poemas do mesmo autor.

Tem nos olhos um sol posto
A despedir-se da vida!
Cada ruga do seu rosto
Foi uma esperança perdida!

Ficou deserta a aldeia,
Até o ribeiro secou!
Mar d'angustia em maré cheia,
Onde o futuro naufragou!

Do velho monte sem porta,
A solidão é vizinha...
E nos canteiros da horta,
Só cresce a erva daninha!

Alentejo...imensidade,
Respirando quase a medo!
Alentejo...liberdade
Para viver no degredo!

Minha açorda de poejo,
Meu bolo de requeijão!
Meu velho, meu Alentejo,
Meu poema...meu irmão!