quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Maringá........terra de mil perfumes


Viver em permanente contacto com a natureza, sentir a aragem doce dos ipês e, fixar o sorriso e o encanto dos seus habitantes, faz o visitante querer se fixar aqui. Cidade do noroeste do Paraná, Maringá cidade recente e sábiamente planejada, deixa antever de imediato que a qualidade de vida é o segredo de quem deixa todos os dias o portal de casa para se embrenhar pelas avenidas arborizadas e bem tratadas. Cidade verde como é conhecida, em Maringá a paixão pelas árvores e pelo bosque cruza-se connosco em cada recanto. Fresquinha quando o calor aperta e aconchegadora quando o vento faz tremer o arvoredo. No fim do verão, antes das primeiras chuvas,as tonalidades da vegetação convidam-nos a espreguiçar os olhos ao longo das ruas. Se olharmos atentamente vamos descobrir em cada recanto uma ponte para o paraíso. Uma passadeira colorida que nos deixa anestesiados com o perfume que exala dos canteiros floridos e que impossibilita que o azedume dos homens manche o perfume que exala das pétalas das flores . Em Maringá o forasteiro interage com a natureza em cada esquina das ruas traçadas ao longo dos bosques e que a catedral de Nossa Senhora da Glória vigia lá do alto do seu pico esbelto a tranquilidade dos seus habitantes. Maringá a doce, transformada pelo suco dos canaviais. Não há como deixar de nos encantarmos com este recanto da natureza, onde a consciencia pela preservação cheia de detalhes, leva a alma humana a lançar um olhar mais amoroso por tudo o que nos cerca. À Nilce o meu obrigado por me permitir conhecer mais este belo recanto do seu país.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal....de novo


Vamos entoar Graças a Deus.




Poema de Natal








Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Na minha cama...de volta á vida num dia de chuva

As sirenes quebraram o silêncio daquela madrugada de 5 de Outubro. Desde muito cedo que a azáfama no centro cardio-toraxico de Coimbra se faz sentir. 5;30 da manhã. Chegou a hora de acordar de um sono preparado para descansar.A sala de cirurgia está preparada faz tempo. O tempo agora é um contra-relógio para a simpática enfermeira que me prepara para uma viagem anunciada em Setembro. Pelo a pelo, sem apelo o peito fica como eu nunca o vi... pelado. Na sala deduzo que médicos, enfermeiros e auxiliares estão ás voltas com anestesia, bisturis, pinças e mais pinças e todos os intricados aparelhos que me acompanharão na viagem.Sou sedado.Fixo o olhar no tecto da sala e relembro pouco depois o caminho até ao elevador. Depois...depois a manhã torna-se fria e silenciosa.O alvorecer do novo dia em Coimbra terá o meu coração nas mãos e a experiência e o saber do Prof. Manuel Antunes a condução da tarefa de me levar a porto seguro no fim da viagem.6 horas depois é o caminho para a UTI para recuperação. Aparelhos e mais aparelhos são me ligados, entubado e enfaixado feito uma múmia, nas vivo, não dou pelas mãos da Néia que coladas ás minhas e com os lábios no meu rosto tenta passar-me um pouco de vida.Foram breves momentos, os suficientes para um sonho imaginário ao sabor dos seus olhos e dos seus lábios.Não sei por quanto tempo vaguearam os meus pensamentos e as minhas alucinações. Sei da acalmia que me provocou a doçura dos seus olhos e do sentir no meu rosto o vento que imaginei vir do mar enchendo-me de verde o coração.Sinto os lábios secos e doi-me horrivelmente as costas. Abro os olhos lentamente. Fiquei ali por uns minutos seguidos num silêncio feliz. Estava vivo. Reparei no sorriso e no olhar de uma amplidão infinita cheio de esperança do Rogério , meu companheiro de quarto. O vento lá fora continuava assobiando como trinados de cordas de viola e a chuva continuava a cair. Parecia que o tempo tinha parado por momentos e eu tinha voltado de uma viagem sem destino. Só as palavras da enfermeira Cristina me fizeram voltar á realidade..." salte da cama...a cama só serve para os doentes e vc ta sao que nem um pero"...a gargalhada do Rogério e o sorriso da Néia entrando no quarto foram anestésicos para saltar da cama e rumar a uma nova vida.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Pitu - O pequeno Indío (continuação)

Lá estava ele, saltando no rio e para o rio, Gabiru o boto rosa tinha respondido ao apelo do amigo, rodeou a canoa, encostou o bico ao casco e empurrou...fez-se com o amigo ao rio e á aventura. “ ...quero acreditar Gabiru que no fim do rio o destino vai marcar o meu tempo...” suspirou o pequeno indio. Ainda não tinha acabado a frase e um estridente piar fez Pitu voltar a cabeça. Um enorme sorriso voltou a aparecer no seu rosto. Era Deuzinha a sua amiga arara que queria tambem participar na aventura. Deixou-a pousar no seu ombro e ternamente beijou-lhe a cabeça.
Enquanto a canoa deslizava rapidamente no rio, Pitu olhava o arvoredo das margens e procurava ficar atento ao chilrear dos pássaros e ao movimento dos animais. Olhou de novo o rio, encheu os pulmões com o mesmo ar que o acordava todas as manhãs e deixou pela última vez cair as lágrimas da saudade junto ás folhas que caiam das árvores da floresta e acompanhavam o rasto da canoa. O rio à medida que avançavam, tornava-se mais abrangente...parecendo os querer abraçar à medida que a canoa sulcava as suas águas esventrando as suas entranhas. O seu caminho estava traçado, aliás o caminho deles, o dele de Deuzinha e Gabiru.
Quantos momentos assim de ansiedade ainda iria viver? muitos talvez. Até ali a sua vida tinha sido do tamanho de um coco. Metade dele tinha sido a partida, a outra metade a saudade. A partida dolorosa. Depois foi o voltar a acreditar que quando se concretiza o que se sonha nunca se perde. E ele ali estava rio abaixo á procura do seu arco-íris.
Deuzinha piou e Gabiru deixou de empurrar. Tão absorvido até esqueceu a fome. Encostaram na margem e mais uma vez a floresta como em tantas outras vezes iria servir o banquete do almoço. Gabiru pescou no rio enquanto Deuzinha pescava nas ávores. Foi lauto o almoço e curta a sesta. Era necessário navegar. De novo o rio como estrada que empolga e extasia no reencontro com a própria vida...no reencontro com o momento. Quanto faltará para abraçar o horizonte?...uma mão cheia de dias?...uma mão cheia de desejos?...uma mão cheia de olhares?...questionava Pitu.
Indiferente a estas preocupações Gabiru continuava a empurrar a canoa e Deuzinha vigiava o arvoredo na descoberta de movimentos. Subitamente o rio alargou. Um mar de água surgiu á frente dos três amigos. “...e agora?...” pensou Pitu. Gabirou saltou e com um gemido acalmou o amigo. Ele iria de novo descobrir o caminho certo.
O Amazonas em toda a sua magnitude metia medo. Pitu olhou o rio e sentiu um apelo seu para se refugiar nas suas ondas e se acalmar no verde da sua selva. Acreditava que o rio o levaria ao porto seguro dos seus sonhos, e sorriu. Que o tempo nunca mais pare para mim, sentenciou Pitu. A hora era de acreditar. A hora era de avançar sem receios.”... Procuro por todo o lado o futuro, e sei que o vou encontrar de braços abertos à minha espera...”, reafirmou Pitu.
Os três amigos repararam que nas margens do rio começavam a haver vida. Casas de madeira e fumaça saindo do seu interior. Como eram diferentes das ocas da sua aldeia pensou o pequeno índio. Quem viveria lá, índios como ele? Não quis resolver logo ali a sua curiosidade. Teve receio da animosidade dos ocupantes das pequenas casas. Era melhor seguir viagem.
Descer o rio era uma obsessão, abraçar o horizonte a meta da jornada. Pitu sentiu-se nesse momento espiritualmente reconfortado, tinha orado a Deus como a mãe lhe ensinara e sentira que tinha sido ouvido. Algo ou alguem lhe dizia que o destino estaria logo ali ao virar de mais umas margens.
Viraram a ponta das pedras e Pitu ficou estupefacto, dos céus um pássaro enorme de asas abertas rugindo, rugindo muito, preparava-se para pousar no chão. Que monstro seria aquele...porque faria tanto barulho? Pitu olhou os amigos e mais calmo disse-lhes que com mais tempo iriam averiguar e, quem sabe, montar uma armadilha para pegar o monstro. Pitu tinha um pressentimento que o fim da viagem estava perto. Há muito que vinha reparando que as casas nas margens tinham aumentado em quantidade e em tamanho.
Quando a noite começou a perder o rosto, e a madrugada despertou para um novo dia, a pequena canoa balançou subitamente. Pitu gritou e mergulhou no rio . Gabiru nadou até às profundezas, e Deuzinha de tanto dar ás asas perdeu algumas penas ao apressadamente tentar fugir do embate com a enorme lancha que vinha em sua direcção. Pitu nadou até à margem. Exausto na chegada, sentou-se na areia da margem limpou a água dos olhos e...quase caiu para o lado de espanto. “...que coisa era aquela enorme que estava à sua frente...”. A cidade estendia-lhe os braços. A orla com um movimento desusado deixava Pitu sem sangue no cérebro para pensar rápidamente como sempre fazia.
Nunca imaginaria que o seu sonho de tantas noites fosse um deslumbramento para os seus olhos e uma tão grande adrenalina para o seu pequeno coração. Enquanto Gabiru dava show com as suas piruetas estansiando os transeuntes, Pitu e Deuzinha subiram os degraus que os levavam ao abraço com o arco-íris. O neon do shoping center ainda brilhava ali mesmo à sua frente, obrigando a que Pitu deixasse rolar pelo seu rosto uma lágrima fugidia.
Era aquele o arco-íris dos seus sonhos. A mãe um dia deixaria de lhe chamar doidinho e acreditaria de vez que sonhar é fácil. Acreditar e concretizar os sonhos é que é dificíl.

Pitu - O pequeno Indío



Era domingo na floresta. Para Pitu era mais um domingo sonolento. A mãe como sempre fazia, chegou-se a ele e beijou-lhe o pescoço. Pitu recebeu aquele beijo doce e lento e acordou com um arrepio suspeito. Sua mãe como todas as mães sorria, e ternamente, estendeu-lhe a mão para o levantar. Havia trabalho a fazer naquele domingo. Pitu pensou como era bom que este domingo nunca tivesse nascido e o pudesse sumir do calendário. Levantou-se de um pulo. Estendeu a mão e, de uma vez , vestiu a tanguinha que a avó lhe fizera com tanta ternura.
Pitu era um menino ternurento mas eléctrico. Na aldeia todos admiravam a sua inteligência e auguravam-lhe um futuro de chefia. “...Vem Pitu...”, gritou a mãe, e ele visivelmente sorridente gritou que já ia. Saiu da cabana e olhou o rio, um sol abrasador logo pela manhã fazia o suor encontrar no seu corpo todos os caminhos.
As águas de muitos riachos, tal como há séculos, abraçavam o Amazonas e as nuvens naquele domingo armavam e desarmavam infindáveis afectos no azul celeste do céu. Pitu rejubilou. Chegou-se ao rio e suavemente passou água pelo rosto. Olhando atentamente as águas reparou, que elas não se privavam de dar vida ás imagens que nelas se reflectiam. E do seu rosto saiu aquele sorriso que cativava jovens e adultos da aldeia. Olhou de novo fixamente o rio e exclamou: “... O meu coração fala contigo vento do rio, pega na minha mão e leva-me a navegar..”.
O vento soprou baixinho como a dizer a Pitu que o rio hoje era dele. Pitu voltou a sorrir. A brisa paulatinamente foi tomando conta do espaço e do tempo. E a floresta naquele domingo, como em tantos outros, emanou sinfonias como a anunciar a Pitu que ali era a sua casa para sempre . Ficou pensativo. Pitu voltou a dar a mão ao vento e numa correria desenfreada procurou encontrar na selva o universo de novas madrugadas e de muitas mais aventuras.
Subitamente o pequeno índio resolveu ir floresta dentro á procura da arara Deuzinha sua inseparável amiga. De estilingue numa mão e com o medo na outra, subiu a uma castanheira. Num insondável mistério da natureza, Deuzinha num voo rasante poisou no ombro de Pitu como que adivinhando que o seu amigo precisava dela. A reluzente ave encostou a cabecita ao peito do seu amigo e sentiu o bater do seu coração.
Pitu embora habituado a trepar por tudo quanto era árvore, aquela castanheira lhe metia medo pelo seu porte imponente. Embora com medo, era ali que gostava de abraçar a floresta e mirar o rio. De olhos fixos no horizonte Pitu reparou, que para lá do rio um arco-iris dava os bons dias a todos. Sentiu subitamente uns pingos cairem no seu rosto. Começava a chover. As bátegas caiam numa sucessão serena e sincopada cada vez mais fortes cada vez mais intensas. Deuzinha meteu a cabeça entre as asas e Pitu aconchegou-se entre as folhas.
Era tempo de a mata se revigorar, os animais matarem a sede e a vida se fazer vida. Era tempo dos habitantes da pequena aldeia de Pitu, na sua intuição e sabedoria, se recolherem e acertarem com esta terra de seus ancestrais a próxima jornada. Pitu pensou como a mata funcionava para todo o mundo da aldeia como fonte inspiradora e catalizadora, e como o rio na sua infindável bondade dava de comer a todos. Parou de chover. Pitu tocou levemente as folhas da castanheira e sentiu o doce e fresco nectar da natureza como que beijando-o com encanto e magia.
Era hora de regressar á aldeia e ao rio. Caminhando entre as folhas num trilho coberto de musgo, Pitu sentia os pingos das árvores cairem no chão e nos seus cabelos. Deuzinha sacudia a cabeça vigorosamente para soltar a água do seu corpo. Enquanto passava a mão pela cabeça molhada Pitu no silêncio que subitamente se fizera na floresta pensava em como seria a vida para lá do rio, para lá do horizonte. Uma bicada de Deuzinha acordou-o para a realidade.
Voltou de novo a reparar em tudo o que o rodeava e, sentiu essa luz que na floresta enebria e seduz. A mata abanava ao sabor do vento acenando aos dois como anjos guardiãs da floresta indicando o caminho de regresso á aldeia. O sol projectava através dos velhos embuzeiros, sombras fantasmagóricas nos caminhos de musgo florido, servindo de tapete multicolor aos pés de Pitu.
Pitu e Deuzinha voltaram de novo ao sitio onde o rio dá a mão à floresta. Era hora de comer o tacaca que as mãos eximias da mãe já havia aprontado e de Deuzinha debicar a sua espiga de milho. A vida na aldeia áquela hora era uma mistura de mil cheiros que mobilizavam toda a gente. Pitu como sempre divagava. A região provoca alucinações funcionando como fonte de inspiração e catalizadora de muitos sonhos e, ele sonhava todos os dias e a todas as horas. O seu imaginário sobrevoava para lá do horizonte transportado em finas asas brancas numa obsessão de querer conhecer. Que haveria para lá das árvores?...onde o levaria o rio?. Mil perguntas e nenhuma resposta.
O sol voltara à floresta. Pitu na margem do rio acenava ao boto rosa, chamava-o com gestos vigorosos pois precisava dos habituais conselhos do amigo. Gabiru o boto rosa, nadou vigorosamente até à margem e com o bico afagou o rosto de Pitu. O pequeno índio subiu o dorso do amigo e os dois foram rio fora. Mergulho a mergulho as brincadeiras foram para lá das horas. Pitu só deu por isso quando o princípio da noite, depois de uma tarde bem quente, começou a deixar no rio reflexos que mais pareciam o cintilar prata das estrelas do céu.
Era hora de regressar a casa e ao regaço da mãe. Voltaram rápido à aldeia com a promessa de se verem de novo no outro dia. Gabiru rodopiou no ar e de um só salto mergulhou nas águas do rio. Pitu deliciou-se ao jantar com o pirarucu assado que o pai pescara poucas horas antes. Chegou junto à janela da oca olhou a lua e suspirou. O dia tinha sido longo e sentia-se cansado. Deitou-se na esteira. Recebeu um beijo da mãe e adormeceu.
Era para lá do horizonte, lá onde a água do rio se junta ao azul do céu que o pensamento do pequeno índio vagueava no sonho que começava a florescer no seu pensamento. Pitu agarrou a beleza do rio e da floresta, e sonhava. Embrenhou-se na selva de idéias que corriam ao sabor da brisa que entrava pela pequena janela da oca, deixando correr uma pequena gota de suor pela palma da mão. Vislumbrou os vultos que corriam no rio. Viu Gabiru, e desenhou nitidamente a canoa com que o pai diáriamente ganhava o sustento da familia. Imaginou-se dentro dela com o amigo empurrando com a ponta do bico. Uff que aventura seria ir rio abaixo descobrir o que escondia o horizonte. Agitou-se na esteira e mudou de posição. Ouvia nitidamente os gemidos que o rio deixava fugir e de imediato os associou ás princesas que nele habitavam e que o pai lhe sussurava ao ouvido nos contos das noites de insónia. Os sons do rio tiveram o condão de lhe acalmar a alma e sossegar o espirito. Pitu deixou de sonhar e adormeceu profundamente.
Pitu acordou cedo. Não esperou pela madrugada. Saltou da cama e fez-se ao caminho que tantas vezes o levava até ás estrelas. Parou junto ao rio. Olhou para traz e pulou na canoa. Olhou de novo o céu e reparou na nuvem passageira que tantas vezes tinha levado os seus sonhos para lá do horizonte, pediu-lhe protecção, e fez-se ao rio. Remou vigorosamente até ao meio e a corrente rapidamente o levou para longe. Começava ali a concretização de um sonho de anos.
Deixara uma carta em local visivel. Ela explicaria o porquê da viagem e da aventura, e evitaria que os pais o procurassem desesperadamente. Sabia no entanto que ela não evitaria as lágrimas da mãe. Aquele seria o momento que o seu coração se libertaria das suas mãos qual pássaro vivo, na afã procura de uma nova vida. Olhou com coragem o rio e procurou chamar Gabiru. Ele tinha de o ajudar a procurar o caminho para lá do horizonte. Pitu deixava a aldeia naquela madrugada na procura de outras madrugadas, lá longe, onde os mais velhos dizem morar as princesas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Naquela noite alguem me tocou o ombro...seria Deus?

Sobradais já ficara para traz. A brisa suave que corria junto ao rio deixava-se de sentir á medida que subíamos ao povoado. Olhando para baixo do cimo da íngreme subida, rapidamente o cansaço deixava as pernas com o êxtase de ver a paisagem maravilhosa da foz do Tua. A vindima tinha sempre o doce sabor de uma novidade renovada.
A Néia subiu ao lagar pulou nas uvas e alegremente iniciou de calção curtinho e sorriso nos lábios uma nova experiência. Deu nas uvas os primeiros passos para beber meses mais tarde do tonel o precioso néctar que pelo mundo alegra reis e plebeus. O vinho tratado por mãos hábeis, a que o Porto deu o nome. Era enorme a alegria que o seu coração deixava transparecer e os seus lábios sorrir. Que experiência magnífica. Era hora de jantar. O Mário à muito que chamara e as tias estavam impacientes.
Da primeira colher de sopa, ao primeiro esgar de dor, decorreu o tempo de um sopro. Por um instante, um curto instante senti um trovão ribombar dentro do meu peito. Olhei as árvores pela janela e reparei que o vento as dobrava como o trovão teimava em dobrar as minhas pernas. Olhei nos olhos trêmulos da Néia e tentei sorrir. Abraçamo-nos como se explodíssemos um de encontro ao outro e só paramos no hospital. O tempo movia-se dentro de si próprio movido pelo desespero e pela angustia no caminho para Vila Real. Deitado na maca da ambulância que voava por entre o fogo que atravessava cada gesto do meu corpo ali estendido, pensava em tudo e em nada. Senti naquele momento o eco frio... gelado de um caminho para onde não queria ir.
Uma lágrima furtiva a ferver-me no canto do olho correu-me pela face e o encontro com uma cama dos cuidados intensivos pareceu-me difícil e agodizante. Foi vagarosa a noite. Não sei como não morri. Sentia o coração a rebentar no centro do peito e as mãos que carinhosamente tentavam agarrar a vida que teimava em fugir. Já a madrugada ia alta quando calmo e salvo adormeci.
Já o sol entrava pela janela e traçava laivos de luz que atravessavam o ar e se fixavam no saco de soro pendurado acima da minha cabeça, quando acordei a meio da manhã com um sabor amargo e pastoso na boca. Aos poucos fui dando conta dos contornos das coisas, das formas dos objetos e, principalmente do rosto da Néia a olhar-me. Os seus lábios suspensos, a profundidade infinita dos seus olhos. O seu rosto ganhou novas formas quando abri os olhos e sorriu-me. Finalmente eu também tinha vontade de sorrir.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Laços

Vinicius disse um dia..." preso eu estou por teus laços de amor". É verdade. Um dia, um certo dia entre Portugal e o Brasil, entre o mar e a floresta, entre as dores que muitas vezes nos atormentavam e as canções que muitas vezes nos embalavam, jurámos que este acto seria o sublíme momento de um percurso traçado no amor...no companheirismo...na lealdade. Foi portanto um passo dado para o futuro mas, bem amadurecido no passado. Mais uma vez, a exemplo de muitas mais atitudes, imperou na nossa decisão o bom senso alicerçado no amor conquistado em muitas noites de atracção comum. Nos muitos dias em que vivemos no universo mágico em que vimos nascer emoções desordenadas e sentimos a intensa fome de vida e de ternura, trocando caricías e risos d'amor. Estamos presos pelos tais laços de amor. Soubemos na nossa vida comum atar e desatar vários laços...unir várias pontas da corda que sempre puxou nossas vidas, sabendo que o caminho que escolhemos iria ao longo do seu percurso ter sobressaltos para os quais era necessário estarmos atentos e vigilantes, não permitindo que algo ou alguém se intromete-se. Soubemos distinguir sempre aquilo que nos unia daquilo que por meios menos ortodoxos nos queriam impor. Estou certo que o caminho que escolhemos terá ainda muitos laços para apertar. Mas tambem estou certo que o laço que com as mãos unidas apertámos no dia 3 jamais alguem conseguirá desapertar. Lágrimas e sorrisos irão combinar-se e diluirem-se na forma amorosa de estarmos na vida e no mundo. Num mundo e numa vida só nossa.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Palavras

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor,de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Nell

domingo, 8 de agosto de 2010

Voltar a escrever é complicado

Voltar a escrever e aqui é complicado. Mas sempre se arranja tempo para ler e escrever. Longe da Pátria são os jornais on-line que nos preenchem o tempo e a saudade. Escrever é da mesma forma a informática que nos leva aos nossos que de longe matam saudades de nós. Portanto hoje depois de voltar a casa com os meus cunhados que gentilmente me deram a oportunidade de conhecer Porto Velho capital da Rondónia no Brasil, sentei-me abri o pc e fui dar uma volta pelos jornais. Neste fim de semana de temperatura amena dei comigo a divagar e por, condescendência do calendário abro o postigo de atenção sobre o meu Portugal-português e as noticias que catapultam as alegrias e as tristezas dos meus conterrâneos. O ar parece tenso. Continua a novela do Freeport, a policia militar procura pistola desaparecida dna GNR de Chaves e, os Procuradores da Républica pare estarem de costas voltadas para o chefe. Aqui no Brasil as eleições dominam os midia. Tal como em Portugal vêm ai as promessas , os comicios e as falinhas mansas que sempre caiem em lugares comuns. As recentes investigações aos crimes terminaram com a indiciação do goleiro do Flamento e de um tal advogado. O mundial de futebol acabou e com ele as cantilenas repetidas sem alma e os prognósticos mais ou menos fantasiosos cairam por terra. Tambem os santos populares deixaram um cheiro a vazio nas noites lisboetas. Em Aveiro o Porto ganhou a super taça de futebol para tristeza dos benfiquistas, mas mesmo ali ao lado ninguem deu conta da violencia doméstica de um casal de imigrantes romenos. Tento encontrar o não dito, a raiz deste mal, deste desconforto que anda á solta e, a sensação que tenho é que nós estamos afogando o medo e as mágoas. Passam pelos nossos olhos as imagens do dia a dia mas sobra uma sensação de agua podre de um não dito que incomoda. Portugal perdeu...o Brasil perdeu...limparam-se as maquilhagens e o eterno palhaço do circo da vida retirou-se para o camarim chorando a glória perdida. Que interessa o resto. Há como é bom sentir a intensidade das pequenas coisas do dia a dia..provar um chopinho na Cervejaria da Gastronomia em Porto Velho, abrir a janela e olhar a chuva e, sentir o cheiro da terra húmida, ou abrir e olhar céu azul e o sol deste Brasil imenso e, apreciar os primeiros raios de um novo dia. Futebol???. Caraca como é bom começar realmente a apreciar a vida.

sábado, 7 de agosto de 2010

Numa manhã de Domingo...


Era domingo...parou de chover. Era como sempre um sonolento domingo. Colocas-te a mão sob o meu pescoço e deste-me um beijo na nuca. Um beijo lento...doce..suspeito, acordei com um arrepio porque achei um beijo suspeito demais. Antes de poder mover-me e descartar a idéia de estar a sonhar de te ver com esses olhos de amendoa reparei que a cama estava vazia. Ainda com o pescoço a doer no sítio onde caiu o beijo, senti que estava de facto a sonhar. Há como era bom que este domingo nunca tivesse nascido e eu o pudesse expulsar do calendário. Tu não estás comingo. Estás longe ...muito longe. A cama, a nossa cama, adormeceu íntima e amanheceu fria. Virei o corpo para o outro lado tentando adivinhar que tu estavas na mesma do meu lado. Chamei-te mais uma vez e esperei ouvir aquela voz que me faz suar-rir-dormir-sonhar, mas nada. Começa a chegar ao meu coração o fogo denso da paixão e eu vejo-te longe...passeando descalça por sobre o sal, o açucar e o sono. è como se tivesses fugido para a rua e deixado um silêncio misterioso no quarto. Eu sei que é uma coisa absurda. A Viagem é minha....o passeio é meu...as ruas sou eu que as piso....mas o silêncio é dos dois. É por isso que acredito que nos vamos amar ainda mais...noutra manhã de Domingo...sem chuva.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

De Santarém a Monte Alegre ...de barco

Quando me debrucei no gradeamento da orla na Praça Tiradentes o meu coração acelerou e a Néia sorriu. Hummmm é ali que vamos viajar?...perguntei. Sim...respondeu ela visivelmente sorridente. O seu sorriso em vez de me acalmar deixou-me intrigado. Era Outono em Portugal...e aqui um sol abrasador a par do medo, fazia o suor encontrar no meu corpo todos os caminhos. Tal como as árvores precisam agarrar-se ás raizes eu preciso de ter os pés bem seguros em terra. Água não é o meu forte. Olhei o rio e olhei o céu. As nuvens armam e desarmam infindáveis afectos no azul celeste . As águas do Tapajoz tal como á seculos abrançam o Amazonas mesmo ali á nossa frente. A azáfama na Praça Tiradentes é enorme e uma multidão procura caminho entre malas, camions e fardos de mercadorias. As águas do rio, essas não se privam de dar vida ás imagens que nelas se reflectem. Fez-se um silêncio duvidoso antes que a Néia me empurra-se por uma estreita tábua que me levaria ao convés do "Principe do Amazonas". Acho que nesse momento o sangue borbulhava nas minhas veias. De mala numa mão e segurando o medo com outra lá subi. - O meu coração fala contigo vento do rio...suspirei . De uma forma abruta o vento calou-se e sentou-se a meu lado. Tuga a viagem vai ser tranquila, eu não vou soprar. Acalmei. Era hora de perguntar á Neia como seria a nossa viagem pois não via bancos para sentar. Pude divisar no seu rosto um leve sorriso e da surpresa se fez luz...as redes...claro só podia. A brisa paulatinamente foi tomando conta do espaço e do tempo...o barco moveu-se, era hora de partir. Lentamente o " Princípe do Amazonas " fez-se ao rio. A um rio repleto de histórias, de lendas , mas um rio em que todos acreditam ser a origem de todas as coisas, o Amazonas. Muitos foram os que se aventuraram rio acima á procura da terra prometida...eu...procurava neste momento apenas o caminho para Monte Alegre. Aos poucos o medo foi desaparecendo, mas acreditem, que este acto de viajar sem colete salva-vidas não é para português que não sabe nadar não. A noite foi caindo, o luar foi abraçando o rio e eu fui abraçando o sono e a Néia que a meu lado velava pelo baloiço da rede. Já o sol rompia a madrugada quando o estridente apito do " Princípe" anunciava um novo dia e dizia ao viajante que Monte Alegre estava mesmo ali á nossa frente. Perdi o medo de andar de barco e ganhei um novo amigo.... o Amazonas

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Era Primavera...



Lembras-te?.....era primavera. Os rouxinois cantavam na planicie e a brisa suave anunciava o renovar da vida. Esperei-te sofregamente. O primeiro encontro foi um beijo curto...rápido. Reparei então que os malmequeres do chão davam um ar silvestre aos teus cabelos e bebi da tua boca o perfume do teu sorriso. Coras-te. Foi como um voo de uma borboleta se escondendo nos raios de sol do teu olhar. Depois parámos na falésia a ver e ouvir o mar lamber as rochas e olhamos o horizonte na areia da praia. Sentimos nesse momento vontade de nos embriagar com o sal das ondas que se esbatiam a nossos pés. Senti o calor do teu corpo numa volúpia de sensualidade misturando a saliva nos teus cabelos e deixando-me ficar tempo sem fim com o meu peito a sentir o bater do teu coração. Resolvemos voltar ao hotel e cair entre as flores campestres perfumadas de alecrim. Senti vontade de invadir o teu corpo, de percorrer os recantos da tua pele de misturar os suores dos nossos corpos. Depois deixámo-nos ficar inertes. Olhei-te nos olhos e senti a mesma brisa do mar que nos havia percorrido o rosto horas antes , para depois adormecer submisso á força dos teus gestos. Durante a madrugada voltámos a dar as mãos e percorremos o universo das paixões na busca de novas madrugadas. Fui á janela. Olhei o céu salpicado de estrelas e nas asas do pensamento deixei vaguear a minha imaginação. O teu corpo nú estendido na cama segredava-me fantasias e amor. Era primavera...o cheiro a alegrim ficaria para sempre na nossa memória deixando um sentimento forte...doce de inexplicável prazer.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Para ti Rose...minha irmã

Pensei hoje escrever-te uma carta minha irmã. Já o deveria ter feito á mais tempo sei disso, mas mais vale tarde que nunca. Aliás eu acho que chegou o momento certo para o fazer. A vida concedeu-me o desejo de te conhecer. De poder de perto conviver contigo. De poder aprender aquilo que os sentimentos mais puros ensinam quando dar a mão e ser solidário é a mais pura das virtudes. O laço que nos tem unido ao longo destes anos tem permitido te conhecer, te estimar numa palavra te amar. Tens me acompanhado nos bons e maus momentos. Tens conhecido as minhas fraquezas e tens compartilhado das minhas alegrias. Com as tuas relaçõs de afecto pude ganhar ao longo deste tempo a força suficiente para afastar medos e receios e assim me poder expressar de coração aberto para aqueles que amo e estimo. Sempre que a vida me pareceu difícil, sempre que o horizonte me pareceu longe de atingir tu estavas por perto, pronta a ajudar-me estendendo-me a mão quase sempre sem perguntas. Sempre te tenho dito que tens sido a irmã que eu nunca tive, a companheira a confidente. Saber que tenho tido o teu apoio incondicional me transmitiu mais alegria, mais paz interior e me ajudou a cuidar e a tratar o amor de uma forma bem diferente. Você é um exemplo de luta, determinação e espiritualidade para todos aqueles que vivem, lutam e trabalham á tua volta. O teu sorriso contagiante faz-nos sorrir e a tua determinação ajudam-nos a encarar o futuro com a mesma tranquilidade com que tu o encaras. E esse futuro, o futuro que tu dizes estar logo ali ao alcance de um sorriso é para ti o porto seguro de uma nova viagem. Quero...queremos te acompanhar nessa viagem porque sabemos e aprendemos que contigo o mundo não tem fronteiras e a amizade faz-se de actos de amor. Obriagado mana por nos fazeres felizes.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Abrir a porta de novo


Dei três voltas à maldita fechadura, virei as costas e fui embora. Para quê esperar
mais tempo. Arrumei a mala, peguei no casaco, e fui á procura da vida. E como a vida é simples. Olhei o vazio e reparei que ela, a vida, estava mesmo ali ao alcance das minhas mãos. Resolvi dar-lhe mais sabor e segurar a mão de quem me indicava o caminho certo. Era tempo de arriscar, e de me agarrar com sofreguidão ao último sopro de um momento que queria viver intensamente. Sinto que mudei. Mudei na forma de pensar, mudei na forma de encarar os outros, mudei até na forma de respirar. Queria pintar o meu mundo com as cores que eu próprio escolheria, dar mais brilho ao meu arco-irís, ir até ao infinito se para tal fosse preciso, na vertigem do desconhecido, sem receios para encontrar-me com o destino. E o destino obrigou-me a ir quaze ao fim do mundo para encontrar a felicidade, para encontrar o tal sopro de vida. Confiei-lhe os meus medos olhando-a de frente nos olhos. Respirei-lhe sofregamente a alma num desejo incontido de ser ela o objectivo da minha viagem, num insondável mistério que tantas vezes o destino me havia segredado ao ouvido. Tinha as suas mãos nas minhas mãos, a sua pele encostada á minha pele e sentia a sua respiração profunda e o bater descompassado do seu coração. Provei o cheiro salgado do seu corpo quando docemente adormeceu junto a mim. O amor fez-se silêncio. E o silêncio fez-me compreender que a viagem tinha terminado. O meu arco-irís estava ali a meu lado. A vida que procurava para lá do infinito afinal estava mesmo ali ao alcance de um beijo. O ar encheu-se de açucar e eu voltei a colocar a chave na fechadura e a abrir a porta de novo.

domingo, 18 de julho de 2010

Montemor-o-Novo....da janelinha ás Fontainhas


Conhecer Montemor-o-Novo, percorrendo lentamente as suas ruas é como sentir o cheiro das papoilas neste Alentejo de sofrimento e esperança. Nos tortuosos caminhos do velho burgo sentem-se imperceptivelmente os cânticos dos monges e, os odores das receitas das freiras dos velhos conventos. É aqui nas manhãs claras de um sol que acaricía que se descobre a cor singela do casario que o castelo protege. É aqui na serenidade do tempo que marca o quotidiano de gente de mãos cálidas que se constroi o presente e se desafia o futuro. È com o cheiro da manhã e as lágrimas do tempo que subimos ao castelo. Sentem-se solidões antigas em cada carreiro que nos leva ao Palácio dos Alcaides. Fervilham no nosso imaginário os amores e desamores de princesas mouriscas. Só a beleza da paisagem que se vislumbra aqui de cima nos faz voltar á realidade. Descer as escadinhas que nos levam ao Largo das Palmeiras é voltar a sentir essa melodia de luz que em cada passo enebria e seduz. As palmeiras abanam ao sabor do vento acenando ao céu como anjos guardiãs do largo e indicando-nos os caminhos do povoado e a beleza do conjunto arquitectónico. Pedras plantadas no passado que o homem moderno preserva e acarinha. Da Rua Nova ao Parque Urbano onde na serenidade das fontes se fazem juras de amor nas noites de luar até ao raiar da madrugada. Caminhando sob os ramos dos platanos e no silencio de cada passo a Ermida da Senhora da Visitação surge como Cavaleira da Luz perscutando no horizonte os caminhos que terminam no seu regaço. Dali somos obrigados a desocultar odores e aromas certamente vindos das rosas plantadas em seu redor. Montemor lá em baixo fervilha e nós aqui apetece-nos ficar até ao misterioso entardecer dos deuses. O pôr do sol começa a encher a planicíe. E de novo nas ruas que nos levam á baixa da cidade sente-se a primavera nas janelas floridas. A luz do velhos candeiros de metal projectam nas paredes as primeiras sombras de uma noite de lua cheia. Lua que nos espreita serena e luminosa encaminhando-nos aos sabores de mil pratos que a gastronomia alentejana sempre festeja quem a visita. E por fim brindamos com um tinto da região á esperança de uma manhã renascida e ao desejo de voltar breve.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Espero encontrar-te um dia...

Dizem que o coração consegue guardar as tristezas indefinidamente. Não creio. Hoje elas transbordaram do meu peito com violência. Se o peito é aquele sitio onde a alma repousa, se o peito é aquele lugar que sangra de saudade, então ele hoje bate de tristeza. Faz anos que te perdi minha mãe, numa tarde de quarta-feira, nas asas de uma borboleta voas-te para lá do paraiso. Nesse dia perdi a noção do tempo. Fixei o olhar no céu á procura do rasto luminoso que de certo marcou a tua viagem. Em vão. Deu-me vontade de chorar...mas os olhos ficaram vazios. Tirei os olhos do céu num derradeiro esforço de vislumbrar o caminho ou o novo lugar para te encontrar. A morte é estupida é má, porque só leva quem faz falta, e que falta me ficas-te a fazer minha mãe. Quando me recolho nos meus pensamentos penso muitas vezes em ti. Vejo-te á janela a olhar a lua. Continuo a sentir os teus lábios a cantar-me canções de embalar naqueles noites dificeis de insónia. Ai minha mãe como eu adorava as tuas canções. Sinto muitas vezes que andas por aqui a abraçar-me quando me deito ou a aconchegar-me a roupa da cama quando está frio e levares a mão á boca num beijo de depedida quando a luz se apaga. Mãezinha sinto tantas saudades. Sinto saudades do sorriso... do teu olhar. Tu era a minha estrela do mar que orientava o meu caminho, tu eras o meu sol que me trazia a aurora em cada dia. Já passaram uns anos depois do nosso último encontro, mas hà momentos que nos ficam para sempre, que guardamos no segredo e em silêncio. São só nossos...meus e teus. Hoje continuo a acreditar que a tua força, a tua intuição, a tua crença me ensinaram a trilhar os caminhos que fizeram de mim o que hoje sou. Hoje vejo-te sempre a sorrir caminhando numa nuvem branca num céu azul. Mesmo que a vida me leve por muitos caminhos, espero um dia me voltar a cruzar contigo.....porque te continuo a amar minha mãe.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Belem e o mar de mãos dadas


Em Belem o mar e o céu dão as mãos no horizonte, para se voltarem a abraçar para cá das margens.Belem onde o silêncio dos mangais se confunde com o barulho das vendedoras em Ver-o-Peso. Belem de mil cores e imensos sabores. Belem do forte onde os portugueses deixaram a marca da sua passagem e onde a Senhora da Nazaré abençoa a gente que trabalha e luta por uma vida digna. Porta do Amazonas, em Belem se escuta em cada rua em cada praça o som das palavras cantadas pelos poetas. Paragem obrigatória, nas Docas bebe-se uma cerveja ao cair da tarde esperando pelas noites claras e as manhãs tranquilas.Depois escuta-se em cada passo a musa que canta para nos levar a Ver-o-Peso.E aí misturando o cheiro salgado que vem do mar com os cheiros de mil misturas e de mil pregões, as vendedoras dos chás e dos caça-maridos, espiam-nos pelo canto do olho enquanto estudam a melhor forma de nos vender de tudo para tudo. Ver-o-Peso a misteriosa, cheia de histórias e de desejos,onde tudo se aprende e tudo se compra. Quando batem as 13 horas chegou a hora do pato no tucupi e do tacaca, do açaí e dos sucos naturais deliciosos para depois rumar cidade dentro até á Catedral da Senhora da Nazaré e assistir á maior prova de devoção que alguma vez assistimos : O Cirio da Nazaré. Para milhares de peregrinos é a altura para pagar promessas e agradecer os milagres alcançados. O Círio é um conjunto de rituais que mobiliza toda a população. A procissão é o evento principal. Mais de um milhão e meio de pessoas, comprimidas ao longo das ruas numa impressionante manifestação de fé. À noite o arraial, altura para mil juras de amor e o divertimento. Belem tem muitas formas e muitas cores mas só um segredo, o desejo do viajante de voltar.

Amar na Amazónia


De olhos fixos na rua vejo a chuva cair de encontro ás vidraças da janela. Os pingos caiem numa sucessão serena e sincopada cada vez mais fortes cada vez mais intensos...cada vez mais belos. Parecem as baguetas do baterista num ritmo de bossa nova. Para lá do rio, algures entre o Tapajós e o Amazonas o arco iris dá as boas vindas á noite. è uma sensação de tranquilidade que não tem explicação. É inverno na amazónia. A mata revigora-se, e os animais matam a sede, a vida faz-se vida.É tempo do caboclo na sua sabedoria intuitiva que foi cultivada com tempo e sabedoria se recolher interiormente com o Divino e acertar com esta terra prometida a proxima jornada. Faz sentido. A mata funciona para todo o mundo aqui como fonte inspiradora e catalizadora. Esta região provoca alucinações maravilhosas como uma droga de amor que nos leva de asas brancas a sobrevoar todo o imaginário. Cinco séculos depois dos portugueses aqui terem chegado devo estar a reparar nas mesmas árvores, no mesmo rio, na mesma paisagem deslumbrante. Direi até que provavelmente os pingos de chuva são os mesmos.É gatificante ver aqui como as novas gerações sentem o prazer de descobrirem cada momento do revigoramento da natureza.É fácil aqui combinar a natureza com o amor, porque cada passo que damos no musgo verde da floresta é como se ela toca-se no mais íntimo da nossa alma beijando-nos com magia e encanto. A amazónia excita-nos.

Serra da Lua


Levantámo-nos hoje bem cedinho. O sol já queima em Monte Alegre e sente-se a maresia que o rio deixa no ar. O destino de hoje é a Serra da Lua. O Alonso ultima os preparativos e o Nelsi como sempre dá as ultimas instruções. Um homem descalço de bermuda encostado ao reboco das paredes da igreja observa-nos e a Rosa como sempre apaparica-me com mais um docinho. A ordem é subir ao onibus improvisado pois a aventura vai começar. Todo o grupo ta animado apenas a Rose parece ainda dormir de olhos abertos.Parecemos um grupo daquelas pessoas felizes que vemos nos filmes americanos das tardes de domingo na Globo.O movimento da camioneta na areia branca do caminho faz uma borboleta bater as asas e pousar-me involuntáriamente entre os olhos. As sombras das árvores da mata projectadas no caminho fazem lembrar as imagens fantasmagóricas dos duendes dos contos de menino. À medida que avançamos as palavras são insuficientes para descrever o encantamento.o Elno no banco traseiro brinca com os dedos da namorada enquanto os seus olhos percorrem os dela á procura de desejos comuns. O tempo vai passando diferente para cada um de nós. A Néia recem operada vai junto ao Alonso no banco da frente. É ela que recolhe as imagens. Todas as imagens que se movem á nossa frente em tons esverdeados, até mesmo as pedras a quem o vento e a areia deram movimento e forma. E num momento é como se o mundo parasse e deixa-se de fazer sentido face ao deslumbramento do que vemos. Por todo o lado colocadas na pedra mensagens que nos falam de vivências passadas. De outro mundo que existiu.Chegamos ao "Pilão" no topo da serra. Um unorme bloco de granito suspenso nas alturas onde apenas só Deus sabe porque ele não cai marca o fim do nosso destino. A paisagem é indiscritivel. Aqui no alto onde a natureza conversa diáriamente com Deus o silêncio apenas é alterado pelo som do vento que nos aconselha a cerrar as palperas sobre os olhos e interiorizar cada segundo...cada minuto da nossa vida. Aqui no alto, onde a beleza tem a forma de um coração, aqui onde os espiritos aconselham ao recolhimento tudo é perfeito. É hora de regressar. Pelo caminho tempo ainda para retemperar forças e conhecer a caverna da onça. Chegámos a Monte Alegre já o sol beijava o rio. O Kauan correu para os meus braços e eu prometi um dia voltar ao "Pilão" para sonhar de novo.

Como o Monte é Alegre


É uma coisa bem estranha. Derrepente sentimo-nos em casa a milhares de kilómetros de distância da terra que nos viu narcer. Monte Alegre bem no meio do Pará, nas margens do Gurupatupa é uma ilha encantada. O sol aqui é o do meu Alentejo. O verde das mangueiras junto ao meu apartamento dão um ar poético á minha varanda. E como é fácil comer uma manga bem docinha. Basta estender a mão. Os dias cheios de sol e luz e as noites com luares de prata convidam a prolongadas passeatas. Ver o rio do miradouro da cidade alta e a paisagem que se disfruta é como um banquete de iguarias. O montalegrense é alegre, canta e dança o brega e o carimbó com energia, briga com o vizinho com mestria, seduz com arte, embebeda-se com paixão e ama o rio do fundo do coração. O pôr do sol em Monte Alegre é tão violento e belo como as tempestades. Conversa fiada dirão. Mas sei do que falo. Quando o marasmo do dia a dia me enjoa, subo á cidade alta ou vou namorar as margens do rio. Beber uma cerveja e conversar com o Frei Miguel, um alemão enorme com uma pronúncia bem caracteristica, é a melhor forma de ajudar a passar o tempo nas noites quentes de Outubro. E quando nos recolhemos ouvindo o vento falar com as árvores até que o sono nos obrigue a fechar os olhos depois de contar ao silêncio os segredos do meu dia a dia, sentimos que cumprimos mais uma jornada. Regresso á realidade de outro dia a ouvir os pássaros e a sentir a aragem do rio acariciar-me o rosto. Quando um dia vierem ao Pará não deixem de visitar esta terra tranquila onde num raio de poucos kilómetros hà rio e hà montanha, hà paisagens de cortar a respiração, lugares poéticos para lavar a alma. Monte Alegre é um paraiso. È necessário saber respira-lo para saber ama-lo pra toda a vida.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Soneto de Amor

Não me peças, palavras nem baladas,

Nem expressões,nem alma...Abre-me o seio,

Deixa cair as pálpebras pesadas,

E entre os seios me apertes sem receio.


Na tua boca sob a minha, ao meio,

Nossas linguas se busquem, desvairadas...

E que os meus flancos nús vibrem no enleio

Das tuas pernas ágeis e delgadas.


E em duas bocas uma língua... unidos,

Nós trocaremos beijos e gemidos,

Sentindo o nosso sangue misturar-se.


Depois...abre os teus olhos, minha amada!

Enterra-os bem nos meus; não digas nada...

Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!


José Régio

sábado, 10 de julho de 2010

Aquela primeira noite no colégio

A noite caiu aos poucos. Dentro das quatro paredes enormes do velho convento começou a fazer-se silêncio.Estendido na cama,em cima dos velhos lençois de pano crú e de olhos vermelhos de tanto chorar pensava quanto a minha vida estava mudar. As sombras projectadas na velha aboboda da camarata e os sons provenientes do corredor não eram artificíos que própriamente me acalmavam o coração e me transmitiam segurança. Tinha perdido o pai e a mãe tinha sido internada no hospital. O beijo de adeus da avó na tarde daquela quarta-feira sombria foram duros demais para que consegui-se deixar de pensar. Eram altas horas da madrugada quando finalmente o cansaço venceu e adormeci. O sono não foi calmo os pesadelos acompanharam-me durante toda a noite e só o estridente trinar da campainha me fez saltar da cama num pulo. Que susto. O vigilante gritava aos quatros ventos que queria todos na fila dentro de 10 minutos.Minha santa mãe como era isso possivel. Tinha sete anos. Nunca me vestira sózinho..e...e como lavava os dentes em tão pouco tempo?. Desesperei...aliás chorei de novo. Uma voz grossa me chamou de novo á realidade. Era o vigilante me transmitindo um recado que de absurdo me pareceu uma sentença de morte. Dentro de 5 minutos o barbeiro do colégio mandava para a lixeira da cidade os caracois do meu cabelo. Era o princípio de 10 anos de uma nova vida. Estava passada a primeira noite do meu percurso de formação como homem.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O caminho da floresta

Caminho por entre as folhas num trilho coberto de musgos. Na memória nada de palavras. Apenas a tua ausência. Os pingos das árvores que choram nesta manhã caiem no chão e nos meus cabelos. E quando passo a mão pelos cabelos relembro nos teus aqui no manto vazio da floresta, quanto é diferente a minha vida longe...muito longe da tua imagem. É a tua ausência, a ausência dos teus beijos que faz o meu coração acelerar desejando encontrar o teu. Aqui não há palavras. Só silêncio. Fecho os olhos para não chorar. Continuo a caminhar e a pensar em tudo e em nada. A pensar quanto de bom seria ver o teu rosto neste caminho que me parece sem fim. Sinto um frio percorrer o meu corpo e revejo os teus olhos a tua boca sensual...os teus beijos. Oiço o som das araras por debaixo do manto verde que me cobre e paro. Apetece-me sentar.A humidade da erva macia faz-me bem. Era capaz de ficar aqui uma eternidade de olhos colocados no teu corpo. De mãos colocadas no teu regaço, sentindo o teu cheiro misturado com o cheiro das hortências do teu jardim. Aqui o amor transforma-se em tempo e o tempo mata o amor. Sinto que estou sózinho e eu nubca aprendi a estar sózinho. Não tive tempo de aprender a sobreviver sem os teus olhos...sem o teu cabelo...sem os teus beijos. E é imaginando a cor dos teus olhos que sinto falta do eu que há em mim. Aqui na floresta, no silêncio que nos acompanha,o amor é apenas solidão. O tempo passa sem se sentir o tempo passar vago e imcompreensivel. Volto a reparar nas árvores no seu perfil de encantamento e medo. As araras continuam a falar comigo, as gotas continuam a parcer-me cristais espalhando deslumbramento e, a solidão continua a marcar o meu caminho. Pousei a mão no ramo de uma árvore e senti o teu corpo ofegante querer-se agarrar ao meu. O teu desespero é o meu desespero a tua angustia a minha angustia. Derrepente senti que a selva estava triste. Era tempo de voltar.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

As lágrimas da saudade

Chove lá fora.Oiço no meu quarto a chuva bater nas vidraças. O tempo convida-me a reescrever no tempo o tempo que já foi escrito ao longo dos anos. Lembro a minha juventude...o meu companheiro de escola e de aventuras...o primeiro cigarro fumado ás escondidas. Relembro o primeiro amor e o primeiro beijo roubado. O tempo de uma adolescência agitada por mil encantos e alguns desencontros. O tempo em que eu acreditava que a lampada de Aladino resolveria os mil e um problemas das agitadas mil e uma noites da minha existência. Nunca me deti a olhar para trás. Hoje era diferente. Lembrei da Cuca e do ramo de rosas que lhe ofertei no aniversário. A Cuca adorava rosas, Relembrei os seua mil encantos e os seus beijos de paixão. As imagens antigas, aquelas que ficámos muito tempo sem recordar, possuem o estranho poder de transformar o tempo. Conheci a Cuca nos bancos da escola.Emergimos atordoados num amor impossivel. Ela era na altura o grande amor da minha vida.Revejo agora na escuridão do meu quarto a sua imagem e suponho que Deus nesta altura sentirá a mesma angustia que eu. Eu e a Cuca trocámos beijos apaixonados e fizemos tantas e tantas juras de amor eterno. Ela formou-se em medicina e um dia desapareceu. Abalou sem uma palavra, sem uma justificação. Por razões que o coração desconhece abalou da minha vida. Nunca mais a vi. Recordei-a um dias destes por ironia nas páginas do meu diário. A Cuca era uma mulher de encher o olho mas ao mesmo tempo meiga e doce. O seu olhar angelical bastas vezes me deixava a vaguear nas pupilas dos seua olhos. A Cuca morreu á alguns dias. Lembrei-a hoje na melancolia de uma noite de chuva e já sinto saudades. Fui á sua despedida. Nesse momento derradeiro deixei cair na terra que cobriu o seu caixão as lágrimas que não derramei na sua despedida. A Cuca estava ali a olhar-me com o mesmo sorriso com que um dia me disse que eu era o homem dos seus sonhos, Que loucura pareceu-me ver correr na sua face de cera uma lágrima cristalina e lembrei-me da mesma lágrima que caira nas rosas que eu lhe ofertara no dia do seu aniversário, só que esta era mais copiosa e acho que enterrava de vez o nosso amor. A chuva cupiosa a bater na vidraça da janela chamou-me de novo á realidade. É verdade chove lá fora, chovem lágrimas de saudade.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Alter do Chão...mil águas de encantamento

Chegar na orla e ouvir os pássaros na sua cantoria matinal, sentir o sol a percorrer
cada recanto da nossa pele e,na simplicidade das suas gentes sentirmo-nos espiritualmente reconfortados é como se subitamente nós ousa-se-mos abrir os braços e nos apetece-se voar. Voar ao encontro da tranquilidade e dormir na areia branca e fina, acordando nas estrelas. Embevecido caminhei devagar em direcção á praia e pisei a areia. Só parei na rebentação das ondas do rio quando senti o frio da água molhar-me os pés. Sentei-me. As ondas morriam aos meus pés. Que bom sentir o cheiro do teu perfume e o deslizar dos dedos pela areia dos teus cabelos. O sol nascia lentamente no horizonte. Toquei numa alga abandonada mesmo ao meu lado, era escura castanha e me fez lembrar a cor dos cabelos da princesa das águas. Juntei um pequeno monte de areia, coloquei os limos fiz-lhe dois olhos e, a princesa sorriu-me. Ainda bem que Alter do Chão existe para poder ver a princesa sorrir. Quantos poemas de amor já foram escritos nas tuas águas e quanta magia se ouve no silêncio das tuas matas. É mesmo ali junto ás aguas do lago que quando a noite cai e a lua se esconde com vergonha, quando as estrelas do céu brilham mais e a mata se verga de inveja, que se fazem juras de amor eterno.
Prometo sempre em cada despedida voltar a disfrutar contigo Alter do Chão, novos doces momentos. Voltar a abraçar-te em silêncio, sentar-me nas tuas margens encantadas até que o sol dê lugar ao brilho da lua. E, será em todas essas luas repetidas, em cada noite de regresso, que a minha lua morena e nua voltará para os meus braços. Serenamente vou esperar no meu silêncio, por voltar a encontrar-te Alter do Chão.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Compartilhar

Compartilhar.È tempo de compartilhar. Compartilhar ideias, compartilhar a mesa, compartilhar conhecimentos. Nos tempos que correm ser voluntário para dar e receber é previlégio para muito poucos. O Centro Comunitário do Bairro do Aeroporto Velho tem no seu programa de actividades variadas actividades que proporcionam á comunidade o acesso á cultura e ao desporto. Sã convivio
para uma população carente a necessitar de beber na "fonte da cultura" o néctar precioso que abre as portas a um manancial enorme de conhecimentos, no dia a dia da vida de cada um de nós.
Nunca é tarde para aprender dizia o sábio do meu avô. É verdade digo eu. Aprender a mexer nestas coisas da internet é a meta. Difícil?, talvez. Mas com a mesma vontade com que o mês passado me aventurei a entrar no mundo reservado aos blogueiros, tambem agora na sala de aulas estarei atento ás recomendações e ensinamentos do Leandro. Tenho de saber tudo aquilo, que faz dos blogs a moda de quem tem a mania de escrever. Não quero mais que postagens...Layout's...etc...etc. façam parte do meu léxico de desconhecimentos. Tenho mesmo que saber, a par de importar fotos, importar as matérias que fazem desta minha aventura o navio para a travessia do tal mar de palavras.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O silêncio do rio

O meu presente é o silêncio, tempo suspenso. Hora de meditar.
Mesmo sem querer fui levado pela orla. O tempo faz escorrer as palavras.
O rio convida e a Nilce faz-lhe a vontade.Convite feito é tempo de pensar no tempo
e o "Meneguetti" faz-se ao rio. Vamos rumar ao sonho, à aventura de navegar.
Santarém vista do rio é uma pintura alegórica povoada por uma multidão multifacetada.
A lancha continua rio abaixo como um ser deambulando pela cidade das águas mil.
A sua silhueta misturada com os pingos da chuva e abençoada pelo sol reflecte-se nas
águas criando um jogo de espelhos. Os botos saúdam-nos mais á frente e a graciosidade
dos seus movimentos desenham a cidade que nasceu mesmo ali acariciando as águas.
O japonês prepara o churrasco, enquanto nós, surpensos no tempo, esquecemos as faces da multidão que percorre o quotidiano das ruas.Vejo e revejo os contornos da mata.
O rio sem fim é uma narrativa visual. As nuvens cinzas por cima, num céu que nos abraça,emprestam novas tonalidas confundindo-nos numa sucessão indeterminável de
planos e linhas. É o rio Tapajós em toda a sua magnitude. Chegou a hora deixar a solidão e mergulhar no churrasco. O japonês á muito que bateu na panela. O pessoal frenético junta-se á volta do assador. Indiferente á confluência dos rios Tapajós e Amazonas o "Menenguetti" lá vai falando com as águas e com os botos no regresso.Já a noite ia longa quando o último peixe caiu no balde. O "Menenguetti" atracou. O Jaime vai ter pena de se lembrar logo hoje de se armar é em mecânico.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Vem por aqui

" Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: " Vem por aqui " !
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre â minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós reponde
Por que me repetis: " vem por aqui " ?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil !
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cântigos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguem.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguem me dê piedosas intenções!
Ninguem me peça definições!
Ninguem me diga: " Vem por aqui" !
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí !
José Régio
(poeta portugues)

A rua Marajoara numa Santarem com chuva

Resolvi hoje escrever de novo.Com um suspiro entrei em casa, olhei a rua e, sentei-me.
Olho a minha rua e dou comigo a divagar e, por condescendência lá vem o meu Portugal á ideia.
Abro o pc e as habituais páginas dos jornais catapultam-me para lá do oceano na Europa onde a terra acaba e o mar começa. O Benfica ganhou ao Sporting. Lisboa esta noite deve ter cheirado a
sardinha assada. O PSD tem novo presidente a posse vai ser o habitual. Cor, solenidade, discursos e promessas...muitas promessas. Vem aí o mundial aqui como lá é saber se o Dunga convoca o Ronaldinho Gaucho. As habituais cantilenas repetidas sem alma, as falinhas mansas repetidas neste comboio descendente de lugares-comuns. Em Lisboa ninguem explica ao povo como a vida está cada vez mais complicada e no Rio de Janeiro só no monte do Bumba escorrem lágrimas por aqueles que um dia por necessidade deixaram o suor..o trabalho...as lágrimas e a vida debaixo
da terra que deveria ser tapete verde da esperança. Ninguem sabe explicar o medo difuso dos meus patricios brasileiros com a onda de violência que avassala nesta ou naquela rua nesta ou naquela cidade. Quem se chateia com mais uma morte em Lisboa com overdose de cocaina ou ainda...ou ainda...ou ainda. Vem ai o Mundial de futebol. O Brasil vai ganhar...Portugal vai ganhar
que interessa o resto. hà como é bom sentir a intensidade das pequenas coisas da vida, abrir a janela olhar a rua Marajoara e ver chover, sentir o cheiro da terra humida, ou olhar o céu do Pará. Ai como é bom sentir o aroma do café. Futebol?...caraca como é bom hoje começar a apreciar a vida.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O Alentejo aqui tão perto V

Sentia-se a brisa percorrer os cabelos desalinhados. Os botos mergulhavam e se preparavam
para nos deixar. O sol no horizonte percorria os ultimos metros de céu para que, qual lençol cor
de fogo desaparecer nas águas do rio. O rio esse, continuava dar o corpo para que o navio da minha esperança aporta-se a bom porto. Ali bem ao lado, cada galho do arvoredo da mata, modelada pela
mão de Deus, deixava transparecer no nosso olhar formas de bailarinas que num constante rodipiar
afugentavam espiritos maléficos da nossa imaginação.
O navio apitou tres vezes dando as boas noites ao rio e á floresta. Fez-se silêncio. Na amurada, sentado numa cadeira de baloiço e, deixando vaguear o pensamento pela noite e pelo silêncio, olhava as águas de prata beijadas pelo luar e a fantasmagoria da floresta, tentando, a cada momento, ver aparecer a princesa que um dia resolveu casar com o rio.
Fora um dia de constantes e surpreendentes surpresas. A viagem que para os habitantes destas paragens não passam da ligação entre o ser e o fazer, para mim foi algo que nem a imaginação
fértil de um qualquer aventureiro poderir construir. Ao meu Alentejo de terras agrestes de imensas planíces, onde o pão é ganho cada dia á custa do sofrer na pele a diferença do nascer na esteira, se contrapõe o verde da esperança, o azul do futuro e prateado do caminho da redenção.
É o Amazonas em toda a sua magnifica plenitude. É o Amazonas que ao longo de séculos tem funcionado como veia transmissora da seiva de todos os sonhos e, onde a alma de cada um daqueles que acreditam que o futuro está logo ali em cada curva do rio, se retemperam para a
aposta num mundo melhor.
O rio sorriu pela ultima vez neste dia.
É hora de adormecer.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

È hora do regresso

Vai sendo tempo de regresso....regresso ao mundo da água que sempre acalmou os calores do nosso amor....regresso ao tempo dos pássaros que á nossa volta cantavam os hinos da alegria de cada novo dia...regresso ás manhãs em que respirávamos o ar puro que o nosso rio enlevado pelo nascer do sol nas acariciava a face nos dando os bons dias...regresso ao passeio na calçada da orla, onde sempre jurámos que jámais deixaria-mos de nos olharmos nos olhos quando em comum planeásse-mos o nosso caminho futuro. O futuro está aí....a horas ...a dias de se concretizar. Hoje quero-te dizer como á tres anos atráz que quero que o meu futuro seja sempre a teu lado. Tal como á tres anos quero dizer-te que te continuo a amar da mesma forma e com a mesma intensidade.

Palavras

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.



Alexandre O'Nell

Niver... é quando o homem quizer...

Como diz o poema hà palavras que nos beijam como se tivessem boca...
é verdade o que diz o poeta. Palavras que são mensagens de amor
porque o amor sempre se encontra no meio das palavras. Palavras de esperança...porque a esperança sempre foi tudo no nosso amor...
sempre foi um rio de imenso amor. Em cada letra.....como em cada palavra...
em cada beijo...como em cada caricia... sempre...sempre as mensagens de
amor se encontraram na esperança daquilo que o futuro nos reservou...
amar com paixão. Palavras nuas...esperadas como sempre esperei, da
minha lua morena e nua.
É de noite, nesta noite que antecede mais um dia...
nesta noite no silêncio da lua, que te desejo felicidades neste renascer
de uma nova aurora. Com imenso amor...com uma louca esperança no dia que vai nascer que te beijo.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Alentejo aqui tão perto IV

O sol começa a deixar nas águas, nesta tarde quente, reflexos que mais parecem
o cintilar prata das perolas da princesa do rio. Apetece-me de novo escrever. Fazer sair neste rio
de águas calmas um rio de palavras que escrevo com lápis da cor da alma.
Olho para lá do horizonte. Lá onde a água se junta ao azul do céu e vagueio
o meu pensamento. Agarro com os olhos a beleza do rio e sonho. Embrenhando-me
na floresta das palavras que correm ao sabor da brisa que subitamente percorreu todo
o navio de lés a lés. Paro a escrita. Deixo o lápis escorregar pela palma da mão e, fixo as
águas. Vislumbro com a ajuda desse céu azul que me apazigua os sentidos várias figuras
no rio. Oiço um cântico de gemidos compassados que vêm subitamente acalmar e
adormecer o medo que paira nos meus sonhos. Caminho agora pelo significado das palavras
do Comandante, e percebo quando ele me dizia para estar atento ao rio. Que beleza...que
encanto...que afago á minha alma. Na minha frente, acompanhando o navio cantando hinos
de louvou ao viajante eles aí...os botos. Com um sorriso do tamanho do rio o Comandante
exalta a minha sorte. Portugues vc vai ter sorte no futuro. Porquê indaguei. Dificilmente
numa primeira vez um passageiro do meu navio avista o boto rosa. Lá estavam eles
saltando no e para o rio. Um deslumbramento. Um espectáculo fantástico e divino.
Voo com eles para um tempo que não conheço. Mas como eles, quero acreditar que no fim
do rio a destino vai marcar o meu tempo.

sábado, 27 de março de 2010

Voltou de novo a nuvem passageira. A nuvem dos teus sorrisos...a nuvem dos meus beijos.
Voltou sózinha. Que dor. Pensei que te trazia de volta. Pensei que por ela te apertaria de novo
nos meus braços. Apenas senti que o meu coração, qual pássaro vivo, ficou preso nas tuas mãos,
a latejar teimando viver junto ao teu.
Vou esperar a madrugada. E esperar-te naquele recanto do jardim, onde tantas vezes
as nossas mãos procuraram enlaçadas uma na outra, vislumbrar-mos o caminho que nos
levou tantas e tantas vezes ás estrelas.
Vou esperar-te na madrugada, suspirando por outras madrugadas. Vou sentir o teu cheiro
nas rosas que tantas vezes colhi para ti e, vou deixar que as minhas lágrimas de saudade caiam
junto ás gotas de orvalho que das nossas rosas caiem todas as madrugadas.
Vou sentir as tuas mãos percorrendo o vazio da minha alma, e os teus lábios nos meus á procura
da seiva que alimenta o nosso amor.
Vou estar nesta madrugada atento ao chilrear dos passáros na afã procura de houvir a tua voz e,
quando o nosso rouxinol aparecer, pedirei que te leve nas asas do vento, o doce suspiro da sua
bela e melancólica cantata. Ele deixará no teu regaço os beijos que nesta hora gostaria de depositar nos teus lábios.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O Alentejo aqui tão perto I I I

O duche improvisado no convés do Amazom Star despertou-me os sentidos.
O calor tinha subido uns graus, tornando a humidade do ar convidativa ao banho.
O movimento de vai vem dos passageiros aliado ao colorido dos bikinis.....dos shorts...
ou simplesmente dos chapéus garridos da garotada, fazia desta tarde o tiro de
partida para novas sensações. O almoço foi frugal....rápido como se quer num espaço
super ocupado. Todo o mundo subiu depois ao bar....a musica.....o café...e o bronzeamento
das mulheres paraenses era colirio para os olhos menos precavidos.
Três horas da tarde. Os sons estridentes da selva, o manto verde junto á água, o céu azul
abraçando o rio e, o efeito de uma caipirinha convidava ao sono. Não optei por dormir. Respondi antes ao convite do Comandante do navio para conhecer a ponte de comando e alguns dos
segredos deste rio que sempre despertou paixões. De facto a visão daqui é outra. O rio é
mais abrangente...parece nos querer abraçar à medida que o navio sulca as suas aguas
esventrando as suas entranhas. O Comandante e o imediato simpatiquissimos como todos
os brasileiros lá vai explicando o porque dos instrumentos de bordo e os segredos da sua
utilização. O arvoredo continua ao nosso lado indiferente á minha ignorância. Um paraiso
que a natureza continua teimosamente a manter contra ventos e marés da depravação do
homem. O sol vai transformando as águas do rio num mar cintilante de prata e diamante.
Finalmente numa curva mais apertada do rio o segredo mantido pela minha companheira
é desvendado. Como por encanto dezenas de minusculas canoas saem do emaranhado das árvores da selva ao encontro do navio. Espanto. São crianças. A maioria crianças que no
desejo sempre renovado em cada viagem vêm receber um doce....uma balinha...ou um biscoito
que mãos solicitas lhes atiram da amurada. Um perigo digo eu. Um hábito diz o comandante.
Cada hora, cada minuto, cada segundo este rio nos deixa encantados com surpeendentes
revelações. E os meus olhos continuam á procura dos botos.

domingo, 21 de março de 2010

Tudo começou com um clikar

Tudo começou com uma mera brincadeira...um clikar. Tu lembras-te.
Um simples clik...a janela abriu e lá estavas tu. Um chat...uma palavra...um despertar.
A vida atropela-se de tal forma, que nos envolveu num turbilhão do qual nunca mais saimos.
E o clikar passou a ser um jogo que nos dominou a vida, a vida não de um personagem
de um filme, mas antes a vida de dois seres que souberam resistir...que souberam esperar...
que souberam amar.
Colocámos a alma...o coração e a vida...unimos o nosso destino. Tudo por um clikar.
O inicío de uma paixão...o começo de um amor...o traçar de um novo destino.
Depois veio o primeiro encontro. A conversa leve e insinuante, a troca de beijos quentes,
as caricías mais ousadas encobertas pela doce brisa da noite. Foi a confirmação.
O nosso caminho estava traçado. Quantos momentos assim depois vivemos?...muitos.
Depois metade de mim foi a partida...a outra metade a saudade. A separação dolorosa.
Depois foi o voltar a acreditar de que quando se ama verdadeiramente nunca se perde.
E esperar pelo reencontro com a própria vida... o reencontro com o próprio momento.
O momento que vai trazer de novo o gosto perdido dos beijos de amor... o calor
dos teus braços inesqueciveis...o eco das tuas palavras...a vida dentro da própria vida.
Falta pouco meu amor. Falta uma mão cheia de dias...uma mão cheia de desejos...
uma mão cheia de olhares. Tenho vontade de te abraçar. E, neste momento, quero
dizer-te que desisti de desistir de te amar. Porque tu és a vida ...tu és o amor.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Eu existo

Pega a minha mão.
Aproxima o teu do meu corpo, deita o teu calor em cima
da minha alma. Vem, aproxima-te, chega-te a mim.
Meu amor o tempo não espera.
Vem... saboreia os meus beijos.
Oferece-me a doçura teu corpo e eu cantarei uma serenata
sob o brilho das estrelas. Vem com as ondas do rio,
eu serei o verde da selva da nossa paixão,
eu serei o luar que do convés do nosso navio...
ilumina o nosso amor.
Pega a minha mão.
E no porto seguro do nosso destino vem refugiar-te
nos meus braços.
Vem meu amor. Sobe á mesma nuven que levou os meus beijos
e vem enxugaras lágrimas ao coração que te adora.
Vou deixar lá escrito,na infinidade dos meus sonhos,
que o tempo nunca mais pare para mim.
Ao cair da noite a lua beija-me a alma...
procurando minorar as saudades.Prometendo-me,
com mil sorrisos que em breve te abraçarei.
E no amanhã do nosso destino, quando tu ouvires o canto
das aves que saiem da selva e observares a graciosidade
da dança dos botos que nas aguas revoltas do rio deixam
mil pirilampos de cristal, lembrar-te-ás que aqui,
onde as mil juras de uma promessa por cumprir...
eu existo.
E, neste silêncio de palavras com sabor a saudade,
liberto-me da prisão dos sentidos e solto as amarras
das plavras que te escrevo para te dizer que te amo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Alentejo aqui tão perto I I

Já o sol ia alto quando, espreguiçado no leito do camarote, senti a doce brisa que o rio programa todas as manhãs para me acordar. Era um novo dia, uma nova manhã de um percurso que prometia desejos, sabores e odores que só o Amazonas pode propiciar.
Da cabine do piloto, logo ali do meu lado, saiu o silvar de um estridente apito. O navio dava os bons dias á selva....ao rio...e aos passageiros. De braços abertos como que querendo tambem eu abraçar o verde da selva e o azul do rio, respirei fundo para sentir aquela brisa única. O café da manhã era o ritual primeiro. Os rostos da vespera voltavam a alinhar sorrisos, a enfileirar conversas a recordar emoções. Era o despertar para de novo voltar a enlear a alma com os olhos , o coração com os sentidos. Ali de novo ao alcance de um dedo o rio voltava a despertar paixões, a iluminar sonhos e a proporcionar a mim a aventura que tanto sonhara. Sentia ali da amurada o cheiro da verdura, o fresco daquelas aguas revoltas e, até o chilrear dos pássaros que a cada segundo diziam-nos que aquele era o seu território. Tinha sido avisado. Os olhos deveriam estar atentos...os sentidos despertos. Os botos poderiam aparecer de um momento para o outro.

Procuro-te no vazio da minha alma

Procuro-te no vazio que enche minha alma, no silêncio que grita em meu ouvido, deixando notas de uma canção . Melodia de um doce amor, eternamente marcado pelas palavras e para sempre gravado no ritmo do meu coração.
Procuro-te nos cheiros da Amazónia que me envolvem e que trazem a memória tempos passados e nas cores que pintam minha vida de saudade. Lembranças de sorrisos que ainda hoje ouço no riso das estrelas das nossas noites de amor.
Procuro-te no sol que queima mas que dá vida a vida, trazendo o calor do sentimento num raio de sol que entra pela janela do nosso quarto... Na lua que ilumina a escuridão com suas estrelas e que numa luz terna de seu luar faz deslumbrar as mangueiras junto há nossa varanda, faz dançar as sombras que se transformam em corpos unidos
Na chuva miudinha que cai na praça junto á Igreja de S.Franciso... Neste rio que amo... No sorriso e na lagrima...
Procuro-te fora de mim por estes caminhos que esperam meus passos. Que se escrevem diante de meus olhos com palavras de ternura e de um carinho imenso, mas no qual eu não temo me perder porque te quero reencontrar !
Procuro-te em tudo o que me rodeia, no sonho e na esperança, na realidade e no desejo, no dia e na noite...
Procuro-te por todo o lado e sei que te vou encontrar de braços abertos há minha espera...
Onde estás alma minha que deixa meu coração num compasso descompassado, batendo ao ritmo do tempo que corre, á procura da vida que quero seguir...
Amor meu que prende o sonho no horizonte e espera que o dia se faça noite e noite se faça dia...
Onde estás anjo que com tuas asas de doçura me envolves em cada momento num abraço de ternura?..Vem meu amor...vem para mim porque te amo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A partida deixa saudades

Amor chegou a hora de te escrever de novo. Partis-te deixando no meu coração a certeza de que um dia voltarias. Desde esse dia que tentei prender-te com todas as minhas forças desejando que te acabasses por render á esperança de um amanhã sonhado. Na esperança de quem só tem um futuro, de quem nada mais vale sem o teu cheiro, o teu sorriso, a tua nudez, os teus cabelos ....o teu sorriso. Fiquei guardião solitário dos tesouros que me ofereces-te divagando neste tempo de ausência pelas fantasias que a paixão inventava. Tornei-me um sonhador compulsivo porque os sonhos sempre transportaram as palavras que me saiem da alma.
Enquanto não estavas ficaram na memória de um tempo sem tempo o desejo enorme do teu regresso.Deixas-te-me no silêncio de um adeus, com um beijo roubado na voracidade das saudades já sentidas na partida. Sempre percebi nos sinais que me deixas-te...que o caminho de volta sempre seria a realidade do futuro por nós escolhido. Procurei nestes meses redimir-me da pressa de te amar, afungentei de mim as sombras que nos perseguiram, deixando apenas que se infiltrasse no meu sossego a nostagia do teu calor, e no cenário solitário do nosso quarto aprisionei a ilusão de um sonho adiado. E nesta noite, com a pena solta na ventania das palavras que te escrevo, tento tocar suavemente a tua alma de novo. Sei que sabes que te amo. Sei que sabes que te quero aqui do meu lado. Tenho uma lágrima minha presa nos teus olhos meu amor. Deixa-a correr para os teus lábios e sente a paixão que me domina.Queria dizer-te num abraço apertado que te amo deixando correr os meus dedos pelos teus cabelos ...e acordar amanhã já contigo a meu lado. Ta breve sei Néia. Todos os momentos que não tivemos esperam-nos para caminhar-mos de mãos dadas na certeza de que o amanhã é nosso.Meu amor deixa-me dizer-te com carinho que nestes dias a minha alma amadureceu conservando inalterável a nossa linda história de amor.

O Alentejo aqui tão perto

Eram 15 horas. o Navio apitou tres vezes. Tudo e todos se preparavam para zarpar a caminho do sonho. O suor escorria pelas faces tisnadas dos tripulantes, os gritos das crianças ecoavam pelo convés. Era tempo de cumprir o rio. Á medida que Belem ia ficando para trás, o destino iluminava o novo rumo do barco e da minha vida. Estava cumprida a promessa de cavalgar nas aguas que um dia não muito distante me haviam sussurado que Deus vivia para lá das arvores e, que para lá das arvores existia um novo mundo , uma nova vida.
Percorri a escadaria que do meu camarote me levava ao andar inferior e, a primeira surpresa surprendeu os olhos que de espanto olhavam as imensas redes coloridas quais borboletas esvoançando por todo o espaço. O sono de uns, a alegria pelo regresso de outros, ou ainda a surpresa dos que como eu presenciavam o espectaculo, davam vida ao Amazon Star.
Era tempo de deitar vistas ao arvoredo da floresta, olhar as aguas revoltas do rio e fixar o sol que ao longe dava as boas vindas á noite num espectaculo de sons inimagináveis. O Amazonas preparava-se para adormecer.